Brasil

Sete de setembro ou primeiro de abril?

Redação DM

Publicado em 7 de setembro de 2016 às 02:59 | Atualizado há 10 anos

“Aparência, a ordem estabelecida é o fundamento mais seguro de um conservadorismo mais radical e que tem em vista instalar a ortodoxia política reta e de direita.” (BOURDIEU, 1989, p.44)

 

O Feriado da Independência aporta num Brasil ressabiado pelo “amanhã democrático” que renega a crise, o desemprego estrutural, apoia-se na mágica neoliberal manchete dos jornais, TV e Rádio da grande mídia estampadas pela propaganda ideológica a serviço do retrocesso e da falácia conjuntural. A efervescência social, real, latente, e, nas ruas das grandes capitais reafirma que “o (príncipe) deve, em épocas adequadas do ano, manter o povo ocupado e distraído com festividades e espetáculos” (Maquiavel).

E agora Josés e Marias deste País no qual os dias vindouros serão lembrados como o recomeço do ataque às conquistas da população? Os desejos mais infames da elite local arquitetaram a trilha estreita de mais um golpe, desta vez, político, assim como o fizeram a Getúlio e Jango, semana passada repetiram a farsa com Dilma Rousseff, renegando que a política traduz-se na arte de articular e não performance de grupos.

Agosto foi o mês do cachorro doido, de ipês florindo, dos tucanos presos acolhendo, mais uma vez, um golpe institucional. Os trabalhadores não se mostram propensos a dispersar, ao contrário, farão das ruas sua arena de discussão, expressão e reafirmação das conquistas democráticas até aqui alcançadas. Canalhas seguem governando municípios, Estados e Federação, independente da cor de suas bandeiras, e, no tamanho exato da ganância financeira e covardia praticada em desfavor da massa de manobra política, o eleitorado, trespassada por mais de 12 milhões de desempregados.

A história conta que a corrupção na Capitania de Cabral, desde o “seu descobrimento” é endêmica, herança histórico-cultural e tem raiz na ignorância de gestores calçados em botas atoladas em latifúndios, armados em esporas, apadrinhados por reis apaniguados pela Igreja e seus santos. O fenômeno aqui aportou em malas dos ‘homens de bem’ derramados na costa, chefes piratas de navios exploradores, incluindo os negreiros. Continental, o Brasil tem potencial para ser mais e melhor, superar toda sua história mal contada, escrita e conquistada (será?).

Que as lágrimas e as incertezas, a fome dos pobres, os heróis desaparecidos políticos e as desigualdades sociais extremadas possam ser enterrados na lápide da história junto ao nome dos golpistas e a corja de anões políticos que escrevem páginas da direita de um livro sem fim do Brasil destinado à expropriação de sua gente, riqueza e cultura. Se “conquistar o mundo não é uma bravura real; conquistar a si mesmo é” (Osho), a efetivação de direitos, mais uma vez defenestrados, e, questão moral, alardeia como personagens centrais nossos netos. Até aqui a vergonha na cara da minoria que manobra e manipula a Nação jamais valeu um baseado, segundo Cazuza: “Uma droga que já veio malhada antes de eu nascer, queimada à beira da piscina cheia de ratos”, que abriga a matilha instalada no poder.

A labuta pela sobrevivência expõe janelas das ilusões democráticas traduzidas em dias tristes. Definitivamente a vida não é feita de vitórias, mas há uma chance, segundo Beto Guedes: “Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, sol de primavera abre as janelas do meu peito, a lição sabemos de cor só nos resta aprender.” (Sol de Primavera).

A filosofia determina que a coexistência num ambiente de consumo aos olhos, divide a cama com o mundo restrito à alma, duas partes de um dono único cercado de cosmos, louco e só. Os sobrantes ainda não assimilaram a ideia de que a crise é mundial e armada, retrata a luta de classes. Há os que preferem um mau acordo a uma boa luta, enfeitiçados pelo poder de barganha do conta-gotas social – apropriado pela burguesia num momento que exige reflexão, avaliação. O golpe é contra avanços democráticos, diversidade, minorias, camponeses e indígenas, enfim, a parcela da população presa ao globo da morte do sistema capitalista selvagem.

A “mudança do poder” coloca nas mãos da direita a proposta de achatar salários, diminuir o poder de participação política, propõe ajustes fiscais. Se a estratégia neoliberal é “boa ou má” para o Brasil, Spencer considera “os conceitos ‘bom’ e ‘útil’ como de essência semelhante, ‘adaptados a um objetivo’, de modo que a humanidade, pelos juízos ‘bom’ e ‘mau’, resumiu e sancionou precisamente suas experiências inolvidáveis sobre o útil adaptado, o inútil inadaptado” (in Nietzsche, p. 26)

Sobre as causas sociais das minorias neste País, Flávio Batista afirma: “É hora de nós tornamos senhores e senhoras das ruas, discutir qual democracia queremos, dar novos rumos dos movimentos sociais, partidos políticos, ao programa econômico dotado da proposta de desenvolvimento sustentável, é hora de falarmos em alto e bom tom: Não ao golpe!” O certo é que após o golpe, confirmado e posto, e, das eleições municipais, a canalhice e pirataria nos corredores do Brasil continuarão as mesmas. É urgente pensar e repensar, escrever, imaginar, criar, provocar o mundo das grandes massas e suas cabeças pequenas e cinzas. A letra do grupo inglês Oasis provoca: “Desço do trem sozinho ao alvorecer, de volta ao buraco onde eu nasci. O sol no céu nunca levantou um olho para mim. Há sangue na pista, e ele deve ser meu, o tolo está na montanha, e eu me sinto bem, não olhe para trás, pois, você sabe o que pode ver.”

Enquanto o País discute as mudanças no topo da pirâmide política, coincidências históricas reafirmam “Bye, Bye Brasil”, canção que remonta ao recorte político da ditadura militar: “Eu vi um Brasil na tevê e peguei uma doença em Belém. Agora já tá tudo bem, mas a ligação tá no fim. Tem um japonês trás de mim, aquela aquarela mudou.” (Chico Buarque). Alijado do sistema de cotas e bolsas, o pós-graduando Gabriel Nascimento testemunha: “O Brasil que está no banco dos réus agora é aquele que me ajudou a entrar na universidade através das cotas, me deu bolsa de permanência e restaurante universitário a R$ 1 quando os meus pais não tinham condição nenhuma de me manter fora de casa.”

E o pulso… ainda pulsa!

 

 

(Antônio Lopes, filósofo, escritor, mestre em Serviço Social/PUC-Goiás e mestrando em Direitos Humanos/UFG)

 


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