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Lembranças dos tempos de escola – parte XLVI

Redação DM

Publicado em 28 de maio de 2016 às 02:37 | Atualizado há 10 anos

Em julho desse ano, num dia em que cheguei da aula de prática esportiva e me preparava para saí com meus amigos fui avisado por dona Lu para não saí à rua, pois papai que estava visitando um amigo em outra cidade tinha sofrido um acidente vascular cerebral e Zeno tinha acabado de partir rumo à cidade, onde papai estava internado. Zeno só chegou com papai no outro dia e, logo, o internou num hospital da nossa cidade. Na manhã seguinte Zeno viajou com ele para esta cidade, na qual quinze dias depois o enfermo veio a óbito por falência múltipla dos órgãos.

Era costume, naquela cidade, quando o indivíduo terminasse o décimo terceiro ano escolar, migrar para cidades mais desenvolvidas à procura de emprego ou para dar continuidade aos estudos. Aproximando o final do ano e, consequentemente, o final dos meus estudos naquela cidade, resolvi convidar todos para um passeio. Embora eles não soubessem, seria a nossa despedida, a minha despedida. Edu e Érick estavam terminando os estudos juntos comigo, e certamente iriam procurar um meio de sair daquela cidade ou tentar uma vaga para o cargo de professor, habilidade para a qual fomos preparados. Roney estava um pouco atrás de nós e Maick, mas atrás de Roney ainda. O que significava que eles dois levariam mais alguns anos ainda para o término dos estudos.

Eu daria tudo para continuar ali naquela cidade, mesmo depois da conclusão dos estudos secundários, mas nem tudo acontece como a gente quer. As poucas empresas existentes ali já estavam todas sobrecarregadas de operários e mesmo que eu conseguisse um bom emprego naquela cidade, seja de origem pública ou privada, acho que não aceitaria. Não por egoísmo, mas por questão racional. Ir embora daquela cidade tinha se tornado inevitável, pois tinha um grande sonho de me tornar um escritor e a realização do sonho poderia está em qualquer outro lugar do mundo, menos lá. Com isso a nossa separação era preciso, e para isso, era questão de findar o ano letivo.

Terminado o ano letivo, Edu, Érick, Roney, Maick e eu começamos a nos preparar para fazer o passeio combinado anteriormente. Para eles, acho que era só mais um passeio, assim como qualquer outro, porém, para mim, era o selo da nossa despedida, pois depois daquilo, cada um de nós, iam para horizontes diferentes e não sabíamos quando iríamos nos encontrar novamente, não sabíamos nem mesmo se ainda nos encontraríamos, afinal, desde cedo o ser humano aprende a conviver com a imprevisibilidade.

Resolvemos fazer uma pescaria, à noite, num grande tanque de propriedade do Estado e chegada à hora da partida, Edu e Érick estavam a serviço de seus pais, e, infelizmente, não poderiam ir conosco. Então, Roney, Maick e eu convidamos um colega do nosso grupo de jovens, e colega de aula de Roney, chamado Cláudio e partimos de bicicletas…

Já era quase dezoito horas, de um sábado conturbado, mas parecia ser bem mais tarde. Tínhamos nos atrasados esperando Edu e Érick e ainda nem tínhamos saídos da cidade, precisávamos arrochar os pedais, das bicicletas se realmente quiséssemos uma boa quilometragem antes da noite invadir o dia por completo. Partimos e, tão logo, o sol que já se demonstrava cansado, abatido e pálido deu o seu último suspiro daquele dia deixando o céu citadino manchado de sangue crepuscular e nossos destinos entregues às trevas.

