Brasil

A política que deseduca

Redação DM

Publicado em 2 de junho de 2016 às 02:33 | Atualizado há 10 anos

Catalão já viveu seu momento de gloria. Sim, teve os seus cinco minutos de fama. Na década de 20 era a principal cidade do interior goiano em importância econômica. Em 1946 surfando na onda democrática que varreu o País no pós-guerra elegeu João Netto, o único prefeito eleito pela sigla do Partido Socialista Brasileiro (PSB), fundado por Domingos Velasco e João Mangabeira. No governo Mauro Borges, com forte influencia na política do estado, conseguiu emplacar quatro secretários de Estado, entre os quais, Jacy Netto na Saúde, Wilson da Paixão na pasta de Interior e Justiça e Jose Sebba na Secretaria de Obras. Nos governos que se seguiram sob o regime da ditadura também mantinha sua influência na política estadual indicando nomes para participar nos diferentes governos, como o de Genervino da Fonseca, Antonio Chaud e Nilo Margon, alem da forca que tinham nos governos os Paschoal e Helio Levy. No advento da redemocratização com os governos do PMDB continuou a indicar secretários como no governo de Onofre Quinan, Mauro Fayad. Com Henrique Santillo teve presença marcante no governo do Estado indicando dois secretários de Estado, Aredio Teixeira, como secretário de Minas e Energia, e, eu, como secretário de Planejamento. Ainda, contando com a participação no segundo escalão de Genervinoa Fonseca na vice-presidência da Celg e Mauro Netto na presidência da Cohab. Sem nenhuma dúvida Catalão era considerada como uma das cidades mais politizadas do Estado. Na época dos anos duros da ditadura tinha sido um dos focos de resistência democrática se destacando pela iniciativa de ter sido palco de manifestações a favor da anistia e das Diretas Já. Os políticos em geral em Goiás reverenciavam o nível político da população de Catalão. Os embates, mesmo na época do regime militar, eram feitos tendo como pauta as questões de cunho ideológico. O nível dos debates era elevado discorrendo sobre ideias e projetos de governo.

A partir dos anos 70 Catalão recupera, depois de 50 anos de estagnação econômica, o seu protagonista na economia ocupando o quinto lugar no ranking dos municípios goianos. Com um polo químico mineral e automotivo dotado de uma gestão moderna e competitiva se contrasta com uma administração pública que carrega os vícios tradicionais de uma maquina emperrada e ineficiente. O nível de gestão que separa a modernidade das empresas Mitsubishi,  Anglo America e John Deer com o atraso da gestão da administração publica é extraordinário. Evidentemente que isso não é de agora. Essa defasagem vem de anos durante os quais passaram vários e diferentes partidos pela prefeitura: PFL, PMDB e PSDB. O problema como se nota não são os partidos, mas, sim, de cultura politica que permeia todos os partidos indistintamente: o improviso na administração pública.

Contudo, a questão não é somente essa, a ausência de uma gestão moderna e planejada. O que se pode observar também é o retrocesso que aconteceu nos últimos anos no nível da política praticada na cidade. Se formos comparar a política que se praticava ontem com a que se pratica hoje a diferença é abismal. Hoje, a pobreza do debate político é notória. Na realidade não existe debate político, não se discute ideias e projetos de governo, o que se pratica é a discussão puramente de corte pessoal, procurando cada um a seu modo, desqualificar o outro em um baixo nível de discussão política. Essa reviravolta começou a se manifestar quando saiu da cena política de Catalão a velha guarda, lideranças como João Netto, Jacy, Genervino os Paschoal, que apesar de serem adversários mantinham um padrão de conduta ético e não baixavam o nível da discussão política. Com o afastamento das antigas lideranças forjadas que foram nos grandes embates que marcaram a história de Catalão os novatos começaram a ocupar o espaço, com outros métodos e outras praticas. Mais ou menos pode se fazer um divisor de águas é claro, quando se iniciou essa substituição de lideranças e começou a descambar o nível do debate político, foi na eleição que disputou João Sebba e Zé Moreira e Geraldo Martins, em 1992. Ali, iniciou o processo de desqualificação utilizando se a baixeza e a torpeza na política como nunca se tinha visto nessas bandas. Dali para cá veio desandando cada vez mais com o cabotinismo e a vilania tomando conta do debate político, além, é claro, do uso abusivo do poder econômico, tomando conta cada vez mais do cenário político da cidade. O que se observa hoje em dia é a total ausência do debate de ideias e a ocupação do espaço pelos xingamentos pessoais. A política, que foi considerada por muitos, como a atividade mais nobre por se tratar de um espaço privilegiado na discussão de temas coletivos e de interesse público, deu lugar a ignomia do quem rouba, mas faz, ou, o do quem rouba, mas não faz. Ao invés de contribuir para educar, agora, deseduca as pessoas tornando as presas fáceis de um aventureiro qualquer.

Definitivamente a política empobreceu. Há que se fazer um esforço de Consertacão da política em todos os níveis recolocando as coisas no seu devido lugar: retomar o debate político e recuperar o papel das ideias e programas na política.

 

(Fernando Safatle. Economista – [email protected])


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