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“Madame, o monstro que tira a sua aliança na faca, tem a ficha menos quilométrica que o ‘cusão’ de farda”

Redação DM

Publicado em 14 de março de 2016 às 22:23 | Atualizado há 1 ano

 

Hoje, 15 de março, é o Dia Internacional Contra a Violência Policial. Em 2014, um acidente de trânsito nas imediações do Jardim Goiás terminou em agressão física policial contra um aluno de Direito da PUC-GO, dentro do estacionamento da própria instituição, além de o policial, que estava armado, ter disparado contra o carro do jovem. O estudante, cuja identidade será preservada, tinha 22 anos na época. Processo ainda corre na justiça. Neste mesmo ano, o Brasil registrou a morte de 3 mil e 22 pessoas pelas mãos de policiais. Número superior ao total de vítimas do atentado às Torres Gêmeas em 2001 (2977 mortos). Os dados são do 9ª Anuário de Segurança Pública, lançado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Relatório Anual da Anistia Internacional de 2010 relaciona os altos índices de violência policial no Brasil com a impunidade aos torturadores na época da Ditadura Militar.

O grupo de rap Facção Central, cujo trecho de música intitula esta matéria, é um ferrenho crítico das violências e abusos cometidos por policiais no estado de São Paulo. O aclamado filme brasileiro Tropa de Elite, dirigido por José Padilha, elevou ao patamar de “herói nacional” o Capitão Nascimento, que aparece ao longo do filme em diversas cenas em que suspeitos são vítimas de tortura durante interrogatório. Mas a cena não se limita à ficção. Amarildo Dias de Souza, pedreiro, 47 anos. Foi visto pela última vez em 14 de julho de 2013, sendo levado por policiais para trás do contêiner da Unidade de Polícia Pacificadora na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro. Testemunhas (entre eles policiais da própria UPP) afirmam ter ouvido gritos de socorro de Amarildo vindo de detrás do contêiner. Policiais que estão presos pelo caso negam a autoria do crime. O corpo do pedreiro ainda não foi localizado.

Uma tradicional escola pública em Niquelândia, norte do estado de Goiás, referência em ensino, considerada uma das maiores e melhores da cidade, tem enfrentado sérios problemas nos últimos tempos com vários alunos que foram ou são vítimas de violência policial. No ano passado um aluno do colégio foi assassinado durante uma perseguição policial, e na última semana outros três foram agredidos fisicamente. Vale ressaltar que em todos os casos as vítimas são menores de idade e alegam estar sofrendo ameaças por parte de policiais caso resolvam denunciar ou tornar o caso público. A instituição de ensino não compactua com a repressão policial sobre seus alunos. A coordenação da escola falou conosco sobre as recentes fatalidades.

“No final de 2015 recebemos a notícia de que o Renato, nosso aluno de 17 anos, que cursava o 2º ano de ensino médio no turno noturno, havia sido assassinado. Ele e um grupo de outros colegas estavam passeando de moto pela cidade. Como alguns eram menores, a única viatura de polícia que temos na cidade saiu em perseguição aos garotos. O grupo de adolescentes se dissipou, tomando cada um um rumo diferente. Os policiais, irritados, começaram a disparar contra os meninos. Fatalmente nosso aluno foi atingido, morrendo no local. Renato era um garoto tímido, trabalhava como mecânico. Às vezes saia tarde do serviço e o pai o trazia para a escola.”

Sobre os outros casos envolvendo agressão física e intimidação policial a outros alunos da instituição pública de ensino, a coordenação disse que ficaram sabendo do ocorrido por que os estudantes  chegaram machucados no colégio. Perguntados, eles confessaram a agressão da qual foram vítimas. Os quatro alunos, que tem entre 15 e 16 anos, foram seguidos por uma viatura policial. Os estudantes tentaram se refugiar na casa do colega mais próximo, um deles se dirigiu à um posto de combustível e conseguiu escapar das agressões que os demais colegas sofreriam minutos depois. No trajeto o primeiro adolescente, Tiago, foi alcançado pelos agentes, foi pisoteado e colocado no camburão do automóvel.

Em seguida os policiais adentraram a casa de Eduardo, onde ele se refugiou na companhia de André, o quarto colega. Eles foram espancados na presença da mãe de Eduardo, que suplicava pela segurança do filho. Em seguida os menores foram algemados e transportados para o pelotão da policia, onde sofreram ameaças, caso revelassem o ocorrido. Orientados pela coordenação da escola, os menores fizeram uma denúncia contra a ação. “Eles são menores e estavam andando de moto, sem habilitação, Mas fica claro que houve abuso por parte da corporação. Nossos alunos tinham muitos hematomas pelo corpo”, revelou a coordenadora.

Na última quinta-feira, 10 de março, a Organização das Nações Unidas realizou denúncia em que acusa a polícia brasileira de matar cinco pessoas por dia. A média foi feita com base mas mais de duas mil mortes por mãos de policiais em 2015.

Zeid Bin Hussein, Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, afirmou que o racismo está intimamente ligado às ações violentas de policiais no País. Dois dias antes, na terça-feira 8, o relator da ONU para prevenção à tortura, Juan Mendez também manifestou insatisfação com a omissão dos governos estaduais e federal em relação à violência policial, destacando que este tipo de comportamento já é cultural dentro das corporações.

Recentemente, jornalistas do Diário da Manhã também foram agredidos por policiais durante cobertura que realizavam em manifesto contra o aumento abusivo das passagens de ônibus, que saltou de R$ 2,70 para R$ 3,30 e agora para R$ 3,70 em menos de um ano. Uma repórter e um fotógrafo foram agredidos fisicamente e sofreram ameaça de serem levados presos por desacato à autoridade.

O que fica nos corações da milhares de mães, pais, educadores e jovens em todo o País é que tenha fim a impunidade policial, e mais ainda, que tenham fim estas violências físicas, verbais e psicológicas, praticadas por quem foi empossado de autoridade para nos conferir segurança, não o contrário.

Todos os nomes das vítimas foram trocados para garantir a segurança dos mesmos.

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