Brasil

Para onde caminha a escola?

Redação DM

Publicado em 31 de maio de 2016 às 03:05 | Atualizado há 10 anos

“Education is a social process. Education is not a preparation for life. Education is life itself”

John Dewey

 

A escola pública brasileira atravessa uma fase difícil. É possível afirmar que essa instituição vive à beira de um colapso. Na atualidade, encontrando-se numa verdadeira encruzilhada. Diante dessa situação é apropriado perguntarmo-nos: Para onde caminha a escola pública brasileira?

A escola, na sua gênese, esteve ligada, por incrível que pareça, a ideia de uma grande diversão. Uma verdadeira brincadeira, na acepção pura da palavra. Na Grécia Clássica estudar configurava-se um privilégio apenas para as classes mais abastadas da sociedade. A escola destinava-se somente àqueles que não precisavam trabalhar. No grego, scholé significa lugar do ócio. Isso porque as pessoas iam à escola em seu tempo livre, para refletir. No Latim, schola designava lazer, descanso ou alguma atividade feita na hora do repousso, como estudar. Do que se fazia nesse período, derivou o local onde as pessoas se divertiam, ou seja, estudavam. Geralmente elas iam lá “apenas” para conversar, daí o porquê do significado da palavra escola referir-se a lugar onde se conversa, onde se fala.

As escolas, pensando no modelo de hoje, com professores e tendo crianças como alunos, têm origem na Europa do século 12. Entretanto as instituições escolares com divisões disciplinares, como as existentes nos dias atuais, datam dos séculos 19 e 20, ou seja, bem recente.

É esse modelo que vive uma profunda crise, e não poderia ser diferente. Porque é um modelo escolar, baseado na fábrica, no presídio. E carrega toda a simbologia dessas instituições, intencionalmente, diga-se de passagem. O que são as nossas escolas públicas? São salas isoladas, estudantes sentados, filas, e os corredores dessas instituições são imensos. Os pátios são totalmente vigiados, as escolas não possuem espaços amplos, não existe arejamento nos processos. Cada vez mais nossas instituições escolares assemelham-se as cadeias.

É impressionante como as escolas e as cadeias guardam semelhanças. O que são esses locais? O que pregam? São estruturas autoritárias, onde geralmente poucos mandam e muitos são obrigados a obedecer, tanto alunos quantos detentos são obrigados a usarem uniformes. Como regra geral deve-se imperar a ordem e o silêncio. Os indivíduos dessas instituições têm baixa autonomia individual, liberdade controlada e não têm espaços para dar opinião nas decisões tomadas. De fato, ambas as instituições não funcionam. Entretanto, minha preocupação maior nesse momento não é com as cadeias. E sim com as escolas… Se a instituição escolar possui tantas semelhanças, com outra que tem por dever ser autoritária, rígida, verticalizada algo está errado, muito errado.

Todavia é evidente que há uma intenção por detrás disso. O filósofo Immanuel Kant, diz que enviamos as crianças à escola: não tanto para que aprendam alguma coisa, mas para que se habituem a estar calmas e sentadas e a cumprir escrupulosamente o que se lhes ordena, de modo que depois não pensem mesmo que têm que pôr em prática as suas ideias.

Precisamos encontrar uma saída para a crise na escola brasileira. Porém, são nesses momentos que governos despreparados e oportunistas agem, tornando a emenda pior que o soneto. Vide o caso goiano, com a tentativa insana e imoral do Governo Marconi Perillo, de transferir a gestão das escolas públicas para as chamadas organizações sociais, como se já não fosse trágico o fato de transferir recursos públicos para iniciativa privada, as O.S’s mostraram-se sem nenhum preparo para gerirem uma instituição complexa como uma escola – no primeiro edital proposto pelo governo, nenhuma O.S. mostrou-se capaz de gerir as escolas da regional de Anápolis.

As alternativas ao modelo das escolas/presídios nascerão da construção coletiva, de educador@s, alun@s, famílias, tod@s que acreditam na força e na importância da escola pública, gratuita, laica e de altíssima qualidade. Todavia, acredito que nessas alternativas um princípio não pode faltar. O princípio da emancipação social. À escola e aos educador@s cabe um papel fundamental, o de emancipar as classes populares, o proletariado e seus filh@s. Pois a verdadeira educação, como afirma o Condorcet, “faz cidadãos indóceis e difíceis de governar”.

 

(Edergênio Vieira é, poeta, educador na Rede Municipal de Ensino de Anápolis)

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