Uma análise psiquiátrica da saída da Grã-Bretanha da União Europeia
Redação DM
Publicado em 28 de junho de 2016 às 03:11 | Atualizado há 10 anos
Para os dados econômicos, sociológicos, políticos, deste artigo, baseio-me nas pesquisas do cientista político, historiador e demógrafo francês Emmanuel Todd , disponíveis, p.ex., nos livros: “A Ilusão Econômica”, “Diversidade do Mundo”, “Depois do Império”, “Filosofia Psiquiátrica da História”, “La Nouvelle France”, “A Queda Final”, “Destino dos Imigrados”, “Famille et Modernité”.
O Reino Unido tem algumas “estranhas” peculiaridades psicossociais, econômicas. Sobre a “estranheza” dos ingleses já dizia o escritor anglo-indiano Rudyard Kipling: “But the english, ah the english. They are quite a race apart” (os ingleses… ah os ingleses…são, de fato, algo como uma “raça à parte”). Uma das estranhezas é essa : mantêm uma “nobreza” bem elitista, mas os que não são os “reis e os lordes” são bem mais “iguais” do que os ditos “iguais” de países que não têm reis ou nobres (p.ex., na França, país pretensamente “igualitário não-monarquista”, as diferenças salariais, discriminação cultural, apartheid social, entre os profissionais liberais/executivos/altos funcionários e os operários é muito maior do que na Inglaterra).
O mundo dos “altos funcionários”, “altas cabeças”, profissionais liberais, “altos engenheiros”, economistas, etc, é pró-União Europeia, é pró-globalização, é pró-liberalismo econômico global. Isso porque o “trabalho escravo da China” não tira seus empregos. É fácil ser “igualitário”, “antibarreiras”, “pró-integração”, quando se trabalha com “administração e serviços”, uma área que não sofre atividade predatória antiética de “economias escravocratas do sudeste asiático”. Na França, por exemplo, a “alta burguesia”, “alta administração”, “altos técnicos”, adoram posar de “igualitários-liberais-globais-pró imigração”, porque isso não lhes tira empregos, isso não lhes tira vaga na fila dos serviços sociais, na fila do médico público. Na Inglaterra, há maior proximidade “espiritual” entre a burguesia (onde não há tanta “alta burguesia” assim) e o proletariado. Isso explica o porquê da “classe alta” não ter tanto poder assim sobre os rumos do país (p.ex., ligação com a União Europeia). Como a Inglaterra é um país bem mais “proletarizado” do que a França, a população sofre mais (e repercute mais) com a globalização, com a imigração (“tomam-lhes” os empregos, vagas nas creches, médicos, etc). Essa classe proletária inglesa já está sob “ataque” não só dos migrantes europeus, não só dos migrantes africanos/asiáticos, mas também do próprio governo “socialista”, que, como todo Governo europeu, não está mais conseguindo bancar as benesses sociais-democratas que foram, por longos anos, apanágio da sociedade europeia. O proletariado está com raiva do Governo porque este não banca mais “a social-democracia”, e também porque o Governo é pró-Europa, pró-abertura. É uma grande “crise de consciência”: uma parte quer ser “libertária-igualitária”, mas é outra parte que mais sofre com esta “igualdade-liberdade-globalização”. A parte “ética” (“somos igualitários, libertários”) está interferindo na parte econômica, assistencial, segurança pública (medo dos imigrantes asiáticos/muçulmanos). A “Europa ética” é a “Europa rica”, e, por incrível que pareça, a Inglaterra está, sociologicamente-culturalmente falando, entre os países mais “proletários” entre os grandes da Europa. Uma mente “proletária” é “menos ética”, ela pensa assim: “Esses riquinhos e elitistas podem se dar ao luxo de serem igualitários, pró-União Europeia, porque não é seu emprego, sua creche, sua segurança, seu médico, que estão em jogo; eles nem de metrô andam…” (explosões terroristas têm predileção por metrôs, na Europa).
O mundo europeu está sendo vítima de seu próprio veneno: “As classes operárias” estão, cada vez mais, reivindicando seus direitos, sejam eles de esquerda (“mais Estado na educação, segurança, saúde”), sejam eles de direita (“menos imigrantes, menos globalização, menos especulações financeiras, menos trabalhos de blá-blá-blá”[trabalhos do setor terciário, serviços]).
Os Estados europeus, norte-americano, estão em colapso (até pela concorrência globalizada que eles promoveram), ou seja, não estão conseguindo mais dar a “vida de bem-estar social” (Welfare State) para tampar a boca da plebe proletária. O discurso filosófico (“Estado de bem-estar”, “igualdade globalizada” ) da “alta classe média” e ricos não está mais conseguindo encher, com o vento do blá-blá-blá, a panela vazia do operário. A “esquerda europeia-americana” está perdendo seu discurso, está sendo vítima da “direita do proletariado” (vide ascensão de Trump, vide saída do RU da UE, vide outros países que já querem também sair da UE, vide ascensão da extrema-direita). O proletariado, aquele que está, agora, sendo “vítima do Estado” (morrem com tiros, morrem sem médicos, não tem dinheiro para casa, para escola, etc), está, paradoxalmente, migrando para “direita”. Esta migração minimiza o “discurso igualitário/libertário/globalizante” da “esquerda estatal”.
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)