Observações sobre o orgulho
Redação DM
Publicado em 28 de maio de 2016 às 02:37 | Atualizado há 10 anos
Por que, amigo, tanto orgulho?
Por que desvias do pobre que passa?
Por que estimas apenas os poderosos?
E tu me dizes: – Somos da mesma linhagem!
Sim: cada um vive como pensa.
Mas, apesar da tua posição, da tua estirpe – dos andrajosos em nada te diferes!
E, humilhado, me respondes:
– Não somos iguais! Se existem os plebeus, é porque, maus, são inferiores a mim.
E eu te falo: todavia, se não existissem os pobres, se todos fossem ricos, e da mesma classe – não poderias tu, amigo, te destacares na vida!
E entenderias, afinal, que somos iguais!
Ingenuidade a tua, se te julgas superior aos outros: ouro e posição não representam superioridade.
Se um dia perderes o prestígio, o cargo, os títulos e tudo o mais – dos míseros que desdenhas em nada te diferirás!
– Mas me restará a nobreza do sangue! Exclamarás.
Oh! Como o orgulho te embota a consciência! O Século Vinte e Um, com toda a sua poderosa ciência não descobriu, ainda, diferença alguma entre o sangue do monarca e o do plebeu!
Sana, pois, esse orgulho! Olha que um dia, quando enfermo, te injetarão, na veia, sangue de mendigo – e grande será o teu vexame!
E se te julgas tão diferente do miserável – também teu corpo um dia apodrecerá!
Ris? Mas com tanta presunção e preconceito, amigo, o maior ridículo não sou eu. Todos são meus iguais.
E quem te separa e te desiguala do maltrapilho? Tu somente, com este teu orgulho assombroso… com este teu egoísmo – com esta tua vaidade!
Se o mísero de que hoje escarneces e desprezas, um dia conquistasse tesouro e posição – o que, aliás, às vezes, acontece – passarias a aceitá-lo a teu lado, como amigo.
Visitá-lo-ias no palacete. Respeitar-lhe-ias e tudo mais…
Parvo! As aparências exteriores que nada são te prevalecem como atestado de nobreza, e os dotes morais nada te representam?
Será que não te larga essa milenar estupidez?
Infeliz! És cheio de orgulho – e vazio de virtudes…
És repleto de ouro – e pobre de entendimento… És brilhante por fora – e sombrio por dentro…
Tens robusto o corpo – mas doente o espírito…
“Por fora, bela viola – por dentro, pão bolorento”.
Não passas de um garrafão enfeitado com bonito rótulo, mas guardando deteriorado vinho!
Tanto orgulho e tanto preconceito, amigo, são coisas do passado.
Já expirou o Século Vinte – já chegou o Terceiro Milênio.
E dormes ainda como os ursos polares no inverno?
Quão prolongado e milenar é o teu inverno, amigo!
Vamos! Acorda! Sacode o teu espírito!
Vês? Estamos nos aportando ao Terceiro Milênio e a tua consciência estagnou, acaso, no antanho?
Sana o teu orgulho – “quem se humilha, será exaltado”. Os pequenos são grandes – “os últimos serão os primeiros”… “Sê perfeito, como perfeito é teu Pai Celestial”.
(Iron Junqueira, escritor)