Como explicar a crise do capitalismo atual
Redação DM
Publicado em 15 de dezembro de 2015 às 00:12 | Atualizado há 11 anosA teoria das crises baseada na lei tendencial da queda da taxa de lucro tem em Ney Gonçalves, autor do futuro livro Lei da tendência da queda da taxa de lucro e crise do capital, um dos seus defensores mais notáveis. A particularidade dessa teoria é que a causa da crise é buscada não na esfera da realização, mas no interior da própria produção. A crise é considerada como uma reação violenta posta automaticamente em movimento pelo próprio sistema como meio tendente a superar as dificuldades no processo da acumulação. A acumulação do capital leva à queda tendencial da taxa de lucro, que se não for contida desemboca na crise. Uma queda da taxa de lucro abaixo do normal dificulta ou impede a acumulação e provoca uma reação em forma de crise; a crise se transforma em depressão; a depressão aumenta a fileira do exército de reserva e, depreciando os valores de capital, recria as condições favoráveis do processo da acumulação. A repetição dos sucessivos escalões do mesmo ciclo econômico será nada mais do que uma questão de tempo.
Se a causa da crise é uma insuficiente valorização do capital motivada pela queda da taxa de lucro abaixo do normal, segue-se logicamente que a crise só pode se superada com o restabelecimento da valorização. Ney Gonçalves chama a atenção para uma particularidade importante quando afirma que a retomada da valorização não se produz espontaneamente, com o simples correr do tempo e que a mesma pressupõe uma “reorganização estrutural da economia”. No mecanismo da produção capitalista, atuam forças vivas: por um lado, a burguesia e, por outro, a classe trabalhadora. A burguesia tem seu interesse diretamente voltado para a preservação da ordem econômica capitalista e trata por todos os meios de encontrar uma saída para a crise, que não pode ser outra que o restabelecimento da rentabilidade, a base da valorização.
Segundo Ney Gonçalves, a crise é “uma tendência para a derrocada que é interrompida e não alcançou seu completo desenvolvimento”. De qualquer modo, o processo de acumulação não é continuo, mas desenvolve-se em ciclos periódicos, “num incessante movimento de ascensões e descensos”, de tal sorte que “a tendência do desenvolvimento histórico procede no sentido de aguçar cada fez mais as contradições dentro do capitalismo mundial”. Isso significa que o sistema capitalista deverá aproximar-se assintoticamente de uma situação limite, mas a derrocada, a “crise mortal”, somente será aquela que vier a ser decretada pela intervenção revolucionária vitoriosa do proletariado antes que a burguesia possa encontrar uma nova saída para a crise nos marcos do sistema.
Ney Gonçalves, ao contrário dos partidários da teoria subconsumista que tentam explicar as crises a partir do mercado, procura fazê-lo voltando-se para a dialética entre as forças produtivas e as relações de produção em busca de uma caracterização da tendência geral do desenvolvimento do modo de produção capitalista. Do ponto de vista da concepção materialista da historia, a totalidade do desenvolvimento social está condicionada pelo desenvolvimento econômico. Não é a consciência dos homens que produz as transformações da sociedade, mas as contradições da vida material, entre as forças produtivas e as relações sociais. A necessidade da derrocada do sistema capitalista e a inevitabilidade da passagem ao socialismo somente podem ser sustentada cientificamente na medida em que se prove a impossibilidade do capitalismo como sistema econômico continuar sobrevivendo alcançando uma determinada fase. Então, é que o socialismo deixa o reino da utopia para ingressar no domínio da ciência.
Ney Gonçalves sustenta a tese de que à crise e à derrocada do capitalismo somente pode ser explicada com base na teoria marxiana do valor; argumentando que a lei do valor domina todo o processo econômico capitalista, ele conclui que, assim como a dinâmica e as tendências evolutivas daquele processo somente podem ser entendidas com base na lei do valor, também o fim inevitável do capitalismo deve ser explicado a partir da mesma lei. Ney Gonçalves liga a teoria das crises à lei do valor por meio da lei da acumulação: a teoria marxiana da derrocada, diz Ney Gonçalves “constitui um pressuposto necessário para a compreensão da teoria marxiana das crises, com a qual se acha estreitamente entrelaçada. A solução de ambos os problemas é dada pela lei marxiana da acumulação, que resume a ideia central de O Capital de Marx, ao mesmo tempo em que se fundamenta na lei do valor”. A teoria marxiana da crise segue as dificuldades da valorização do capital que resultam da tendência intrínseca do processo da acumulação à queda da taxa de lucro.
