Desativada 2

Na avenida e no meio do povo, Leci Brandão

Redação DM

Publicado em 19 de julho de 2016 às 01:29 | Atualizado há 1 ano

Leci Brandão é símbolo do ativismo lésbico e negro desde a década de 70

Leci nasceu em Madureira, mas foi criada em Vila Isabel, os dois redutos populares cariocas. Ela foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira. Leci, acima de tudo, é uma batalhadora, lutou muito para conquistar seus espaços no campo social e na música.

Ela entrou no mundo da música apoiada pelas mãos do jornalista que trabalhava com crítica de música Sérgio Cabral. Trabalhava cantando nas noites cariocas e recebeu um convite para a gravação de um CD. Suas últimas aparições na mídia foram como comentarista do carnaval paulista nas transmissões da Rede Globo, depois de ficar um bom tempo longe do grande público.

Esse seu afastamento foi uma questão de posicionamento, pois não quis se curvar às exigências de mercado, que não aceitava suas composições questionadoras, como conta sua página oficial. “De lá até aqui foram 23 discos e várias compilações em trinta e sete anos de carreira. Durante cinco anos Leci ficou sem gravar por absoluta questão política. As gravadoras não aceitavam suas canções marcadas pelas letras sociais. Ela cantou a defesa das minorias (todas elas), era convocada para cantar em todos os eventos afinados com sindicalistas, estudantes, índios, prostitutas, gays, partidos de esquerda, movimentos de mulheres e principalmente o Movimento Negro. Nos últimos quinze anos todos os discos de Leci contêm uma faixa falando do assunto de forma direta, transparente e apaixonada. É a cantora das comunidades e sente muito orgulho por isto”.

O ativismo de Leci

Leci Brandão teve uma força solitária em sua postura de assumir sua orientação sexual que acabou levando a cantora ao afastamento de uma de suas maiores paixões, a escola de samba. Na década de 80, após sofrer caso de discriminação, escreveu uma carta para uma publicação avisando que não mais desfilaria junto à escola de samba Mangueira.

Um dos dirigentes da escola na época estava organizando um ato de manifestação que exigia o afastamento da sambista das atividades da Mangueira. Antes mesmo da realização do ato de intolerância ela deixou a escola.

Leci escreveu canções que abordavam o amor homossexual e o preconceito sofrido, com sensibilidade e de forma questionadora, como na canção Ombro amigo que apresenta o seguinte verso: “Você vive se escondendo/ Sempre respondendo/Com certo temor/Eu sei que as pessoas lhe agridem/E até mesmo proibem/ Sua forma de amor”.

Leci encarou o preconceito de peito aberto em tempos que a discussão de gênero não era tão comum e disseminada como hoje, como pode-se observar nessa entrevista ao jornal Lampião de Esquina no ano de 1978: “Quer ver? Por exemplo, o fato de eu ser homosssexual é uma coisa que não me incomoda, não me apavora, porque eu não devo nada a ninguém (…) A gente já é marginalizado, de cara, pela sociedade. Então a gente se une, se junta, dá as mãos. E um ama o outro, sem medo nem preconceito. É um negócio maravilhoso, que eu estou sentindo de cabeça, realmente. É o mais produtivo mergulho que eu já dei em mim mesma e na vida!”.

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