Política

“Olga Benario não teve participação no levante”

Redação DM

Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 23:14 | Atualizado há 11 anos

  • Marly Vianna contesta Paulo Sérgio Pinheiro e não vê “delírio à esquerda”
  • Historiadora afirma que trata-se da última insurreição tenentista no País
  • Pesquisadora diz que putsch não foi comunista, mas de uma frente democrática, a ANL
  • Escritora descarta participação da IIIª Internacional nas ordens da insurreição

 

A insurreição de novembro de 1935, no Brasil, que completou 80 anos, teve reduzida influência da Terceira Internacional Comunista, liderada por Josep Stálin. Trocando em miúdos: tratou-se de uma frente democrática, mais ampla do que os comunistas, do PCB, Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922 e que ingressou no Komintern em 1924. Liderado pelo ‘Cavaleiro da Esperança’ Luís Carlos Prestes, tornou-se o último movimento tenentista no País. Na chamada ‘Intentona’, de forma conservadora, a alemã judia Olga Benario não participou ativamente. É o que revela em entrevista exclusiva ao Diário da Manhã a historiadora Marly Vianna [RJ]. Segundo ela, Filinto Müller, chefe da polícia política de Getúlio Vargas, teria sido expulso da coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes por desertar e roubar cem contos de réis. O troco veio a galope, com a extradição de Olga Benario para a Alemanha do nazista Adolf Hitler. Marly Vianna é referência em dois novos livros que a Editora Revan coloca no mercado editorial em dezembro de 2015: ‘A Insurreição da ANL em 1935’, com prefácio de sua autoria, e em ‘Luta e Memória’, que ganhou resenha de Elio Gaspari.

 

Confira a íntegra da entrevista

Diário da Manhã – 1935-2015: qual o seu olhar sobre a insurreição comunista?

Marly Vianna – Primeiramente, não foi uma insurreição comunista, mas uma insurreição da grande frente democrática que se criou, a Aliança Nacional Libertadora [ANL]. Considero que o movimento do Rio de Janeiro foi a última insurreição tenentista no Brasil.

 

DM – O que há de revelação em ‘A insurreição da ANL de 1935’, Editora Revan?

Marly Vianna – O livro editado pela Revan – em muito boa hora – contém o Relatório Belens Porto, que foi o encarregado de relatar os processos sobre os participantes da rebelião aqui no Rio de Janeiro. Faço apenas uma apresentação do relatório. Documentação imprescindível para nossa história política. Sobre a Aliança Nacional Libertadora e as insurreições de novembro é um resumo do que tenho escrito sobre o tema.

 

DM – Qual o papel de Luís Carlos Prestes na operação?

Marly Vianna – O papel de Prestes foi decisivo no desencadeamento da rebelião no Rio de Janeiro – apenas aqui e no sentido de dar a ordem para os levantes em várias unidades militares – que só o 3º RI e a Escola de Aviação Militar acataram. Deu a ordem, que foi seguida com entusiasmo pelos militares aliancistas (90% ou mais) e comunistas (poucos).

 

DM – Como atuou Olga Benario?

Marly Vianna – Olga não teve qualquer participação política nos levantes. Veio ao Brasil como segurança de Prestes e jamais participou de atividades políticas aqui no Brasil. Sua prisão e deportação foi um crime de vingança pessoal de Filinto Strubing Müller contra Prestes.

 

DM – Paulo Sérgio Pinheiro fala em estratégias da ilusão e delírios à esquerda: a abordagem é correta?

Marly Vianna – Meu livro chama-se Revolucionários de 1935, sonho e realidade. É isso que acho. O sonho dos que queriam mudar o mundo e uma tática – a rebelião armada – que não correspondia à realidade. Ilusão houve muita. Se ele falou em “delírios da esquerda” não concordo, parece pejorativo e injusto para com os revolucionários.

 

DM – O papel do Komintern se sobrepôs ao do PCB na insurreição?

Marly Vianna – O papel do Komintern foi nenhum. Como digo no meu livro, uma “expectativa conivente”. A Internacional Comunista jamais deu ordens para o levante. Todas as mentiras sobre isso diziam-se – e ainda se dizem – baseadas na Conferência dos Partidos Comunistas Sul-americanos em Moscou, no final de 1934. Inventou-se que a IC dera ordens para que se fizesse uma experiência de frente popular no Chile e de luta armada no Brasil. Hoje, abertos os arquivos da IC, tem-se acesso às discussões da conferência – eu as tenho – e em nenhum momento falou-se em insurreição aqui. Ao contrário, diziam aos comunistas brasileiros que não se precipitasse porque ainda eram fracos, em especial no campo. Nem o PCB sabia do levante em Natal e no Recife, pelos quais foi surpreendido, muito menos a IC. Depois dos levantes em Natal e em Recife – sem conhecimento da direção do PCB – e quando Prestes resolveu assumir o desencadeamento da revolta no Rio, em solidariedade aos “companheiros do Nordeste” (palavras dele) avisou a IC, que não sabia de nada, no dia 26 de novembro. O levante ocorreria na madrugada de 27. E a IC respondeu:

– Vocês é que devem decidir.