Ney Gonçalves, ao analisar as contradições do modo de produção capitalista, conclui que, no processo da acumulação, deverá haver um ponto de inflexão a partir do qual tornar-se-á efetiva a tendência, até então latente, à derrocada. Procuremos, pois, acompanhar a linha de seu raciocínio. Quanto mais avança o capitalismo – e, portanto, quanto mais se eleva a composição orgânica do capital –, tanto mais aumenta a parte do capital que deve ser investida em meios de produção (capital constante) e tanto menos, com relação aquela, torna-se a parte do capital que deve ser investida em salários (capital variável). Ora, não sendo a mais-valia outra coisa que o trabalho excedente não pago aos trabalhadores, simultaneamente com o crescimento do capital, deve decrescer a mais-valia – assim como o lucro – em comparação com o capital total investido. Na medida em que é investido um capital total em crescimento, a queda da taxa de lucro é equilibrada, durante certo tempo, pelo aumento da massa de lucro. Todavia, para um nível de acumulação determinado a queda da taxa deverá ser acompanhada de uma redução da massa de lucro. Enquanto se tem uma baixa composição orgânica do capital, a mais-valia é comparativamente grande e ela pode assegurar um rápido incremento relativo da acumulação. Por exemplo, para uma composição de 200 c+ 100 v, suposto uma taxa de mais-valia de 100%, resultara uma massa de mais-valia de 100 m, que deverá ser distribuída em três partes: o capital constante adicional, o capital variável adicional e o consumo dos capitalistas; se, para maior simplificação, considerarmos que a massa da mais-valia obtida seja totalmente investido em capital adicional, então a acumulação será de 33,3% sobre o capital básico. Já a um nível mais alto de acumulação, a massa de mais-valia se tronará proporcionalmente menor; por exemplo, para uma composição de 15 000 c + 150 v, admitidos os mesmos pressupostos anteriores, a massa da mais-valia totalmente acrescentada ao capital inicial representaria uma acumulação de apenas 1%. Então, no processo de acumulação continuada, deve chegar a um nível em que, aparentemente, cessa a acumulação.
De fato, a tendência à acumulação faz com que o capitalismo tenha como limite a impossibilidade de prosseguir a valorização do capital. À medida que avança o capitalismo, tanto mais cresce a parte do capital que deve ser desembolsado na compra de meios de produção e de matérias-primas e tanto mais decresce, em relação aquela, a parte do capital que deve ser investida em salários. Mas, não sendo a mais-valia senão trabalho excedente não-pago aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que cresce o capital, a massa da mais-valia e massa de lucro devem decrescer com relação ao capital total, embora isso possa ser contrabalançado em parte intensificação do grau de exploração dos trabalhadores. Entretanto, para certo nível de acumulação, a queda da taxa de lucro é por seu turno acompanhada de um decréscimo da massa de lucro. Então, a um capital total maior corresponderá um lucro menor em termos absolutos. E, por via de consequência, haverá super acumulação de capital e aumento de desemprego; excesso de capital tornado inútil, com excesso de população sem emprego. Esta seria, segundo Ney Gonçalves, a ultima grande contradição da produção capitalista e pela qual o sistema deve ir à derrocada. A tendência à derrocada se reflete nas crises, e é por estas elementar e violentamente superada. Cada crise é expressão não integralmente desenrolada da tendência do sistema capitalista à derrocada, tendência amortecida pelos fatores que a elas podem ser contraposto, tendência amortecida pelos fatores que a elas podem ser contrapostos, mas que, por seu turno, vão se debilitando no curso do próprio desenvolvimento do modo de produção capitalista.
(Mario Cogoy, professor do Department of Economics – University of Trieste – Piazzale Europa – email: [email protected] / Tradução: Dr. J. C. Avelino da Silva, professor PUC-GO)