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Goiânia Rock(s), um documentário para quem viveu e vive a Goiânia Rock City

Redação DM

Publicado em 3 de setembro de 2016 às 02:55 | Atualizado há 10 anos

Como todo bom adolescente, Goiânia é uma jovem cidade, pulsando hormônios à flor da pele. Rebelde, às vezes com causa, outras nem tanto, ela é boa ouvinte do velho rock’n’roll. Não é à toa que é chamada de Goiânia Rock City, ou Seattle Brasileira. E como grande maioria dos adolescentes, começou a arranhar instrumentos num fundo de garagem, incessantemente, até construir hoje, não apenas uma banda de rock, mas, sim, uma das maiores referências nacionais do cenário underground, abrigando vários grandes festivais de música do País, à exemplo do Festival Bananada, Goiânia Noise e Festival Vaca Amarela.

Acreditando no potencial da cena underground goianiense, uma dupla de universitários, agora graduados Jornalistas, resolveu documentar o contexto histórico e cultural que proporcionaram com que Goiânia chegasse à esse patamar. O documentário de pouco mais de vinte minutos, Goiânia Rock(s), foi produzido entre os anos de 2015 e 2016, inicialmente como produto jornalístico do trabalho de conclusão de curso de Fernanda Meireles e Felipe Nascimento (Felipe Café).

Assim como toda a estrutura das produtoras e bandas independentes de Goiás, o documentário Goiânia Rock(s) é resultado de uma cooperação e troca de informações, a cerca não de toda a cena do rock alternativo, mas de uma parte fundamental desta estrutura: a produção de bandas, e a necessidade da criação de um selo que representasse esta fatia. A Monstro Discos nasceu de uma necessidade de representatividade para as jovens bandas e festivais que estavam nascendo, e logo tornou-se referência quando o nome do Estado de Goiás era citado lá fora, ao passo que o Goiânia Noise também se estruturava. “Cora Coralina, pequi e Monstro”, brinca Márcio Jr, em trecho do curta, ao relembrar as referências que o restante do País tinha a respeito da nossa terra.

Cerca de 15 anos atrás, boa parte do público que hoje frequenta os festivais de música alternativa em Goiânia, não estavam nem mesmo na escola. Quem já estava na ativa àquela altura, vai se identificar com os pontos tratados em Goiânia Rock(s), revivendo momentos da cena rock desde o fim dos anos 1980. A força do metal, dos punks e hcs, os shows no DCE da UFG, da UCG, eventos no Campus, além claro, dos festivais no Centro Cultural Martim Cererê, para quem tinha um poder aquisitivo relativamente melhor que os demais. E aqueles rolês no Parque Vaca Brava, regados com muita Cantina das “trevas”?

O documentário traz entrevistas com nomes como Fabrício Nobre (A Construtora), Miranda, Jimmy London (Matanza), Pablo Kossa, Leo Bigode (Monstro Discos), a historiadora Aline Carrijo, Dinho (Boogarins), além de trechos de momentos marcantes dos principais festivais de música alternativa em Goiânia. “É um recorte muito bem feito. Eu sempre gosto dessas iniciativas. Acho importante criar uma memória, registrar. Muita coisa da história do rock goiano já se perdeu justamente pela falta de registro”, declarou Leonardo Razuk, da Monstro Discos, ao DMRevista.

 

Entrevista com Fernanda Meireles e Felipe Café:

 

DMRevista- Como se deu o processo de desenvolvimento deste documentário? O acesso às fontes, recursos, incentivos, tempo de dedicação ao projeto?

Felipe- Todos os trabalhos da Fernanda durante a faculdade foram sobre esse eixo cultural, claro que o TCC não poderia ser diferente, fui “engolido” por isso! Na verdade a gente se apaixonou pela ideia de poder cobrir algo que, para nós é obviamente importante, mas que muitos não fazem ideia do que se trata. Para nós, é muito claro que Goiânia não é só sertanejo, mas tem gente que ainda vive nessa bolha. Sobre o acesso às fontes, foi mais fácil do que a gente imaginava. Todo mundo nesse meio é super receptível, um ajuda o outro. Parece que todo a cena é uma grande irmandade, sabe?

Fernanda- Como o Felipe disse, realmente, me interesso muito por assuntos relacionados à cultura então não fugi disso no TCC, que resultou neste documentário que estamos divulgando. É muito bom poder contribuir para a divulgação e para o crescimento de algo que você frequenta, que você de certa forma faz parte, fortalecer a cena. Sobre recursos e incentivos: foi tudo feito do nosso próprio bolso, com (praticamente) tempo integral de dedicação desde o início do projeto em 2015 até o meio deste ano, já que precisávamos apresentar um produto final na faculdade. A intenção é expandir este projeto, mas para isso ainda precisamos de parcerias, incentivo e tudo mais, tem Muito conteúdo para ser divulgado ainda, Muita coisa para ser discutida. Após a apresentação na universidade, resolvemos extrapolar as barreiras acadêmicas.

