Brasil

A delação premiada e o mau caráter

Redação DM

Publicado em 11 de março de 2016 às 02:10 | Atualizado há 10 anos

Um dos registros históricos mais afirmativos de grandeza de caráter é o que diz respeito à invariável conduta de Tancredo Neves em relação a Getúlio Vargas. A lealdade do grande político mineiro, que foi ministro da Justiça do governo constitucional do fundador do trabalhismo no Brasil, é exemplo dignificante. Serviu a Vargas e se manteve ao lado dele até o último momento – aquele em que o Presidente, dando por terminada a reunião ministerial em que se tratara da exigência de militares anti-Getúlio de que este renunciasse à Presidência, na madruga de 24 de agosto de 1954, dirigiu-se para o seu quarto no Catete e ali se matou com um tiro no coração. Tancredo guardou consigo a caneta com que Getúlio assinara naquela reunião o pedido de licença. Era uma forma de eternizar a demonstração de sua amizade com aquele a quem servira com o brilho do seu talento e o calor da sua amizade.
Evoco este fato porque é símbolo de bom caráter, o oposto do que estamos à assistir nos dias atuais. A chamada Operação Lava Jato tem dado deploráveis ensejos a que o mau caráter, a vilania, o cinismo sejam postos em evidência com relação a um incontável número dos políticos que emergiram no cenário nacional no últimos tempos. A delação premiada tem se mostrado eficaz na ampliação das revelações referentes a atos criminosos perpetrados na vida pública. Mas tem sido também o meio mais revelador de indignidade. Todas as confissões e delações são chocantes. Uma das que mais me chocaram foi a mais recente: a do senador pelo Mato Grosso do Sul, Delcídio do Amaral.
Exercia com pose de elegância e retidão, embora sempre medíocre nas suas formulações verbais, as funções de líder do governo. Isto significa haver recebido a mais pública demonstração de confiança do seu partido e também do próprio governo. Ninguém suspeitava de que por trás daquela postura de elegância na indumentária, da vasta cabeleira bem penteada, da fisionomia a sugerir preocupação com a ética pessoal e parlamentar, estivesse um indivíduo sumamente inescrupuloso. Mas uma traição – e traição é uma das práticas mais correntes nos dias atuais sobretudo no plano político – levou-o a uma surpreendente prisão. Justamente o filho de Nestor Cerveró, um dos denunciados da Lava Jato, provocou a prisão de Delcídio. Bernardo Cerveró, ardilosamente, traiçoeiramente, gravou palavras do senador em que este, empenhado em ajudar o pai do realizador da gravação, fez afirmações em que envolveu nomes de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal, de forma a que estes, indignados, levassem a mais alta Corte de Justiça do país, no mesmo dia, quase na mesma hora, a decretar a prisão do líder do governo no Senado. Humilhantemente preso, Delcídio permaneceu cerca de 20 ou pouco mais dias absolutamente incomunicável. Até que, posto em liberdade mas na condição de réu naquela operação, acertou fazer delação, no propósito, evidentemente, de atenuar a sua pena e possivelmente criar condições políticas para evitar a cassação do seu mandato pelos próprios colegas.
Uma das formas com que tenta, com sua delação, tornar-se figura da maior importância é a de não envolver figuras miúdas e sim as de maior expressão da política nacional.
Não tivesse sido vítima da traição de Bernardo Cerveró, filho do investigado Nestor Cerveró e preso por ordem do STF, Delcídio estaria até hoje a ostentar a imponência de líder do governo no Senado da República. Estaria a proclamar a retidão do governo federal. Não faria referência alguma ao Lula, nem a Aécio Neves. Quanto a este, vale registrar que a revista divulgadora da delação de Delcídio não mencionou o nome do senador ex-governador de Minas Gerais.

(Eurico Barbosa, escritor, membro da AGL e da Associação Nacional de Escritores, advogado, jornalista)


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