Lembranças dos tempos de escola – parte XLIV
Redação DM
Publicado em 24 de maio de 2016 às 02:50 | Atualizado há 10 anos
De todo o ocorrido em minha infância e adolescência uma coisa eu queria deletar da minha memória para sempre, mas ela virou uma janela killer em minha vida e fica tostando meus pensamentos, de tal maneira que, às vezes, penso que nem o ácido do tempo, senhor da minha continuidade, conseguirá dissolvê-la da minha cabeça! Lembro-me que logo que meu irmão Zeno chegou da casa de minha cunhada, vendo o quintal da casa da minha ex-professora Chica cheio de arbustos, aquela que ocupou a vaga de Ane quando esta saiu para ajudar a dirigir a escola. Oferecemos para limpá-lo em troca de alguma grana e fomos contratados para carpir. Ficamos muito alegres com a proposta, pois estávamos precisando de um dinheirinho para comprar material escolar. Uma vez acertado o valor, começamos a fazer o trabalho, o qual levaria um dia inteiro. Quando chegamos ela ainda estava em casa se arrumando para ir trabalhar, não mais na escola, e sim na agência dos Correios. Avisou-nos que a porta estava trancada, mas que o portão principal se encontrava aberto para irmos embora quando terminássemos o serviço e logo a dona da casa saiu.
À tarde, quando faltavam poucos minutos para o término do nosso trabalho fomos surpreendidos por uma forte chuva acompanhada de relâmpagos e rajadas de trovões. Concluímos o trabalho bem rápido e corremos para o alpendre da casa para nos proteger. Ali ficamos encostados na porta de entrada da casa por algum tempo. Depois, meu braço que estava encostado no trinco da porta se movimentou, num ato automático e a abriu. Vendo que a senhora havia deixado a porta destrancada, fechei-a rapidamente, pois fomos educados de forma que se pensássemos em tocar em algo alheio éramos punidos imediatamente e severamente por nossos pais. Lembro-me que quase ganhei uma surra simplesmente por ter sentado numa cama num quarto de um colega. Quer dizer, eu não sentei, fui empurrado, mas meus familiares não quiseram saber disso, estavam mais preocupados em me punir.
Após a chuva, fomos para nossa casa e no outro dia Zeno fora receber o pagamento pelo nosso serviço no local de trabalho de Chica. Esta disse ao meu mano que não iria nos pagar, uma vez que havíamos entrado em sua casa, mexido nas coisas e queimado seu aparelho de som. Como queimar um aparelho de som num local onde nem tivemos acesso. Meu irmão ficou perplexo com a calúnia e, ao me contar fiquei angustiado, pois ele chegou a me perguntar se realmente eu não havia penetrado lá, pior, ele sabia que eu não havia entrado!
Suponhamos que eu tivesse entrado, mexido no som e gerado esse prejuízo, porque então ela não procurou nossos pais e em última condição a polícia. Ela sabia que éramos incapazes de realizar um ato de invasão a domicílio, ela sabia que jamais entraríamos lá sem a sua permissão. O que ela não queria mesmo era nos pagar. Nós com toda a nossa ingenuidade e falta de experiência não contamos o fato aos nossos pais temente uma surra por aquilo que não fizemos. Dias depois, passei em frente a sua casa, ouvir música em último volume, perguntei para um vizinho, na verdade Sinho, nosso ex-colega de classe, se aquela nossa ex-professora havia comprado um som novo e ele disse que não. De acordo com Sinho, sua irmã Lene estava trabalhando na Casa de Chica e Lene não viu jeito de sua patroa ter trocado de som.
Como pode uma professora levantar uma calúnia dessa contra dois pobres coitados que desde pequenos lutavam para ter um ganho extra e honestamente. É verdade que brincávamos bastante, porém, precisávamos trabalhar para suprir muitas necessidades, mas ela não quis saber nada disso, estava mais preocupada em nos caluniar para se safar de uma merreca.
Mas apesar de as lembranças ruidosas ficarem formigando o meu cérebro, procuro camuflar as minhas janelas killers com pensamentos sábios e recordações dos bons momentos vividos.
(Gilson Vasco, escritor)