Brasil

Comício em Mineiros

Redação DM

Publicado em 10 de março de 2016 às 01:20 | Atualizado há 10 anos

Em um dia de 1960, em Jataí, decidi que, ao completar 18 anos, militaria na política municipal. 1960 foi marcado pela inauguração de Brasília (21 de abril) e pela vassoura do Jânio, postulante à Presidência( eleições dia 3 de outubro). Avesso a partidos, concorreu por uma sigla inexpressiva com o apoio da UDN golpista e moralista. Analfabeto político, me empolguei com essa agremiação..
As eleições de 1960 foram as últimas com voto direto para vice-presidente, vice-governador e vice-prefeito. Estes podiam postular reeleição para período imediato; o que era vedado aos chefes do Executivo federal, estaduais e municipais. Miguel Gonçalves, vice-prefeito de Jataí, tentou se reeleger, perdeu. Jango, vitorioso em 1955 na chapa encabeçada por Juscelino (coligação PSD-PTB), pela mesma aliança, agora liderada por Teixeira Lott, se reelegeu. Perdeu Lott, Jânio ganhou. Coligação PSD-PTB triunfou em Goiás com Mauro Borges para governador e Rezende Monteiro vice-governador. Para o Executivo de Jataí triunfou a chapa “puro-sangue” pessedista formada por Cyllenêo França e Sebastião Carneiro. Também nesse ano mergulhei, com entusiasmo natural no jovem, na política estudantil, onde se valorizava oratória. Há tempos nutria o propósito de discursar e o concretizei ao me envolver na agitação dos estudantes secundaristas.
Dia 31.7.1962 (ano eleitoral) alcancei a 18ª estação. Chegado, pois, o momento de subir nos palanques das Oposições Goianas(UDN-PSP-PDC), comandadas pelo brilhante Alfredo Nasser(PSP), pretendente à Câmara dos Deputado. A UDN local, por influência do candidato a parlamentar estadual Sídney Ferreira, o apoiava. Sídney, naquele ano, era vereador pela terceira vez consecutiva. Elegera-se em 1950, 1954,1958 sempre na condição de mais votado dos postulantes ao cargo. Procurei-o para oferecer meus préstimos. Chamou-me para concorrer à Câmara Municipal, não aceitei. Meu alvo era apenas ajudar com discursos. Estreei, na tarde seguinte, no povoado de Estância, em pequena concentração pública. A partir daí, muitas viagens fiz com ele a cidades vizinhas. Sempre me inscrevia ou me inscreviam no rol dos oradores. Caminhei ao seu lado nas campanhas de 1962, 1966 e 1970. A última, traído pelo governador que ajudara eleger, Otávio Lage, sofreu fragoroso revés.
O palco do comício de maior público que realizamos, em 1962, foi Mineiros, em frente à loja do Raul Brandão, udenista fiel e que veio a ser prefeito duas vezes. Lá, UDN e PTB se irmanavam e o PSD tinha a Prefeitura. Os mineirenses diziam-se cansados de votar em candidatos de Jataí e nesse comício esse sentimento ficou claro. O PSD local apoiava Luziano de Carvalho, ex-prefeito de Jataí, e a oposição tinha três nomes: Sídney( Jataí), Calisto Antônio(Rio Verde), ambos da UDN, e Osvaldo Barroso, de terras distantes, pelo PTB. Quem dirigiu a concentração fui eu e a preferência para proferir discursos era, por motivos óbvios, do Sídney e dos concorrentes à Câmara Municipal, dentre os quais o ex-vice-prefeito José Alves de Assis, o Bregué. Ao se pronunciar, revelou sua disposição de candidatar-se a deputado estadual em 1966. Realmente, em 1966, subiu da Câmara Municipal para a Assembleia Legislativa. Reelegeu-se em 1970, o povo o fez deputado federal em 1974 e 1978. Nesse período, licenciou-se para ser secretário de Estado da Educação. A ditadura, em 1978, o escolheu governador, mas o grupo Caiado puxou seu tapete a favor de Ary Valadão. Em 1979, faleceu em desastre aéreo. Foi porta-voz do Centro-Oeste e o maior vulto da história de Mineiros (dividida em antes e depois dele).
Voltando ao dito comício. Eu queria falar, mas me faltava espaço, como já foi dito. Quando o último orador se apresentava, o povo começou a retornar aos seus lares. Ele não se demorou e me passou o microfone para encerrar o evento, mas soltei o verbo e a reação foi imediata: alguns olhavam para trás, pois já iam embora, e regressaram. Enquanto eu falava, ninguém se afastou. Também não me demorei. E vieram os cumprimentos. Pena que eu o tenha feito a favor da UDN.

(Filadelfo Borges é auditor aposentado de Goiás, autor de vários livros, sócio-fundador da Academia Rio-Verdense de Letras, Artes e Ofícios. Curso superior incompleto (Letras), natural de Jataí, casado em Mineiros, mora em Rio Verde. É maçom grau 33)


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