Brasil

Venenos do progresso

Redação DM

Publicado em 2 de junho de 2016 às 02:33 | Atualizado há 10 anos

As aconchegantes casas centenárias de largas portas e janelas, de espaçosos e sombreados quintais recheados de jabuticabeiras e outras típicas frutíferas , as boas e fartas águas que brotam de um chão generoso e a fala mansa e acolhedora de seus moradores têm atraído milhares de pessoas da capital e de outras localidades do estado e do país para Hidrolândia.

A cidade transformou-se em primeiro domicílio ou em lugar de ganhar a vida para muita gente de fora. Cresceu bastante, despertou o interesse de investidores e hoje abriga indústrias de renome, estabelecimentos comerciais de considerável porte e importantes empreendimentos imobiliários. E a tendência é de aumento desse crescimento, com a perspectiva de instalação de novas empresas no município.

Crescer cada dia mais é o cenário que se vislumbra para Hidrolândia. E isso é muito bom. A industrialização, o fortalecimento do comércio e o empreendedorismo geram empregos e renda, o que qualquer cidadão quer, precisa, busca e espera de sua cidade. Ainda mais num momento em que 12 milhões de brasileiros estão desempregados.

Mas o mesmo crescimento que visa proporcionar tantos benefícios econômicos e sociais para a população pode causar sérios problemas ambientais e sanitários se não vier acompanhado da consequente presença do Estado para orientar, regular, fiscalizar e aplicar a lei às diferentes atividades produtivas potencialmente poluidoras. É o que está ocorrendo em Hidrolândia. O progresso que beneficia também prejudica, por causa da omissão ou ineficiência do poder público no seu papel constitucional de guardião do meio ambiente e da saúde pública – artigos 225 e 196 da Constituição Federal.

A comunidade, ao tempo que aplaude o surgimento de novas oportunidades de trabalho e as conquistas na área econômica, protesta contra os impactos de certas operações industriais e ações antrópicas que têm provocado, recorrentemente, malefícios à natureza e às pessoas.

Um dos alvos das reclamações dos hidrolandenses é uma marca famosa de laticínios que despeja seus efluentes no histórico ribeirão da cidade, o Grimpas, o que compromete a potabilidade da água e causa terrível mau cheiro, um tormento para os moradores ribeirinhos, que já recorreram, insistentemente, a quem deveria apresentar uma solução e não obtiveram êxito. E como que impotentes, observam a decadência do outrora saudável e vigoroso bebedouro de tantos. Esse despautério ocorre em plena era de iminente recrudescimento da crise hídrica que já atingiu milhões de lares pelo Brasil afora.

Para reafirmar a importância de harmonizar crescimento econômico com interesses sociais e ambientais, a Organização das Nações Unidas (ONU) realizou uma pesquisa que atesta que 78% dos empregos no mundo dependem de recursos hídricos. Quer dizer:  economia, mercado, dignidade, bem-estar, sanidade e sobrevivência dos seres humanos são interdependentes e dependentes da água existente no Planeta.

Outro caso que chama a atenção pelos altos riscos ambientais e sanitários que representa em Hidrolândia, é o uso indiscriminado de venenos na roçagem química em condomínios fechados/loteamentos cercados no município, entre os quais, o Águas da Serra, um belíssimo local, que abriga uma farta porção do patrimônio natural do Cerrado. A roçagem é feita através de bombas manuais e “pulverizadoras de trator”, em grande escala. Trata-se de prática ilegal proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2003.

Para piorar, os responsáveis por esses desatinos não obedecem os mínimos critérios técnicos e os cuidados básicos para o manuseio e a utilização dessas substâncias venenosas.

Além dos animais, plantas e mananciais – uma quantidade enorme de nascentes e olhos d’água, córregos e lagos –, residentes, trabalhadores, transeuntes ou quem quer que seja sofrem, de uma maneira ou outra, as consequências desses elementos tóxicos, que podem agir diretamente nos indivíduos na hora da aplicação ou em forma residual na contaminação do solo e das águas. O efeito desses herbicidas no organismo humano, inclusive em doses mínimas, é cumulativo e a intensidade da intoxicação depende do prazo de contato com o produto, segundo análises da Agência Americana de Proteção ao Meio Ambiente – US Environmental Protection Agency.

Todo mundo na redondeza sabe dessas aberrações, que têm se repetido ao longo dos anos na cara das autoridades, que por motivos desconhecidos, não conseguiram dar um basta à situação. E assim, os transgressores continuam com seus feitos nefastos até que os órgãos competentes, Secima, Polícia Civil, Prefeitura de Hidrolândia e Ministério Público resolvam tomar alguma providência.

 

(Sílvio José, jornalista especializado em Direito Ambiental e Educação Ambiental)

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