 

DMRevista- Há planos de levar o documentário para festivais?

Fernanda- Se tivermos a oportunidade, sim! Queremos levar o trabalho para o maior alcance possível e divulgar o que acontece por aqui para quem se interessar.

 

DMRevista- Além da primícia informativa, fundamental do recurso jornalístico, qual outra característica é importante salientar a respeito do Goiânia Rock(s)? A escolha da temática tem a ver com as preferências particulares dos envolvidos?

Fernanda- As preferências particulares influenciaram sim, mas o principal foi o fato de que é fácil perceber a relevância que Goiânia tem neste meio pelo fato da quantidade de bandas que saem daqui todos os dias, pela importância que os festivais já conseguiram em âmbito nacional e mais do que isso, pelo trabalho em conjunto que os produtores desenvolvem por aqui. Este “Do It Together” é a base da cena goiana. Por isso, acredito que mostrar isso para a população, mais do que informativamente mas também de certa forma com uma abordagem “didática” é um avanço.

 

DMRevista- Num balanço geral, dentro das questões levantadas pelo documentário, é possível reafirmar que Goiânia ainda continua sendo realmente a velha Goiânia Rock City? Levando em consideração que os grandes festivais de rock goianienses passaram a englobar outros estilos musicais, tornando-se festivais de música, e não apenas de rock’n’roll?

Fernanda- Goiânia continua sendo sim “Goiânia Rock City”, mas o cenário independente está abrangendo também outros ritmos, como o rap e até mesmo o pop e isso é benéfico, a multiculturalidade serve para chamar mais gente para conhecer esta parte do cenário cultural de Goiânia. Quem quer ir para o festival assistir só as bandas de rock, pode fazer isso! Quem quer conhecer mais gêneros também consegue! O rock goiano está mais do que vivo, está forte e com inúmeros exemplos de bandas e festivais de destaque que focam totalmente neste gênero, o que muda é só o aumento das opções disponíveis na cidade.

Felipe- Para mim, o grande legado da música independente de Goiânia são os festivais. Como disse o Dinho do Boogarins no nosso documentário, “o roquinho anda mal das pernas”, mas entra ano e sai ano e o festivais permanecem. O rock goiano continua vivo sim, essa história de misturar ritmos, ao meu ver, só pode ser benéfico. Você vai no festival para ver uma banda mais “comercial” e acaba sendo apresentado à uma banda de rock nova e isso é incrível.

 

DMRevista- É latente que o documentário é mais uma ferramenta para ajudar a desmistificar a cena cultural goiana, deixando de lado a velha história de que somos grandes produtores de música sertaneja, mostrando assim a potência das bandas e festivais underground goiano, mas o caminho é árduo. Saber desta responsabilidade que o documentário carrega representa o que para vocês enquanto jovens jornalistas, construindo uma carreira?

Felipe- Nossa, se cumprir esse papel, ficarei feliz! Significa que nossa formação valeu. Que as noites sem dormir também! Significa que escolhemos a profissão certa e quantos profissionais podem dizer isso?

 

DMRevista- O projeto do Goiânia Rock(s) começou como produto jornalístico do Trabalho de Conclusão de Curso de ambos. Academicamente falando, qual o melhor caminho pode ser apontado para universitários da Comunicação Social que desejam seguir um ramo semelhante ao de vocês? A universidade, de maneira geral, está preparada para dar o respaldo necessário ao aluno que deseja investir em audiovisual?

Felipe- Para mim, o meio acadêmico ainda está engessado no áudio visual ligado à televisão. Graças aos deuses nós tivemos a sorte de ter um orientador tão doido quanto a gente, o professor Enzo de Lisita, mas, em suma, acredito que muita coisa poderia mudar. Acho que a dica que eu dou é saber absorver o que é relevante para a sua proposta nesta área. De resto, experimente, experimente muito. Faculdade é para isso, sabe? Experimentar. Ah, e preste atenção na aula de roteiro, ele salva vidas!

 

DMRevista- Qual o maior “legado” que Goiânia Rock(s) deixa para a cena underground em Goiânia?

Felipe- Penso que o da multiculturalidade. Somos muito mais que o Villa Mix. Somos o Goiânia Noise, o Bananada, o Vaca Amarela. Somos a Monstro, a Construtora. Somos alternativos!

Fernanda- O legado de ser um registro, de contar parte de uma história, de mostrar o que já aconteceu até agora, levantando alguns debates e mostrando as vertentes do nosso cenário alternativo. Esta não é uma história completa do rock goiano, é apenas um recorte, uma vírgula em toda a narrativa que a cena de rock goiana construiu e ainda pretende construir.

 

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