 

DM – Qual o saldo de presos e mortos na insurreição de 1935?

Marly Vianna – Pelos revolucionários, mínimo. No levante de Natal morreu uma pessoa. No Recife, as mortes foram por conta da reação ao levante. No 3º RI morreram duas pessoas: um revoltoso e um legalista. Os outros morreram pelo bombardeio do governo sobre o quartel que foi arrasado. Na EAM houveram mortos dos dois lados, em combate – não muitos. A grande matança – em especial no Recife, ficou por conta da reação. Muitos presos – uns por dez anos. Alguns ficaram anos presos sem culpa formada. O pior foram as torturas. Arthur Ewert (Harry Berger) enlouqueceu por elas. Sua mulher, Elize, também barbaramente torturada, foi entregue à Gestapo com Olga Benario – esta, como se sabe, grávida de sete meses.

 

DM – A insurreição da ANL de 1935 foi um erro tático ou estratégico?

Marly Vianna – Tático, como ficou evidente, por uma estratégia nacional-libertadora que não era tão errada em 1935. Pediam melhoria de vida para o povo, a Reforma Agrária, e liberdades democráticas, o que na época significava explicitamente a luta contra o nazifascismo e internamente contra os integralistas. Pão, Terra e Liberdade era o lema. Atual, não?

 

DM – Daniel Aarão Reis vê uma base social e militar superestimada que anunciaram a Luís Carlos Prestes. A senhora concorda?

Marly Vianna – Concordo sim, e com o espírito ainda bastante tenentista de Prestes – o que mais tarde ele mesmo admitiu.

 

DM – Filinto Muller foi expulso da Coluna Miguel Costa – Luís Carlos Prestes na década de 1920?

Marly Vianna – Foi expulso por desertar e roubar cem contos de réis da Coluna.

 

DM – Luís Carlos Prestes acumulou três derrotas históricas: a de 1935, a de 1964, além da de 1981, no PCB. Como era visto por Moscou?

Marly Vianna – Como era visto por Moscou não tenho a menor ideia. Sobre as derrotas, não foram de Prestes, mas da sociedade brasileira. Em 1935 lutava por um governo popular, nacionalista e democrático, foi derrotado e venceu a ditadura do Estado Novo – Quem perdeu?  Em 1964, derrotadas as propostas de um governo nacional e democrático, feitas as reformas essenciais – agrária, política, bancária, universitárias. Venceu a ditadura militar. – Quem, perdeu? Em 1981 Prestes lutou por seus ideais socialistas e comunistas. Venceu o PPS – Quem perdeu? Não foram derrotas de Prestes, foram derrotas históricas de nossa sociedade, que até hoje sofre por elas. Ser derrotado não significa não ter razão.

 

DM – Lestes a biografia de Prestes lançada em outubro por Anita Prestes?

Marly Vianna – Partes.

 

DM – Qual a sua análise sobre Luís Carlos Prestes – Um revolucionário entre dois mundos, de Daniel Aarão Reis, prêmio Jabuti 2015?

Marly Vianna – Gostei muito.

“Filinto Müller foi expulso da coluna Miguel Costa-Prestes por desertar e roubar cem contos de réis”

Marly Vianna,Historiadora

PERFIL

Nome completo – Marly de Almeida Gomes Vianna

Idade: 78 anos.

Formação: Graduada em História (IFICS), Mestre em Economia Rural (UF Campina Grande)e Doutora em História Social USP.

Instituição onde leciona: Sou aposentada da UF de São Carlos e leciono no Mestrado em História do Brasil da Universidade Salgado de Oliveita – Universo.

Livros publicados: Revolucionários de 1935, sonho e realidade. 1ª Ed. São Paulo, Companhia das Letras, 1992. 2ª e 3ª edições São Paulo, Expressão Popular, 2007 e 2011; Política e rebelião nos anos 30 – São Paulo, Moderna 1995 (três edições). Pão, Terra e Liberdade (organizadora – são documentos). Rio de Janeiro:Arquivo Nacional/São Carlos:Ed. da UFSCar.  A estrutura de distribuição de terras no Município de Campina Grande – economia e sociedade. Campina Grande, Ed. da UFCGr, 2014.  Muitos capítulos de livros e artigos (se você quiser detalhes entra no meu Lattes)

Projeto de novo livro: Estou organizando, com mais três colegas,(Paulo Cunha, Leandro Gonçalves e Jefferson Barbosa) uma coletânia: Militares e Política.

 

 

 


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