Brasil

Deputados estaduais goianos desprezam a memória de Alfredo Nasser

Redação DM

Publicado em 7 de julho de 2016 às 02:34 | Atualizado há 10 anos

Em 1962, concretizei um sonho e honrei compromisso que a mim mesmo fizera: no ano do meu 18º natalício, me tornaria militante da UDN. Atrasado nos estudos, cursava segunda série ginasial no “Colégio Estadual Nestório Ribeiro”, da minha querida Jataí. A atração pela política crescera nos grêmios estudantis, que revelavam oradores e líderes. Discursar me era apreciável e adquiri fama nesse campo. Por que, então, sob o entusiasmo próprio dos moços, não soltar a voz nos palanques das “Oposições Goianas” lideradas pelo deputado federal Alfredo Nasser, maior ou dos maiores jornalistas do Estado naquela época, dono de invejável oratória, excelente caneta, homem bom e sonhador?
Naquele ano, Sídney Ferreira exercia terceiro mandato seguido de vereador, sempre pela UDN e sempre o mais votado dentre todos os postulantes ao cargo e postulava cadeira no Legislativo estadual. A partir desse momento, ele passou a comandar a oposição à oligarquia do Serafim de Carvalho, amigo do Juscelino desde os tempos de estudantes em Belo Horizonte, onde se formaram em medicina (não foram, como se propala, colegas de faculdade). Pertenciam ao PSD, imbatível na “Cidade Abelha”, considerada o maior reduto nacional, em termos proporcionais, do pessedismo. Esses dois fatores foram decisivos para que, na Colmeia, Kubitschek abrisse sua campanha eleitoral, oportunidade em que Toniqunho lhe indagou se mudaria a sede da República. Isso, a 4.4.1955.
Em 1962, Alfredo Nasser (PSP) e Sídney se elegeram, respectivamente, para a Câmara Federal e Assembleia Estadual. Em 1965, Sídney, na qualidade de presidente regional da UDN, dirigiu a convenção que escolheu Otávio Lage para representar o partido na sucessão estadual. Para vice-governador, Osiris Teixeira, do PTB. Por pequena margem, essa chapa superou a do PSD composta por Peixoto da Silveira e Armando Storni. Inverso seria o resultado não fosse pressão da ditadura que, em novembro de 64, depusera o extraordinário governador e estadista Mauro Borges. A essa pressão se agregaram esforços de velhos companheiros e a coordenação do Nasser. A eleição foi dia 3 de outubro de 1965, e antes que o mês virasse a esquina Alfredo Nasser rompeu com Otávio e Castelo extingui todos os partidos políticos. Dia 21 de novembro do mesmo ano, Alfredo Nasser partiu para os braços do Pai. Em 1966 se efetuaram as primeiras eleições sob o bipartidarismo Arena (governo) e MDB (oposição). Serafim e a cúpula do PSD jataiense pularam para o barco arenista. Sídney, pela Arena, se reelegeu e em 1967 o condudiram à presidência da Assembleia. Dele o projeto, convertido em lei, substituindo o topônimo “Palácio dos Buritis” para “Palácio Alfredo Nasser”, da sede da Assembleia Legislativa.
Óbvio, deputado representa o povo e povo – outro óbvio – são vidas, são memórias, são histórias. Por que, então, Suas Excelências permitiram que grafassem, na parede, apenas isso: “Assembleia Legislativa do Estado de Goiás”? Nunca leram sobre “O Líder que não Morreu”, como disse Sídney no panegírico em sua memória no dia 21.11.1967? Nunca leram a mensagem do jornalista Batista Custódio contida na placa contendo seu busto, perto da entrada do edifício? Leiam pelo menos o introito: “Alfredo Nasser Veio de Épocas que não Chegaram Ainda, e Morreu como um Poema que se Estendesse Sobre a Vida” (fonte: “O líder não morreu Alfredo Nasser,” de Consuelo Nasser, 2ª edição revista e atualizada). Ignoram Suas Excelências que concorreria ao governo do Estado, mas o preteriram porque não tinha dinheiro para as campanhas? Desconhecem que Nasser foi deputado estadual, federal e senador de destaque? Não têm conhecimento de que foi ministro da Justiça, no parlamentarismo imposto ao Jango, e mostrou-se digno da posição mesmo não possuindo diploma universitário?
“O Ministério da Justiça, comandado por Alfredoo Nasser, raro valor humano e admirável homem público, cumpriu a sua missão com exemplar dignidade e notável eficiência” – Palavras de Tancredo Neves(idem, pág 49).
Senhores deputados estaduais, respeitem a memória de Alfredo Nasser (30.4.1905 – 21.11. 1965).
Peço ao deputado rio-verdense Lissauer Vieira providência para que a escola “Cunha Bastos”, da nossa cidade, volte a ser denominada “César da Cunha Bastos”, pois a justíssima homenagem é a ele, pessoalmente.

(Filadelfo Borges de Lima, autor de vários livros, membro e patrono da “Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios”; maçom grau 33, auditor fiscal aposentado. Filho de Jataí, em Rio Verde reside desde 1973)


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