Turquia e o contragolpe
Redação DM
Publicado em 23 de julho de 2016 às 03:25 | Atualizado há 10 anosNo último dia 15, o mundo assistiu “surpreso” aos novos acontecimentos na República da Turquia, que já era manchete diária nos noticiários internacionais. Em evidência pelos episódios dolorosos, vergonhosos e históricos.
País euro asiático que ocupa toda a península da Anatólia no extremo ocidental da Ásia, se estende pela Trácia Oriental no sudeste da Europa e cortado pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos.
Primeiro, a relutância contra os desdobramentos sobre o reconhecimento internacional, considerando como Genocídio, o massacre sangrento de 1,5 milhão de armênios em 1915, pelos turcos. Após uma incansável luta de 100 anos do povo armênio, pelo reconhecimento do trágico e histórico episódio, que a Turquia rechaça de forma vergonhosa e veementemente, insiste na negativa.
Segundo, foi o recente e covarde atentado terrorista, reivindicado pelo Grupo Jihadista EI, no Aeroporto Internacional Atatürk de Istambul, que mataram 36 pessoas e feriram mais de 147, no último dia 28 de junho.
Entender os últimos acontecimentos no país e seus respectivos desdobramentos, tanto em âmbito interno e externo, exigirá um mergulho um pouco mais profundo nas águas do Mármara.
O Império Turco-Otomano consagrou-se como um dos maiores impérios da História, atingiu seu apogeu, entre os séculos XVI e XVII, quando se tornou uma das maiores potências mundiais, marcado por um domínio absoluto de extensas áreas e povos. Nos séculos XVIII e XIX, o império foi marcado pela decadência, culminando no século XX, com sua derrota na Primeira Guerra Mundial, ao lado da Alemanha, sua grande aliada.
Um novo panorama abriu caminho para um grupo de jovens oficiais militares, liderados por Mustafa Kemal, considerado um grande herói nacional, organizou uma resistência contra os Aliados e em 1923, estabeleceu a moderna República da Turquia. Kemal, conhecido como Atatürk, foi o primeiro presidente turco, colocando oficialmente, fim ao Império Turco-Otomano. Em 1924 foi decretada a expulsão da família real otomana e a abolição do califado – que representava a unidade e liderança política do mundo islâmico –, o que consistiu um claro sinal de laicidade e irreversibilidade do regime.
O país tem um longo histórico de golpes e instabilidade política. Até 1945, foi um regime unipartidário, típico de regimes autoritários. A transição para a democracia pluripartidária foi longa e conturbada. Nos anos de 1960, 71, 80 e 97, ocorreram golpes de estado militares, que interromperam a frágil democracia turca e originaram governos ditatoriais e repressivos.
O golpe militar 1997 é chamado por muitos de pós-moderno. O termo faz referência ao fato dos militares não terem tomado o poder de fato, limitando-se a impor suas condições que passavam principalmente pela defesa da manutenção estrita do secularismo kemalista, em oposição às tendências islâmicas de alguns partidos mais votados.
O espectro dos golpes militares no país voltou a assombrar a população turca, no último dia 15, numa tentativa malograda de derrubar o presidente Recep Tayyip Erdogan. Que ocupou o cargo de primeiro-ministro de 14 de março de 2003 – 28 de agosto de 2014, quando assumiu a presidência. Líder do Partido da Justiça e Desenvolvimento possui a maioria dos assentos na Grande Assembleia Nacional da Turquia. Tem grande apoio popular, mesmo adotando um estilo linha dura em seu governo. Conhecido por perseguir ferrenhamente seus adversários políticos, os curdos, não respeitar alguns direitos civis, adotar medidas impopulares e tentar islamizar o país.
A Turquia é um país privilegiado na sua localização geográfica. Tornando-se estratégica no intricado cenário geopolítico atual. Aliada dos Estados Unidos na luta contra o EI – Estado Islâmico –, a Base Área de Incirlik no país, serve como base para as operações de ataques estadunidenses, contra o grupo terrorista e com total apoio turco, fazendo da Turquia, alvo para terroristas, como o do Aeroporto de Atatürk. Em detrimento de sua localização, “serve de rota”, porta de entrada para radicais islâmicos e imigrantes oriundos da Síria e Iraque, por exemplo, entrarem ou saírem da Europa.
Os turcos vêm tentando integrar-se à UE e os desdobramentos deste contragolpe do presidente Erdogan serão decisivos para os próximos capítulos desta novela. Fortalecido pelo apoio dos militares fiéis ao governo, do primeiro-ministro Binali Yildirin, da população e da comunidade internacional, que criticou e condenou a tentativa de golpe militar no país.
O imã Fethullah Güllen, clérigo muçulmano, que reside nos Estados Unidos, tem sido acusado pelo governo turco – ex-aliado –, como o grande mentor do golpe. Erdogan já pediu a extradição do suposto “traidor”, sob a acusação de estar por trás do movimento golpista do dia 15. John Kerry, Secretário de Estado norte-americano, afirmou que sem provas de seu envolvimento, não irá extraditá-lo.
O grupo militar interditou várias vias, ocupou estúdios de TV, aviões militares e helicópteros, sobrevoaram e atiraram em civis desarmados, em Istambul, principal cidade do país e a capital Ancara. Erdogan pediu ao povo que fossem para a rua, defendessem o governo e impedissem o golpe. Em algumas regiões houve confronto e saldo foi trágico. No levante militar, morreram 265 pessoas, entre elas, 104 militares e 1.440 feridas. Poucas horas depois, reestabeleceu-se o poder e deu início a uma espécie de “caça às bruxas”, ou melhor, traidores golpistas começaram no país.
Segundo os opositores do governo, a lista dos que seriam literalmente caçados, já estava pronta, antes mesmo, do movimento. Até agora, já são 50 mil presos ou afastados de suas funções. Entre oficiais, soldados, juízes, professores e simpatizantes do movimento. O governo afirma que a punição aos envolvidos, será exemplar e que irá empenhar junto a Grande Assembleia Nacional, que seja aprovada a lei da Pena Capital, contra os conspiradores.
A grande questão agora, diante de um governo que mesmo numa democracia já praticava atos arbitrários, use o ocorrido, como um “cheque em branco”, para legitimar ações que firam o estado de direito, as liberdades individuais e a defesa plena dos acusados, com respeito às instituições e aos direitos constitucionais.
O golpe é criminoso, ilegal, imoral e sempre deverá ser repudiado, em qualquer situação ou momento. É uma afronta a vontade popular, viola a soberania de um povo verdadeiramente livre, ferindo covardemente a democracia, a liberdade, a honra e a justiça.
Esperamos que o episódio do dia 15 de julho, não seja pretexto, para manchar de sangue a liberdade e a legitimidade do bravo povo turco. E sob a aparente legalidade das ações do Estado, que a vingança não se confunda com justiça! Que a verdade dos fatos não se alicerce na mentira, na injustiça dos atos e que a democracia turca, não seja pior que a ditadura militar que tentaram implantar.
(Marcos Manoel Ferreira, professor, pedagogo, historiador, escritor. [email protected])