Brasil

Concertos em destaque

Redação DM

Publicado em 31 de maio de 2016 às 03:05 | Atualizado há 10 anos

O projeto “Concertos UFG”, organizado pelas Professoras Ana Flávia Frazão e Gyovana Carneiro, tem oferecido ao público ávido de acontecimentos culturais programas de primeira linha. Domingo às onze horas da manhã, o auditório do Centro Cultural UFG costuma receber pessoas interessadas em ver e ouvir artistas do mundo inteiro, mesclados com renomados músicos brasileiros.

Entre os recitais realizados nesse espaço dedicado à cultura, despertou admiração do público o talentoso e simpático duo composto por Stefan Hussong ao acordeon e Viviane Taliberti ao piano. A performance dos intérpretes fez vibrar de emoção os espectadores presentes na sala de concerto.

O acordeonista alemão, Stefan, venceu diversos concursos na Europa, apresentou-se como solista com conceituadas orquestras, recebeu diplomas e títulos que enriqueceram o seu curriculum. Conta com vinte e cinco CDs gravados, entre eles alguns premiados. Atualmente, exerce o cargo de professor na Escola Superior de Música de Würzburg na Alemanha.

Viviane Taliberti, pianista brasileira, natural de Curitiba, iniciou seus estudos na sua cidade natal. Concluiu o mestrado com louvor na faculdade de Música de Colônia, e o doutorado na USP. Posteriormente, ingressou através de concurso público no Departamento de Música do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia. Aos dezenove anos, realizou sua primeira tournée internacional na Alemanha. Continuando seu itinerário artístico, apresenta-se como solista e camerista no Brasil, na América do Sul e Europa.

O programa foi escolhido com peças do célebre musicista argentino A. Piazzolla (1921-1992) e de J. S. Bach (1685-1750), adaptação de G. Kurtag (1926). Bach, o mestre dos mestres, influenciou vários compositores, entre eles Piazzolla. As obras dos dois autores foram intercaladas no decorrer do recital, resultando uma extraordinária combinação.

Na música Argentina, Piazzolla trabalhou as danças em diversos aspectos. O tango, obra dramática por excelência, traz em si estilo altivo, sofisticado e harmonioso. Ritmo preciso, energia forte, transmite contagiosa emoção. Explorou a polimetria, pulsação difícil de executar, pois, enquanto um instrumento faz um compasso de três tempos, o outro pode usar quatro. Trata-se da utilização regular ou simultânea de mais de uma métrica, divisão de uma linha musical em compassos. O trabalho rítmico do intérprete é dificílimo.

Voltou-se, também, para a Milonga, dança tradicional de vários países da América Latina, o Brasil inclusive. Tem origem na habanera espanhola. Esse ritmo faz parte da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande do Sul. A música tem caráter melancólico e terno, com expressão doce e apaixonada.

Kurtag utilizou cantatas e fugas da obra de Bach, assim como parte das 46 peças usadas para o ensino de órgão. Algumas cantatas eram do repertório de Martin Lutero. Entre elas, havia uma intitulada “Todas as Pessoas devem Morrer”, o que não representava tristeza, pelo fato de os luteranos considerarem que os seres humanos se elevavam a um plano sublime após terem a vida exaurida.

Esse entrelaçar de épocas e estilos diferentes proporcionou aspectos interessantes, ora contrastantes, ora harmoniosos. Os dois intérpretes se integraram perfeitamente como se vibrassem no mesmo diapasão.

Stefan, em inglês claro e de fácil compreensão, mostrou todos os principais recursos do seu instrumento, explicando a diferença dos sons que se pode obter no piano e no acordeom. Esse último é imprescindível na música francesa, representado por um seu parente, o bandoleon. Está presente na música argentina, na alemã, e também na música popular brasileira. André Rieu costuma incluí-lo na sua orquestra. Ver o acordeom tocado na música erudita é uma experiência única.

Foram aplaudidos enfaticamente. Voltaram ao palco para apresentar um trabalho interessante de percussão rítmica com as palmas das mãos, produzindo, ao mesmo tempo, forte energia e diversas nuances sonoras.

As características do teatro proporcionam ao público certa intimidade com os artistas. A Escola Ribas Junior levou alunos na faixa de dez a doze anos para assistirem ao recital. Os espectadores estavam encantados. Todavia, ver crianças e adolescentes em contato com a boa música, incentivados por professores, deixa educadores brasileiros felizes. Ainda existem pessoas que se preocupam com a formação completa dos alunos.

 

(Alba Dayrell, professora aposentada da UFG, membro da Academia Feminina de Letras e Artes, Aflag, da Academia Nacional de Música e da União Brasileira dos Escritores, UBE)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia