Brasil

Por que defender Dilma?

Redação DM

Publicado em 14 de dezembro de 2015 às 23:46 | Atualizado há 11 anos

O legado da presidente é desastroso, mas há males que vêm para o bem. O motivo por paradoxal que seja, tem uma razão: as oligarquias brasileiras jamais foram intimidadas nesse País. A presidente sempre teve nas mãos o poder de impedir a Operação Lava Jato, mas não quis fazê-lo, deixou o pau quebrar. Honesta – virtude que até agora ninguém conseguiu negar-lhe, ela deixou correr frouxa a investigação e a retaliação dessas oligarquias veio na forma de, até agora, uma tentativa de impeachment.

Jamais no Brasil pós-88 um presidente desafiou a máfia instalada no país – não se pode dar a Dilma os creditos da faxina, mas ninguém poderá negar-lhe a alcunha de faxineira do planalto – coisa que ela iniciou no seu primeiro mandato quando ainda fruía os bons ares da aprovação popular, bastou a crise entrar pela janela que a rainha virou puta.

O poder é singular, ele possui vida própria e não possui dono; é cego e surdo-mudo; não possui raciocínio, apenas força, e força bruta. O poder é o alter ego de uma nação. Por isso todos mandam e todos, ao mesmo tempo o obedecem de acordo com seu movimento, isso até que surge uma chance de destronar quem o possui, numa tentativa esquizofrênica de assumi-lo. O poder é uma convergência instintiva, e é assim que funciona a política em qualquer parte do mundo. Portanto se o vice quer derrubar a presidente isso é do jogo, afinal todos correm em busca do melhor prêmio que é ele, o poder.

Perder Dilma agora é perdera chance de passar a limpo nossa história política e reendereçar o País. Quem poderá dizer-nos que o próximo presidente não mudara o curso das investigações do juiz Sergio Moro? Ora, o mundo político está em polvorosa, não se sabe onde isso vai dar. Há um senador na cadeia; donos de empreiteiras que chupavam até o tutano do osso nacional estão encarcerados. Por medo, o ineditismo dos fatos pede sua persecução por aqueles o praticam. Os políticos desonestos querem desarmar a bomba instalada no covil das raposas.

O discurso nacional é outro, ou deveria ser outro: a quebra do paradigma das oligarquias dominantes, que tem em Paulo Maluf, sua mais alta tipificação. Há no Brasil o embate de duas forças na arena de nossa história política e a chance é agora, ou fazemos agora ou nunca.

Acusaram a presidente de pedalar com o dinheiro dos bancos estatais para pagar as contas assumidas no compromisso social que ela fez com os “pobres eleitores” que votaram nela e a reelegeram, mas vale lembrar que esse dinheiro não está numa conta de um banco na Suíça, na verdade ele foi parar na barriga da pobreza eleitoral e dos eleitores do PT e de muita gente enganada. As desonerações fiscais dos produtos de base da economia e o congelamento dos combustíveis subsidiados, deram a presidente o alento necessário para que ela respirasse eleitoralmente, com isso ela conseguiu se reeleger, mas de forma desonesta, diga-se.

Outra pergunta: qual presidente eleito no Brasil não faria isso se estivesse concorrendo à reeleição dentro desse processo político/eleitoral em que vivemos, afinal o instituto da reeleição é quem oportuniza esse tipo de coisa. É aquela historia: a ocasião faz o ladrão.

Crise econômica: ora, qualquer presidente no lugar de Dilma passaria por esses percalços econômicos. O mundo está em crise de consumo, não há quem queira comprar nossas batatas, que são muito caras, além do mais o mundo está cheio de batatas. O atraso tecnológico brasileiro é a principal causa de nosso achatamento industrial e a culpa é genérica, é de todos que por ali passaram não só de Lula e Dilma. O ônus fiscal sobre o brasileiro é culpa do congresso que não vota nunca uma reforma tributária, assim como também não mexem na lei eleitoral que os perpetuam – o corporativismo do Executivo e do Legislativo é a raiz de nossos males.

Emergente do submundo da política brasileira, a presidente pegou em armas contra a ditadura e talvez inconsciente, ela lutasse contra essas mesmas oligarquias que reinam desde quando o país fora descoberto. Esse tipo de domínio está em todo mundo – o das oligarquias – o Brasil não é exceção. Pelo poder se faz qualquer coisa, tanto aqui como nos países em que a civilização já chegou há algum tempo. O que está em jogo são as instituições que devem prender, tanto ladrão de galinha como senador ou dono de empreiteira.

 

(Waldemar Rêgo, jornalista, escritor e artista plástico – [email protected])

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