Brasil

Levar conversa de político a sério, não é sério. Ou é?

Redação DM

Publicado em 1 de junho de 2016 às 03:42 | Atualizado há 10 anos

Quem não está acostumado com as coisas íntimas e particulares da política deve estar pensando que o mundo desabou, após as divulgações das gravações das esquisitas conversas entre políticos sobre a operação de investigação criminal jocosamente apelidada de Lava Jato.

Com as revelações dos diálogos apenas tiveram lucro as redes nacionais de TVs que ficaram no ar 24 horas por dia, durantes dias, além de adicionarem mais lenha à fogueira que arde na Praça dos Três Poderes. Os demais, todos, perderam. Governo e oposição, um bando de idiotas!

Se há uma mistura que não dá liga é justiça com política. Igual água e óleo. E olha que a tentativa de tal façanha vem de bem antes do Direito Romano ser codificado. São grandezas distintas e díspares. Mas, para não dizer que não existe nenhum risco, numa ditadura é possível a justiça ser tutelada pela política. Temos casos no Brasil.

Eu já disse aqui, muitas vezes, que nada me espanta. Principalmente em política. De um tudo vi dentro dela. Um filme de horrores, se bem que mais para comédia. E não é que conseguiram superar tudo o que já vi?

Quebraram a tradição de que macaco velho não põe a mão em cumbuca. O medo dos efeitos da operação Lava Jato fez um estrago na imagem de pessoas consideradas a elite da inteligência política nacional. Bem, se não são a inteligência, pelo menos ocupam os cargos que são. Que gravações ridículas! Os próprios ocupantes apequenaram as funções de presidente, de senadores, de deputados – para ficar só no primeiro escalão.

No mínimo, com os diálogos nos devaneios para abafar a Lava Jato, uma questão está clara. Os ocupantes dos três Poderes foram colocados sob suspeição. Se não são verdadeiramente suspeitos, são outros 500. Mas a dúvida remanesce, porque todos são citados nas conversas.

No fundo no fundo acho tudo uma fanfarrice. De concreto, apenas a vontade de esconder onde colocaram tanto dinheiro público. No mais, uma roleta russa de desinformações. Ou será a fórmula encontrada para realmente embolar o meio de campo e o jogo terminar empatado: a palavra do sujo contra o mal lavado. Vai se entender.

 

(Iram Saraiva, ministro emérito do Tribunal de Contas da União)


Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia