A música certa faz um carro sem gasolina se mover de madrugada
Redação DM
Publicado em 19 de agosto de 2016 às 02:41 | Atualizado há 10 anosGente por todos os lados. Malucos com camisetas de bandas de rock. E, no palco, um cara grita palavras, que pela altura do som, se tornam incompreensíveis. Este é o Goiânia Noise, que aconteceu entre 1 e 7 de agosto, no Centro Cultural Oscar Niemayer. A vigésima segunda edição do evento contou com atrações como Nação Zumbi, Sepultura e Black Alien. Milhares de pessoas foram prestigiar os três dias de rock e exposições culturais.
Era 19h. Estávamos entorpecidos pelo poderoso White Horse, de Zé.
“Cê tá com o seu ingresso aí, cara?”, perguntou Zé – o Dean Moriarty do Cerrado.
Desgraçado. Meu ingresso ficou em casa, terei de voltar de a pé para ir buscá-lo nas imediações do Criméia Leste e chegarei aqui, novamente, por voltas das 08h, resmunguei nas profundezas de minha psique.
Levantei o mísero papel, e mostrei-lhe. Ele deu de ombros, e disse:
“Porra, nunca é demais perguntar”, garganteou. “Cê é burro.”
“Burro?”, bradei. “Meu, me dá um cigarro.”
Ele esticou um Marlboro vermelho.
Cigarro que o doidão do Hunter Thompson fumava quando escrevia suas reportagens subjetivas e desvairadas. Em 1972, a Sport Illustred havia lhe escalado para cobrir uma corrida de motocicletas no deserto de Las Vegas. Como a cobertura jornalística convencional era impossível, ele mergulhara no “american way of life”. Thompson nunca entregara a reportagem sobre a corrida, mas, meses depois, aparecera na redação da Rolling Stone, com uma cerveja na mão, fumando sem parar e com uma série de manuscritos numa pasta. Em seguida, o texto fora transformado em livro. Intitulado de Medos e Delírios em Las Vegas, a obra se tornou um clássico do jornalismo gonzo – a forma mais louca de narrar uma história.
Zé vestia uma camiseta gigante do The Doors, cuja estampa era Jim Morrison. Somos fã de Jim. Descobri os poetas marginais através dele. Provavelmente, eu seria um sujeito estranho se não tivesse sido contaminado pelos versos de Rimbaud e Artuad. Os escritos me tiraram da zona de conforto, e me possibilitaram pular a janela e abraçar a noite. Lá fora, as pessoas eram mais alegres e felizes.
Jogamos os latões de cerveja fora. Nathália ainda bebia a sua, enquanto Zé foi caminhando em direção à entrada. Observei-o e xinguei-o, mentalmente. Ele entrou. Nathália, também. Fui barrado.
“O que você tem no bolso?”, perguntou o cara.
“Celular”, falei, mostrando-lhe o dispositivo telefônico.
“E aqui?”, indagou, com as mãos em meu bolso direito.
“Aqui, bicho, é o meu isqueiro e carteira”, expliquei.
“Posso ver?”
“Claro”, eu disse, com meu delicado clipper cor-de-rosa em mãos.
Ao tirar a carteira para mostrar ao segurança, minha identidade caiu no chão junto com a chave de casa e outros pertences.
“Pode ir. Bom show”, sacramentou o guarda-costas, com a feição espetacularmente feia.
Não é bom nem olhar muito para um cara desses, pensei.
Imediatamente, Zé começou a mexer o esqueleto. Era uma cena deplorável de se ver. Nathália, com mais coordenação motora e desenvoltura, conseguia acompanhar o ritmo alucinado que era feito no palco. Eu apenas ouvia ruídos ensurdecedores de guitarra elétrica, e não conseguia identificar se era Punk, Hard Rock ou metal.
Olhei para o meu lado. Três homens de mais ou menos uns trinta anos estavam parados. Eles tinham o semblante fechado. Pouco sorriso no rosto. Segui em frente, e Zé teve a brilhante ideia de comprar uma cerveja.
