Prêmio Hugo de Carvalho Ramos esquecido pela Prefeitura de Goiânia
Redação DM
Publicado em 31 de maio de 2016 às 03:08 | Atualizado há 10 anos
A supressão e, quase, imediata recriação do Ministério da Cultura pelo governo interino de Michel Temer foi um episódio sintomático. Representantes e simpatizantes do PT denunciaram essa canetada como fruto de descaso e autoritarismo, resultando no perigo iminente de haver um retrocesso de trinta anos na área. A conclusão que se tira é que a Cultura permanece ameaçada, sendo potencialmente a primeira vítima de eventuais futuros corte de gastos.
A conclusão obvia é que, com o afastamento provisório do PT do governo federal, os estados e municípios geridos pelo partido estão se esmerando na administração e fomento da cultura. Literalmente, mostrando como se faz. E a Prefeitura de Goiânia lidera esse movimento em prol da cultura. Certo? Errado, pelo menos no que se refere a literatura. Infelizmente.
Tomo como exemplo a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos. Láurea que representa um orgulho para Goiás, uma vez que se trata do mais antigo prêmio literário brasileiro, tendo sido criado em 1944 pelo primeiro prefeito de Goiânia, Venerando de Freitas Borges. A primeira obra vencedora foi “Ermos e Gerais”, do imortal Bernardo Élis, membro da Academia Brasileira de Letras. O concurso é realizado anualmente pela União Brasileira de Escritores-Seção Goiás (UBE-GO) em parceria com a Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Cultura. Os editais mais recentes prevêem duas categorias: prosa e poesia. A Comissão Julgadora é composta de três membros de reconhecida competência, sendo um representante da UBE-GO, um representante da Prefeitura de Goiânia e um representante da Academia Goiana de Letras. Os autores contemplados recebem a publicação da obra e uma premiação em dinheiro de vinte salários mínimos. Além de Bernardo Élis, outros importantes nomes da literatura goiana foram premiados, como Eli Brasiliense, Heleno Godoy, Miguel Jorge, Gilberto Mendonça Teles, Yêda Schmaltz, Anatole Ramos, Pio Vargas, Delermando Vieira e Edival Lourenço e outros.
Tive a honra de ganhar na categoria prosa justamente em sua edição de número setenta, em 2014. Ganhei, mas (ainda) não levei.
E não sou o único. O descaso com os escritores é antigo. Sabe-se, por exemplo, que André de Leones ganhou a Bolsa Hugo de Carvalho Ramos no já distante ano de 2005, com o livro “Desde pequenos nós comemos silêncios”, e nunca teve a obra publicada. Mais recentemente, ao longo da gestão do prefeito petista Paulo Garcia, os atrasos se acumulam. Hélverton Baiano, com o livro “Bramuras”, e Márcia Conti, com o volume de poesias “Na fissura do vestido”, venceram em 2013, mas, por enquanto, só receberam o montante em dinheiro. Três anos e nada de publicação.
Como citei, venci em 2014, na categoria prosa, com o romance “Fogo de Junho”, sendo que Valdivino Braz venceu na categoria poesia com o livro “Lepidópteros lambem o musgo dos paralelepípedos”. Ainda não recebemos o prêmio em dinheiro, tampouco a publicação. O mesmo ocorre com os laureados de 2015, Hélverton Baiano, agora em poesia por “Encanto Perverso”, e Carlindomar José de Oliveira, com “Ciclos de Vento”. Acrescenta-se que as comissões julgadoras de todas as edições citadas, até onde sei, também não foram pagas.
É sempre possível argumentar que a administração pública é um engenho complexo e burocrático, mas nada parece justificar atrasos tão consideráveis. No meu caso particular, conforme fui informado, a UBE encaminhou toda a documentação necessária para a Secretaria Municipal de Cultura em dezembro de 2014. Alegarem que perderam o processo e tudo foi reenviado e protocolado novamente no dia 03 de fevereiro de 2015. Em fevereiro de 2016 meu processo ainda não estava no sistema.
Trata-se, sobretudo, de uma questão de vontade política. A verba para a Bolsa Hugo de Carvalho Ramos existe por dotação orçamentária, o que significa que os valores estão circulando por aí. Só é necessário destiná-lo para onde foi previsto inicialmente. Não se trata aqui de fazer um favor para os escritores, mas de honrar um compromisso firmado, e, sobretudo, valorizar nossa produção literária.
Quando Pedro Ludovico concebeu a construção da nova capital, o projeto é que Goiânia seria uma cidade moderna, um local de cultura. Não por acaso seu nome foi inspirado no título do poema épica “Goyania”, de Manuel Lopes de Carvalho Ramos, pai de Hugo, e sua inauguração, no dia 05 de julho de 1942, foi chamada de Batismo Cultural. Essa vocação para estética, percebida na arquitetura e no traçado urbano da cidade, não pode ser negligenciada. O Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, por sua longevidade e pelo conjunto de nomes que figuram em seu rol de premiados, é um símbolo dessa vocação cultural da cidade. Deve ser fomentado, valorizado, não tratado como uma obrigação incomoda.
Depois de todo o justo barulho que foi feito pela militância petista em função da infeliz tentativa de desmonte do Ministério da Cultura por parte do governo interino, a prefeitura de Goiânia possui a obrigação de dar o exemplo em seu próprio quintal.
(Ademir Luiz, professor da graduação e pós-graduação da Universidade Estadual de Goiás. Doutor em História. Recebeu a Comenda Medalha do Mérito Cultural do Governo do Estado de Goiás em 2015)