A formosa Diná
Redação DM
Publicado em 15 de dezembro de 2015 às 22:28 | Atualizado há 11 anosDetentora de rara beleza, Diná enriquecera com facilidade, pois os seus encantos físicos abriam-lhe as portas de todos os recursos, mesmo os mais ilícitos. E não foram poucos os lares que a moça destruiu, roubando à responsabilidade muitos esposos que, dominados pelas paixões arrasadoras que ela inspirava, abandonavam a família sem hesitar, relegando ao desconforto as esposas traídas, à fome os filhinhos desprotegidos, quando não os maltratavam violentamente, inflados de mau humor.
Mas Diná os abandonava depois de depená-los. E gargalhava de vaidade quando outras mulheres a procuravam revoltadas e lacrimosas, suplicando-lhe que deixasse seus maridos em paz, pois desde que eles a conheceram, se transformaram radicalmente no lar; se antes eram responsáveis e bons, agora são irresponsáveis e tiranos domésticos.
Moços, desabrochando ainda para a existência, logo que eram seduzidos pelos seus encantos, deixavam a estrada do dever, dos estudos e da retidão; embrenhavam-se em aventuras perigosas tão somente para presenteá-la regiamente; outros, vendo-se traídos por ela, não sabiam controlar o desespero e buscavam o caminho nebuloso do suicídio, experimentando os suplícios inomináveis dos abismos interiores.
Lares desmantelados nas suas estruturas afetivas, filhos na orfandade e na fome, esposas traídas nos seus sentimentos mais santos, moços enganados e sonhos de alegria desfeitos, abortos criminosos representando repetidas fugas à responsabilidade, lágrimas arrancadas das fibras mais íntimas dos corações alheios; tudo isso e muito mais foram a soma dos erros cometidos por Diná, a bela sedutora de vestes finas e transparentes, de olhos claros e brilhantes, de encantos fascinantes, todavia, mal aplicados.
Devo dizer-lhes, porém, que a presença de Diná no palco da vida foi breve. Desencarnou na formosura esfuziante dos anos, envenenada, habilmente, por alguma de suas vítimas. Vivera pouco, é certo, mas o bastante para descer aos abismos intermináveis do sofrimento.
Depois de longos anos na Erraticidade, experimentado provações indescritíveis, acabou por merecer a bênção da reparação e foi convidada a renascer de novo entre os homens; mas agora sem os dotes da beleza física que tanto a prejudicaram, por não ter ela sabido honrá-los segundo os ditames da vigilância, da humildade e dos ensinamentos claros das Leis Divinas. E renasceu em um corpo disforme e estranho, que viveria relegado a um casebre imundo, numa intensa miséria e, para não mais reincidir nas mesmas faltas, seria quase um monstro, dotado de fealdade repelente, e não teria sexo nenhum.
(Iron Junqueira, escritor)