“Quanto é a breja?”, questionou Dean Moriarty do Cerrado.
“Heineken é 10”, respondeu a moça.
“10?”, certificou-se, espantado, Zé. “Não tem outra, não?”
“Tem.”
“Qual?”
“Kaiser.”
“Quanto é?”
“5.”
“Me dá três.”
A moça escorregou a ficha sobre o guichê e, enquanto isso, a outra caixa deixara cair seus equipamentos de maquiagem. Demos uma amigável risada, e viramos as costas.
Dei uma olhada em meu celular. Era 21h. Aproximamo-nos do palco. Os curitibanos do Hillbilly Rawhide mandavam um country rock e rockabilly ao melhor estilo Johnny Cash. Geralmente, as histórias das letras se passavam nos Campos Gerais–região metropolitana da capital paranaense. Pelo menos não ouvíamos algum guitarrista demente mandar power-chords infantis–que mais parecem serem tocados por uma criança que faz aulas de guitarras com algum professor pirado.
“Hoje eu acordei/bebi tanta cachaça/que não consigo me lembrar”, cantou Mutante Cox, vocalitsta do Hillbilly Rawhide, desenhando alguns acordes em sua cansada Stratocaster vermelha, que parecia ter sido tocada por algum blues man nos anos 50.
A apresentação dos paranaenses acabou. Zé, Nathália e eu fomos para o outro palco, onde acontecia uma batalha de rap. Não se trata de meu gênero musical predileto. Algumas canções repudio tanto pelo ritmo, que qualquer ser humano é capaz de tocar, como pelo conteúdo de algumas letras. Sim, não se pode generalizar e afirmar que todo rap é horrível. É como Beatles: algumas canções são boas. E ponto.
Ficamos por lá alguns minutos. Avisei aos amigos que iria ao banheiro. Eles disseram que permaneceriam em frente ao palco. Ao voltar, constatei que eles se estavam no mesmo lugar. Isso que é solidariedade ao amigo, pensei. Após alguns minutos ouvindo aquela verborragia inenarrável, resolvemos sair.
Quanto tempo falta para o show do Nação Zumbi? Uma hora? Eu teria de esperar sessenta minutos para, enfim, vê-los. Eu já sentia o álcool correr pelas minhas veias, chacoalhar as membranas de meu cérebro e me fazer ter outra percepção sobre as coisas ao meu redor. Estava em uma linha tênue entre a embriaguez honesta e civilizada, e entre a inconveniência.
“Mais uma?”, me perguntou Zé.
“Opa”, murmurei.
Zé trouxe duas latinhas.
Ficamos conversando. Ora nos falávamos. Ora nos calávamos. Eu e Zé sabemos o momento em que temos de ficar quieto. Deve ser por isso que somos amigos. Em algum ponto, da bebedeira, calamo-nos e ficamos apenas viajando no emaranhado dos pensamentos. E Nathália, inebriada pelo furor etílico, também contempla o silêncio. Laconismo nunca foi problema conosco.
Neste momento, passara por mim uma garota de cabelos ruivos que me despiu o bom-senso. Eu queria levantar e ir em direção a ela, e dizer a amava. Depois, decidi que não seria interessante sair feito um maluco depravado atrás de uma beldade daquelas. A moça teria namorado, certamente. Imagine arrumar uma confusão vinte minutos antes de começar o show do Nação Zumbi. Eu pularia no meio da galera com o olho roxo, mesmo. Isto não seria favor primordial para eu ir embora do show, nunca.
Dean Moriarty do Cerrado bebia sofregamente. O imbecil, ainda, se movimentava em meio a multidão de uma forma frenética e esquisita. Mas Zé não está nem aí. Ele tem um senso de indiferença invejável. Também sou indiferente, porém preocupo-me demais com certas pessoas e situações. Eu deveria fazer como Zé: chutar a barraca.
… continua amanhã.
(Marcus Vinícius Beck,estudante de Jornalismo)