A surpresa de Marcondes
Redação DM
Publicado em 22 de janeiro de 2016 às 22:21 | Atualizado há 10 anos
Logo após o desencarne de Marcondes, um ano depois talvez, estando o seu espírito lúcido e feliz no Plano Espiritual, manifestou o desejo de rever as paragens onde vivera, na terra. Especialmente pretendia visitar aquele abençoado Lar das Crianças onde, por anos a fio, trabalhou com afinco e denodado amor à causa.
O seu instrutor Espiritual assentiu em satisfazer-lhe o desejo e, minutos depois, desciam dos planos mais altos da Grande Espiritualidade e mergulham as trevas densas que envolviam o planeta Terra.
O espírito que, nos círculos humanos, encarnara a personalidade branda e laboriosa de Marcondes reviu, pressuroso e alegre, os locais de suas experiências na terra dos homens. Penetrando em seguida a instituição de amparo a menores órfãos e abandonados, onde prestara os seus serviços com muito amor, sentiu sua alma inundar-se de intenso júbilo.
As criancinhas estavam alegres e, instintivamente, pareciam lhe registrar a presença espiritual, posto que muitos, brincando no grande pátio, recordavam-lhe a prestimosa bondade e falavam de seu nome com inusitado carinho.
— Em pouco mais de um ano de ausência, as crianças cresceram muito. Disse Marcondes ao seu instrutor. E onde estará o Pedrinho, a Claudia, o Osvanir? Encontrou-os em seguida, bem mais desenvolvidos e tranquilos. Afagou suas cabecinhas e prosseguiu caminhando em meio à meninada, relembrando um por um. Até que deparou com o gordinho Tonico, um garoto que sempre fora extremamente ligado a ele.
— Oh, mas como está forte o Toniquinho! Estranho… Aqui no Lar todos diziam que ele se parecia muito comigo. Agora que ele cresceu um pouco, a semelhança tornou-se mais notável, não? Perguntou Marcondes ao Espírito que o acompanhava.
— Sim, disse-lhe o Instrutor. E queres saber mais? Tudo o que fizeste para estes pequeninos, a ti mesmo o fizeste, como já sabes. Mas há um detalhe: tudo o que fazias para Tonico era para o teu próprio irmão que o fazias…
— Como assim? Indagou Marcondes.
— É que, enquanto estavas aqui nesta casa, colaborando com a felicidade desses pequeninos, nem sabias que, entre eles, havia um que era realmente o teu irmão. Quero dizer: filho também do mesmo homem que, na terra, foi o teu pai.
— Não me diga? Marcondes ficou surpreso.
— Pois é verdade. Gostavas tanto do Toniquinho e nem sabias que era o teu irmão…
— Espantoso! E como era esse parentesco?
— Ele é filho de uma mulher que, na mocidade, foi empregada doméstica na tua casa e, depois que tudo aconteceu, teu pai achou por bem providenciar outro emprego para ela…
— Então tudo passou despercebido pela família?
— Perfeitamente. No entanto, quando a criança necessitou de amparo por ter perdido a mãe, esta Casa o amparou. E tu estavas aqui, ajudando a estas crianças…
Marcondes estava maravilhado com a notícia, enquanto ouvia, ainda, o seu instrutor, que lhe dizia:
— Recordas que o Evangelho diz que “toda vez que amparamos a um desses infelizes, pode ser que, às vezes, estamos amparando e servindo a um pai, irmão, amigo ou parente qualquer”, não é mesmo? Pois cumpriste bem o teu dever, meu amigo. O teu irmão nunca ficou isento dos elos fraternais da família, graças somente à tua abnegação para com as crianças deste lar coletivo. Estás de consciência tranquila e percebes agora que a caridade só nos traz surpresas e recompensas felizes…
Marcondes chorou de felicidade e emoção.
Em praticar a caridade, só temos a ganhar.
Às vezes, pensando estar ajudando a um simples infeliz, estamos servindo a um parente que não tivemos a oportunidade de conhecer.
A vida nos reserva infindas surpresas. Façamos somente o bem para os outros, a fim de que não sejamos colhidos por surpresas desagradáveis.
Atentemos para os avisos da estrada, porque, se todos nós erramos Jesus, por sua vez, não erra.
A noite foi feita para que possamos dormir. Mas, se não consegues dormir, trabalha e serve.
(Iron Junqueira, escritor)