A queda do ouro branco
Redação DM
Publicado em 17 de setembro de 2016 às 03:54 | Atualizado há 1 anoForam divulgados pelo IBGE os dados mais recentes de captação brasileira de leite para o segundo trimestre deste ano, referente aos meses de abril, maio e junho. Para estes três meses, o volume de leite captado foi de 5,17 bilhões de litros, número 8,4% inferior quando comparado a este mesmo trimestre do ano de 2015. Em Goiás, o IBGE registrou a mais drástica queda nos últimos anos, da ordem de 16,2%. O fato é atribuído pelas fontes dos produtores ao desestimulo com as maciças importações do leite em pó do Uruguai e até da Nova Zelândia. Os produtores da região sofreram, ainda, com secas prolongadas que reduzem as pastagens e encarece a ração no mercado.
Segundo os estudos do IBGE, no acumulado do primeiro semestre, a captação de leite apresentou queda de 6,4% em relação ao mesmo período de 2015, com um total de 11 bilhões de litros de leite captados, uma queda de cerca de 750 milhões de litros em relação ao ano passado. Ao analisar o desempenho de captação das regiões brasileiras, em uma comparação a este mesmo trimestre do ano passado, apenas a região Norte apresentou alta, de 1,8%. Já as demais regiões apresentaram quedas significativas: Nordeste (-10,7%), Centro-Oeste (-14,6%), Sul (-7,5%) e Sudeste (-7,9%).
Maior queda em Goiás
Em relação a este mesmo trimestre de 2015, as quedas foram de -8,3% em Minas Gerais, -6,6% em São Paulo, -4,6% no Paraná, -2,5% em Santa Catarina, -13% no Rio Grande do Sul e -16,2% em Goiás. A aquisição de leite cru foi de 487,15 milhões de litros no segundo trimestre de 2016 no Estado, com queda de 16,2 % em relação ao segundo trimestre de 2015 (581,13 milhões de litros) e queda de 19,6 em relação ao trimestre anterior (606,38 milhões de litros).
No Brasil, foram adquiridos no segundo trimestre de 2015, pelas indústrias processadoras de leite, 5,17 bilhões de litros de leite com quedas de 8,4 % em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (5,64 bilhões de litros) e de 11,8% frente ao primeiro trimestre de 2016.
O Diário da Manhã em sucessivas matérias vem apresentando a questão dos preços do leite em nível de produtor e a contra-ofensiva também das indústrias de laticínios. As matérias têm repercutido inclusive noutros Estados. As importações desenfreadas têm merecido atenção.
Roberto Jank Jr., é consultor de mercado de lácteos em São Paulo. E já veio algumas vezes proferir palestras na Faeg. Ele estima em 6% a produção formal brasileira. Isso equivale a R$1 bi importados em R$16 bi produzidos entre janeiro e agosto. “É muito leite e certamente um dos motivos da queda acentuada e generalizada de preços”. Considerando apenas os meses após março, o percentual do importado fica ainda mais relevante, perto de 10% ao mês. É um dos motivos que acentuam as dificuldades do setor para evoluir.
Otavio A. C. de Farias, da Trading & Consultoria de São Paulo, comenta que balança comercial é desfavorável, porque o Uruguai e a Argentina não adotam o antidumping, mas “fizeram acordo de preços mínimos que estão sendo respeitados”. Segundo ele, a própria barreira tarifaria ajuda o Mercosul. O Brasil segue sendo um importador estrutural de lácteos. A barreira cria uma ineficiência no mercado de lácteos da região, inflacionando preços intra-Mercosul e no Brasil. Uma barreira comercial em qualquer país, provoca deslocamento do fluxo comercial para os outras origens – é o que acontece na Rússia com bloqueio da Europa.
No caso, os países do Mercosul, protegidos como estão, praticam os preços que querem. Em casos de quebra de safra como neste ano, e sem precedente nas ultimas duas décadas, “os aumento de preços se dá da forma que vimos, UHT dobrou para R$ 4,00/lt, Queijos e LPI dobraram para R$ 20/litros ou mais… E dessa forma, o Mercosul comemora, pois tem no mercado brasileiro destino garantido a preços bem acima do mercado mundial”, conclui.
Confirmadas importações
Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, as importações brasileiras de lácteos tiveram aumento em agosto. O volume totalizou 25,67 mil toneladas no mês. Na comparação com julho deste ano, a alta foi de 7,3%. Para os gastos, o incremento no período foi de 7,9%, totalizando US$65,14 milhões.
O produto mais importado foi o leite em pó. O país importou 16,56 mil toneladas, num total de US$42,90 milhões no mês de agosto. Os maiores fornecedores de produtos lácteos, em valor, foram o Uruguai, com 57,5%, a Argentina com 34,0% e os Estado Unidos com 3,8%.
No acumulado de janeiro a agosto, foi embarcado 81,0% mais em volume e 40,4% em valor, que em igual período do ano passado. A importação brasileira de lácteos aumentou 81,0% em volume acumulado do ano, segundo o Minter.
O leite de Goiás é o mais caro do Brasil
A indústria de laticínio rebate os produtores quanto aos preços do litro do leite in natura. Segundo Alfredo Correia, diretor executivo do Sindicato das Indústrias do Leite (Sindileite), as importações saem mais em conta do que comprar diretamente do produtor. E aponta taxativo: “o leite de Goiás é o mais caro do Brasil”. Com essa atitude demonstra que segue a lei do mercado. E, para dispor de um produto mais barato na indústria, aceitará oferta de leite em pó dos principais fornecedores mundiais, como Nova Zelândia e o Chile.
As importações brasileiras de produtos lácteos voltaram a subir em agosto deste ano, ampliando ainda mais o déficit da balança comercial do segmento. Nos oito primeiros meses de 2016, a diferença entre importações e exportações já alcançou US$ 301 milhões, três vezes o déficit de todo o ano de 2015, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento (Secex/Mdic).
As importações apresentaram elevação de 7,2% no seu volume em relação a junho. Houve importação de 12,2 mil toneladas de leite em pó integral em agosto (-9,6% em relação a julho); 4,4 mil toneladas de leite em pó desnatado (+91% x julho); 3,5 mil toneladas de soro de leite (+23,1% x julho) e 2,5 mil toneladas de queijo muçarela (+20,4% x julho).
As importações de leite em pó tiveram origem no Uruguai, que enviou para o Brasil 10,9 mil toneladas no mês de agosto e a Argentina, que enviou 4,7 mil toneladas de leite em pó para o Brasil e cerca de mil toneladas tiveram origem nos Estados Unidos.
Analisando as quantidades em equivalente-leite (a quantidade de leite utilizada para a fabricação de cada produto), a quantidade importada foi de 192,7 milhões de litros em agosto, aumento de 8,4% em relação a julho. Na comparação com agosto de 2015, o aumento nas importações em equivalente-leite é de 164%.

