Artigo: execução de Nimr vai recrudescer o conflito sectário
Redação DM
Publicado em 4 de janeiro de 2016 às 05:06 | Atualizado há 11 anosO festival de cabeças cortadas da Arábia Saudita — 47 no total, incluindo o conhecido clérigo xiita xeque Nimr Baqr al-Nimr, seguido por uma justificação corânica das execuções — foi digno do Estado Islâmico (EI). Talvez esta seja a questão. Este banho de sangue na terra da monarquia muçulmana sunita al-Saud — claramente com a intenção de enfurecer os iranianos e todo o mundo xiita — “ressectarizou” um conflito religioso que o próprio EI tanto promove.
Tudo que ficou faltando foram os vídeos das decapitações. O “sangue chama sangue” de Macbeth certamente se aplica aos sauditas, cuja “guerra ao terror”, parece, agora justificar qualquer quantidade de sangue, tanto sunita quanto xiita. Mas quão frequentemente os anjos apareceram para o ministro do Interior saudita, príncipe Mohamed bin Nayef?
O xeque Nimr não era só um velho clérigo. Ele passou anos como estudioso no Irã e na Síria, era um venerado líder xiita das preces de sexta-feira na Província Oriental saudita, um homem que se manteve afastado de partidos políticos mas exigia eleições livres, que foi regularmente detido e torturado — em suas próprias palavras — por se opor ao governo sunita-wahabista saudita. O xeque Nimr proferia palavras que eram mais poderosas que a violência. A ingênua sugestão das autoridades de que não haveria nada de sectário no seu mais recente banho de sangue — com o argumento de que decapitaram tanto sunitas quanto xiitas — é de uma retórica clássica do EI.
Mas as mortes representam muito mais do que apenas o ódio saudita por um clérigo que se regojizava com a morte no ex-ministro do Interior — o pai de Mohamed bin Nayef, príncipe Nayef Abdul-Aziz al-Saud. A execução de Nimr vai revigorar a rebelião Houthi no Iêmen, que os sauditas invadiram e bombardearam numa tentativa de destruir o poder xiita no país. Ela enfureceu a maioria xiita no Bahrein, governado por sunitas. E os clérigos do Irã já vaticinaram que a decapitação causará a queda da família real saudita.
Ela também presenteia o Ocidente com o mais embaraçoso dos problemas do Oriente Médio: a contínua necessidade de aturar e se submeter às autocráticas monarquias do Golfo (Pérsico) enquanto gentilmente expressam seu desconforto com o massacre grotesco que as cortes sauditas serviram para os inimigos do reino. Tivesse o EI cortado as cabeças de sunitas e xiitas em Raqqa — especialmente a de um clérigo problemático como o xeque Nimr — poderíamos ter certeza de que o premier britânico, David Cameron, expressaria seu nojo diante de um ato repulsivo. Mas o homem que baixou a bandeira britânica na morte do último rei daquele país usará apenas palavras evasivas ao se referir a este episódio.
Embora muitos sunitas da al-Qaeda também tenham perdido suas cabeças para os carrascos sauditas, a questão levantada tanto em Washington quanto nas capitais europeias será: estão os sauditas tentando destruir o acordo nuclear com o Irã ao forçar seus aliados ocidentais a apoiar até mesmo estes mais recentes atos? No mundo obtuso em que eles vivem — no qual o jovial ministro da Defesa que invadiu o Iêmen desgosta intensamente do ministro do Interior —, os sauditas ainda glorificam a coalizão antiterror de 34 nações sunitas com que formam a legião de muçulmanos que se opõe ao terrorismo.
As execuções certamente foram uma forma sem precedentes com a qual os sauditas deram as boas-vindas ao Ano Novo. E fora as implicações políticas, ainda resta a pergunta óbvia a ser feita — no próprio mundo árabe — sobre a Casa de Saud: os governantes do reino enlouqueceram?