O pronunciamento e a indiferença coletiva
Redação DM
Publicado em 11 de março de 2016 às 01:54 | Atualizado há 10 anos
A lanchonete, às margens da GO-070, estava lotada na tarde de 4 de março. Devia ter lá umas 50 pessoas ou mais, quando na televisão um chamado ocorreu. Era o pronunciamento, em rede nacional, da presidente Dilma sobre a condução coercitiva do ex-presidente Lula para prestar depoimento na Polícia.
Pensando bem, se fosse em outras épocas, isso mobilizaria qualquer ambiente, sendo dada a atenção devida e vultuosa a um assunto de interesse nacional. Afinal é um ato de respeito cívico estar de orelha em pé às palavras de quem ocupa o cargo máximo de nosso País. Mas não foi bem isso que aconteceu. Do jeito que as pessoas estavam, elas ficaram. Com a exceção de dois homens, que se aproximaram do televisor para ouvir melhor, todos os outros ficaram acampados em suas vidas, mordiscando seus salgados, bebendo seus refrigerantes, palitando seus dentes, correndo os dedos em seus celulares. E isso é um erro, mas um erro justificável, e digo o porquê.
É que uma apatia descomunal abate nossos corações. Uma apatia que chega a se converter em dor. Dor de saber que muito do que ocorre é culpa nossa. Um desânimo tão intenso diante de tantas falácias, demagogias e inverdades dos tais que escolhemos nos representar. Nosso desânimo não deve ser confundido com falta de força. Todavia, mesmo sabendo que sensação de impotência pode ser ilusória, a descrença veio crescendo e chega agora a níveis alarmantes, nos levando, numa ação instintiva, a fechar os olhos e tapar os ouvidos diante de absurdas palavras com intenções de justificar o que se mostra injustificável. Se a apatia abate nossos corações, lancemos mão de nosso cérebro.
Há de chegar tempos melhores, diria o otimista, num vaticínio de comodismo. Tempos melhores não virão, corrigiria o pessimista, incorrendo em desesperança precipitada. Tanto não adiantará patavinas pregar esperança sem ação, como desespero em ações erradas. Pensemos que o melhor tempo é aquele que chegará somente depois da cura de nossas gangrenas sociais. E elas estão cada vez mais abertas, escancaradas às intempéries de desmandos históricos. A correção de todas as inadequações deve ser principiada do micro para o macro. Um pouco já batido dizer isso, mas não custa nada repetir, numa tentativa de tomarmos como regra basilar da mudança profunda que precisamos para o País que nascemos e queremos estar. Por exemplo, os furos na fila do banco, o estacionamento indevido em vaga de deficiente, o papel de balinha e o copo descartável jogado da janela do carro, o gato feito na TV por assinatura, o livro locado e não devolvido, o sono fingido no ônibus para não ceder lugar a gestante ou idoso, entre um bocado de outros maus costumes. Todos eles são embriões que muitas vezes podem parecer inofensivos, mas não o são. Sem dúvida eles crescerão e virarão monstros terríveis que nos amedrontarão, causando tão fatídico sentimento de apatia em ciclos viciosos e, do mesmo modo, tortuosos.
Parece uma espécie de teoria da sina cismada, mas não é. É necessidade de reavaliarmos todas as nossas ações, começando das mais simples até as mais complexas, traçando rumos, revendo conceitos, revertendo situações que, em avalanche, têm nos levado a tantas e tantas mazelas, a ponto de nos sentirmos, como aconteceu naquela tarde na lanchonete da GO-070, tão indiferentes.
E os homens ficaram lá, firmes, do início ao fim do pronunciamento da presidente. Em frente ao televisor, sacudiam a cabeça, inconformados, olhando-se vez em quando, comentando entre si baixinho isso ou aquilo, aquilo ou aquilo outro. Não arredaram pé. Mesmo indiscutivelmente não estando felizes, pelo contrário, se mantiveram fortes, atentos, para terem ciência do que foi dito. E quem eram eles? Não se sabe. Um estava de roupa social, com um sapato impecável de bico longo, e o outro com um jaleco de mecânico, de botina mateira. Não estavam juntos. O que tinham em comum, arrisco que o exercício da cidadania e faíscas vivas de uma consciência cívica traziam consigo.
Ah, como os invejei! Confesso que minha inveja foi como a que Bilac sentiu do ourives, já que nem mesmo eu, que assino esta crônica, dera conta naquele momento de prestar atenção nas tediosas frases lidas no pronunciamento, ficando a cargo apenas de espiar as impressões das pessoas aqui trazidas. Voltei para casa com a obrigação de assistir na internet o que disse a presidente e, respirando fundo, custosamente o fiz.
(Hailton Correa, graduado em Letras pela UEG de Inhumas, agente prisional e escritor)