Brasil

Governo, políticos e corporativismo profissional “trabalham” juntos

Redação DM

Publicado em 22 de dezembro de 2015 às 00:38 | Atualizado há 11 anos

No hospital filantrópico no qual trabalho não passa um mês sem que um determinado grupo profissional exija contratação de seus filiados (enfermagem, nutrição, farmácia, psicologia, etc). Trazem, para nos pressionar, leis que foram votadas, normas, regulações, documentos, regras operacionais, etc, que, em sua concepção são “oficiais” e obrigatórias. Esta é uma das numerosas causas que vêm asfixiando e matando hospitais Brasil afora. Os hospitais não-estatais não têm como arcar  com estes custos pois estão quebrados. E quebrados por que ? Em primeiro lugar porque a população, sugada pelos impostos, não tem como pagar as altas custas tecnológicas e humanas de um hospital de qualidade (e hoje em dia , época de “direitos, transparência, reivindicações” todos exigem isso). Em segundo lugar, porque o Governo incutiu na cabeça da população que tratamento médico-hospitalar é gratuito, um direito do cidadão e um dever do hospital.  Em terceiro lugar, um dos objetivos dos governos no Brasil é dar empregos para classe média,mesmo quando o mercado não o exige. Esta é uma das maneiras de calar a boca desta classe, tornando-a  governista. Todas corporações profissionais (inclusive a médica, à qual pertenço), fica feliz em ter seu “trenzinho-da-alegria” nos tais “concursos” do governo. Isto cria uma demanda por leis , tipo : um hospital precisa de um profissional X para cada 5 pacientes, um profissional Y para cada 10 pacientes, e assim vai.  Os hospitais do governo, com o dinheiro sugado do povo, podem realizar isto, mas a iniciativa privada não, pois não recebe suficientemente para tanto. O problema é que , quando a lei é criada, ela é criada para todos os hospitais e não só para o governo (inclusive, destes, paradoxalmente, é onde é menos cobrada , pois os governos têm mecanismos jurídicos para anular estas cobranças). Aí , nós, que somos a “pobre sociedade civil”, não temos condições de arcar com despesas que só o rico governo pode arcar, e  é aí que a gente quebra. É por isto que os governos estão tendo de construir mais e mais hospitais, enquanto a maioria dos hospitais médios e pequenos (ou seja, hospitais de pobres e remediados) estão sumindo.

O prejuízo para a população é que o funcionamento de um hospital do governo é totalmente oposto a de um privado. O privado visa atrair o cliente,  conquistá-lo com tecnologia, limpeza, bons tratos. Já o do governo, quer mais é ficar livre do paciente. Dou um exemplo prático: estes dias o marido de uma paciente com depressão nos liga de um hospital público dizendo que quer  retirar sua mulher de lá. Perguntamos se láela não estava recebendo o tratamento para depressão, o que seria absurdo, por tratar-se de um hospital psiquiátrico. Ele nos disse que ela estava, teoricamente, recebendo tratamento para depressão, mas que lá eles não faziam nada para facilitar a vida dela, p.ex., não aceitavam um acompanhante – e ela estava precisando , pois não comia direito, não tomava banho, estava muito fraca, etc. Também não providenciavam tratamento para o tabagismo dela, e sem tratar o tabagismo – que era severo – não tinha como tratar adequadamente a depressão dela. Ou seja, mostra-se assim, e com muitos outros detalhes que não cabem aqui, que o objetivo do serviço estatal não é fidelizar e agradar o cliente, e sim ficar-se logo livre do problema.

Na iniciativa privada, a perspectiva  do lucro, a concorrência e o gosto de trabalhar, de ser eficiente e imprimir seu esforço pessoal, tornam o paciente infinitamente mais valioso. Mas, como vimos, os governo, políticos, corporativismo, estão  matando mais uma atividade econômica no Brasil.

 

(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra)


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