De acordo com Roney, ali íamos pescar uma grande quantidade de peixe. Maick, Cláudio e eu nem chegamos a nos preocupar em levar comida, esperávamos que o nosso banquete, a nossa comida, o nosso jantar fosse peixe assado no espeto. Cláudio resolveu levar uma lanterna, mas para nós, aquela ideia era uma besteira e de início comprovamos ser aquela luminária um objeto inútil, pois depois de andarmos vários quilômetros, fomos saudados pela lua que brotou por detrás das serras, prateando as matas wanderleenses e banhando nossos corpos. Durante o percurso, a corrente da minha bicicleta ia caindo a toda hora, coisa nunca dantes acontecida. Sorte que Cláudio com a sua experiência me socorria e, novamente, estávamos prontos para até a corrente se soltar outra vez. Roney e Maick, com uma única bicicleta, para os dois, seguiram em frente, um levando o outro e revezando sempre que precisasse, gritando com toda a euforia parecendo dois loucos.

Depois de tanto sacrifício pelo caminho, chegamos ao local e fomos procurar gravetos para acender uma fogueira para nos aquecer do frio que passara a ser intenso, e para assar alguns dos peixes que iríamos fisgar. Saímos para o meio dos arbustos, nas barragens do tanque, depois embrenhamos no meio do mato escurecido pelas árvores que impediam a penetração da claridade da lua que veio nos fazer companhia e parecia clarear mais a noite, que o sol o dia, para procurar cascas de madeiras, troncos secos, estrume de gado e qualquer tipo de lenha, desde que fosse rápida para pegar fogo. Enfiávamos nossas mãos desprotegidas dentro das madeiras em estado de putrefação, sem pensar, sem medo de formigas, cobras ou escorpiões e, para a nossa sorte, só fomos atacados por cupins, frequentes nesses ambientes.

Arrastamos muito entulho da beira da estrada e do meio da floresta para a beira do tanque. Após fazermos à fogueira, preparamos as nossas iscas e as colocamos nos anzóis e começamos a lançá-los nas profundezas das águas em barro. Depois de fazer esses gestos repetitivamente, começamos a perceber que aquele tanque não era tão povoado de peixes, como dissera Roney. Parte da noite já havia sido corrompida pelo tempo, estávamos abusados de tanto lançar os anzóis nas águas, puxá-lo e vê-lo sem nada, apenas com as iscas, nossos estômagos começaram a dar os primeiros sinais de vazios. Demorou mais um pouco e a fome nos castigavam, só então nos lembramos que esquecemos de levar comida. Cláudio, Maick e eu começamos a citar nomes de comidas deliciosas e os nossos estômagos pareciam querer sair pelas nossas bocas.

Roney estava um pouco mais afastado de nós, do outro lado da margem, concentrado, lançando o seu anzol, puxando e lançando novamente. Numa hora em que ele puxou o anzol, até nós mesmo sentimos que a armadilha estava pesada, largamos os nossos anzóis lá, corremos felicíssimos, e fomos ajudar Roney. Para nós aquilo não era só um peixe, era um cardume, um grande peixe capaz de saciar a nossa fome. Juntamente com Roney Puxamos o anzol, e realmente Roney tinha fisgado um baita animal.

Naquele instante a lua já se escondera atrás das montanhas, entregando a noite à escuridão, deixando as trevas tomar conta dos nossos olhares, o fogo estava longe de nós, sua claridade não nos auxiliava e para tirar o animal do anzol, contamos com o apoio da lanterna de Cláudio. Quando ele focou a lanterna na direção da linha do anzol, acompanhando-a até o chão, onde estava o animal, vimos que Roney havia pescado um enorme sapo. Aquilo foi o fim da nossa alegria, da nossa animação e da nossa algazarra, pois tínhamos sede, sono, cansaço e fome. Estávamos decepcionados com o insucesso da pescaria e sentamos cabisbaixo à beira das águas. De repente, assustamos com Roney que se levantou, saiu correndo em direção a fogueira agora em grandes labaredas e, sem saber o motivo, saímos correndo atrás dele. Ao aproximar da fogueira, Roney pegou a sua mochila, abriu-a e tirou um embrulho de dentro. Eram pães de trigo recheados com doce de leite, que ele levara, se esquecera e naquela hora sagrada se lembrara, para a nossa sorte, caso contrário, morreríamos de fome à beira do lago artificial.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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