O sentido da política
Redação DM
Publicado em 19 de agosto de 2016 às 02:42 | Atualizado há 10 anos“…E não vejo amigo, nenhum sentido na vida, senão o de lutarmos juntos por um mundo melhor”.
(Ferreira Gullar)
“Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós”.
(Agostinho Neto)
Toda essa peleja política e que começa firme, dura e ácida tem um único sentido, se é que há sentido em tudo o que estamos vivendo, é o de transformar a realidade.
Não é pouca coisa! Converter nossos péssimos indicadores sociais é luta épica e que exigirá esforços de gerações inteiras. Mas, felizmente, esse esforço já fora iniciado e os movimentos sociais foram definitivos para sua irrupção.
Os mesmos movimentos sociais que, para o caso brasileiro, seguem sendo criminalizados e marginalizados severamente pelo Estado, por paramilitares ou milicias treinadas para o combate aos lutadores sociais.
O bastante intrigante desa história é que ela sequer é original. Aliás, tudo o que vivemos atualmente e com ares de normalidade fora, até a bem pouco tempo, tema tabu ou excepcionalidade e que sequer era abordado. Mulheres que votam, negros libertos, jovens fazendo política e minorias se manifestando com liberdade e desenvoltura eram absurdos gigantescos até a bem pouco tempo atrás.
O belíssimo texto de Oscar Wilde (A alma do homem sob o socialismo, 1891) nos ajuda a compreender um pouco desse processo. Diz Wilde: “A miséria e a pobreza são de tal modo degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana que nenhuma classe consegue realmente ter consciência de seu próprio sofrimento. É preciso que outras pessoas venham apontá-lo e mesmo assim muitas vezes não acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro. Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num determinado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que vive e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários. Sem eles, em nosso estado imperfeito, a civilização não avançaria. A abolição da escravatura nos EUA não foi uma conseqüência da ação direta dos escravos nem uma expressão do seu desejo de liberdade. A escravidão foi abolida graças à conduta totalmente ilegal de certos agitadores vindos de Boston e de outros lugares, que não eram escravos, não tinham escravos nem qualquer relação direta com o problema. Foram eles, sem dúvida que começaram tudo. É curioso observar que dos próprios escravos eles só receberam pouquíssima ajuda material e quase nenhuma solidariedade. E quando a guerra terminou e os escravos descobriram que estavam livres, tão livres que podiam até morrer de fome livremente, muitos lamentaram amargamente a nova situação. Para o pensador, o fato mais trágico na Revolução Francesa não foi que Maria Antonieta tenha sido morta por ser rainha, mas que os camponeses famintos da Vendée tivessem concordado em morrer defendendo a causa do feudalismo”.
Os novos agitadores imersos em movimentos sociais articulados, portadores de doutrina, horizonte e sentido social são as nossas novas possibilidades de futuro. Nos apresentam um destino, um amanhã e um porvir. É preciso ouvir, ver, sentir e compreender as demandas e os reclames para saber se posicionar.
O novo, como diz Gramsci, precisa nascer e ele está aí, nas ruas, nas praças e no movimento político. E viva os agitadores… Conforme verificamos, precisamos deles cada vez mais.
(Ângelo Cavalcante, economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)