“É tudo junto?”
Redação DM
Publicado em 12 de dezembro de 2015 às 23:23 | Atualizado há 11 anosMuitas vezes fico conversando com as estrelas. Não é uma reza, nem oração, é uma conversa sem palavras. Num artigo recente aventurei-me à descrever como a nossa “mente” – comentando, também, que a palavra “mente” é uma palavra propícia para caracterizar o “organismo mental” do ser humano atual, hodierno. “Pois é, pois é”, uma pesquisa constatou que as pessoas mentem mais de setenta por cento do tempo, poderíamos simplificar assim: a cada dez “coisas” contadas três são verdades e sete são mentiras, ou seja, “estórias pra boi dormir, – então, naquela aventura literária mencionei que o psicanalista Sigmund Freud demonstrou que a “mente” subdivide-se em três partes: Id, Ego e Superego e que, nascendo Id, quer dizer, feito um animalzinho, mijando e cagando em qualquer lugar, completamente dependente dos pais ou de outros “animais racionais” para sobreviver, vai aprendendo a viver e formando, com o tempo, o Ego, ou o “eu social”, aprendendo a falar, comer, cagar, vestir-se, brincar, trabalhar, enfim. O Super-Ego seria a nossa “consciência”, aquela vozinha que fala pra gente, quando estamos, digamos, “retrospectivos” ou fazendo uma traquinagem, uma bobagem, para simplificar: quando “pecamos”, bem, este processo de conversar sem utilizar palavras, constatamos facilmente quando tentamos pensar no que estamos pensando. Quando pensamos, portanto, não pensamos com “palavras”, utilizarmo-nos de “signos”, ou seja: sinais. Estes sinais concretizam, formam conjuntos, de centenas, milhares de palavras. Quando olhamos para uma parede não ficamos pensando com palavras: eu estou vendo um quadro com uma paisagem que contêm verdes, amarelos, azuis e a parede é azul clara, há uma televisão no canto esquerdo, uma mesa no centro, enfim, nada disso! Com um rápido olhar aprecio e vejo todos os objetos, suas cores, formas, disposição, características, alguns até me reportam, num insignificante espaço de tempo, até à reminiscências, como aquele ferro de passar de brasas utilizado pela bisa, hoje pintado de preto e vermelho e receptáculo de inúmeras flores, imponente entre os souvenires na prateleira.. Merleau– Ponty, (1908-61), que era muito amigo de Jean Paul Sartre, (1905-80), escrutina muito bem essa fenomenologia do existir, entretanto, eu fico maravilhado, mesmo, é com o único pensador brasileiro a constituir um, digamos, “pensamento filosófico”, ou, seja, uma “Visão Existenciadora”, que é o arquiteto pernambucano Evaldo Coutinho (1911-2007). Maravilhado, mas, ao mesmo tempo, enojado com a mediocridade da intelectualidade brasileira que, certamente, não é apta degustar a ardorosa e deleitosa “visão” do grande filósofo Evaldo Coutinho. Bem, para não fugir à regra vou contar uma piadinha torcendo para que o misericordioso leitor não tenha escutado ainda. Tem tudo a ver com a mediocridade reinante. Um senhor de mais de cem anos estava sendo velado por inúmeras pessoas de idade avançada, que eram seus filhos e netos quando chega um tatatatataraneto com blusa colorida, bermuda, chinelo, boné e óculos escuros. Senta-se e diz para uma senhora ao lado, de oitenta anos, filha do falecido: A senhora sabe o código do hi-fi daqui do funeral? Ela responde: Respeite os mortos rapaz! Ele pergunta, novamente: É tudo junto? Só rindo para não chorar. Até.
(Henrique Gonçalves Dias, jornalista)