Brasil

Lembranças dos tempos de escola – Parte XXIX

Redação DM

Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 22:41 | Atualizado há 11 anos

Certo dia, em horário de aula de Psicologia, da professora, Marinês, que também nos ensinava Biologia, temida por todos, aconteceu um fato um tanto misterioso quanto engraçado: fomos postos em duplas para discutir um exercício. Uma garota chamada Déia, prima de Maick, ficou sendo a minha parceira. Eu ainda não a conhecia direito, mas sabia que ela não me odiava. Então, depois de resolver as primeiras questões do exercício, começamos a conversar sobre um programa humorístico televisivo que passara num dia anterior àquele. Quando eu a perguntei sobre uma determinada cena engraçada, em vez de ela me responder que estava lembrada ou que a viu, optou por imitar o ator, gesticulando.

Aquele sonoro: Fom! Fom! E o gesto com as duas mãos abrindo e fechando, como quem quisesse apalpar os seios de alguém, se tornou tão engraçado, mas tão engraçado que cheguei ao ponto de dizê-la, que ela se saiu bem mais engraçada do que o próprio ator. Começamos a rir, um de frente para o outro, inicialmente, riamos baixinhos, a fim de não ganharmos uma bronca da professora, depois não conseguimos mais nos segurar, riamos exprimidos, até que nossos risos viraram gargalhadas… Nossos colegas olhavam para nós e não entediam nada, estranhava nosso comportamento, até porque eu nem a conhecia direito, tampouco, ela me conhecia e nós já estávamos assim naquela euforia. A professora, de cara fechada, pedia silêncio aos outros alunos que ficaram imóveis, Déia e eu ríamos cada vez mais alto. De repente escutamos um estrondo, era toda a sala que ria de nós, eles estavam prendendo e chegou uma hora que ninguém se conteve. A professora não parava de pedir silêncio e, agora em tom de ordem. Ninguém conseguia parar de rir, ninguém conseguia fazer silêncio, todos esqueceram a oração dos sábios.

Déia, quase sem conseguir pronunciar, se levantou com a face avermelhada e molhada com lágrimas de alegrias, pegou uma toalhinha que sempre levava para a escola, sem conseguir olhar para mim, pediu licença à professora e, após lhe ser concedida se retirou da sala, às gargalhadas. Assim como os outros alunos e eu, ela sorria tanto que de dentro da sala ouvíamos suas gargalhadas lá fora. A professora não se continha com sua moral em baixa. Olhou para mim e disse que devíamos ter momento para tudo, hora de estudar era para estudar, hora de rir era para rir. Mesmo assim, nem eu e nem os outros conseguimos nos controlar e continuamos rindo mais e mais como quem estivesse sentindo cócegas, permanentemente.

Lógico que aquilo era um desrespeito para com a professora, mas não era culpa nossa, estávamos numa crise de risos e por mais que tentávamos conter nossas risadas, o momento parecia ficar mais engraçado. Para tentar conter a algazarra dos meus colegas, provocadas por Déia e eu, a fim de não metê-los numa confusão e nem prejudicá-los, visto que a professora era muito rígida, optei por sair da sala. Tentei comunicá-la, mas o pedido de licença foi interrompido por uma gigantesca gargalhada. Era como se algo invisível tivesse suavizando certas partes sensíveis do meu corpo. Juntei-me a Déia, do outro lado do pátio da escola, próxima à cantina. Depois de duas aulas seguidas daquela professora, nossos colegas partiram em disparada em nossa direção, mortos de curiosidade para saber do que ríamos. Déia não contou nada, primeiro porque quando pensava em contar, se via às gargalhadas e segundo porque ela não queria mesmo contar. Ficou na ponta da minha língua contar para eles porque ríamos tanto, mas já que Déia não quis lhes contar eu também não os contei e mesmo se contasse, não teria a mesma graça. Dias depois começamos a contar para eles o motivo dos risos. Mesmo assim, toda vez que Déia olhava para mim ou que eu a olhava ainda ríamos muito com a mesma graça.

O bom daquilo tudo foi que daquele dia em diante minha relação com aqueles que me odiavam melhorou e seu ódio por mim chegou ao fim, ao ponto de nos tornamos grandes amigos. Exceto Erimar que, continuava a me odiar. Notando aquilo eu lhe perguntei sobre o motivo de tanto ódio para comigo, para com a minha pessoa e a resposta veio rápido como uma flecha venenosa em meu coração. Com toda a sua sinceridade ela me disse que olhava para mim e via um pacóvio, bobo, boboca, tolo, tonto, intrometido, enxerido, esdrúxulo, patricinho, exibicionista e mais um monte de palavras feias que eu não consegui decorá-las. Devido aquilo, eu lhe perguntei como ela poderia ter aquela ótica de mim, sendo que ela nem me conhecia direito, nem conversava comigo, tampouco eu a maltratei. E em seguida lhe perguntei como ela ousava fazer tais comentários, tais julgamentos, tirar tais conclusões apenas pela aparência. Ela me respondeu que a forma dela vê os outros era um direito dela e, todo o tempo, devia ser respeitado.

Concordei com ela, mas lhe acrescentei que o jeito de ser de cada indivíduo, diz respeito apenas e tão somente a ele mesmo, desde que esse, não prejudique ninguém, mas que somente para prová-la que suas visões e teorias sobre mim eram equivocadas e que todo e qualquer indivíduo independentemente de seus atos tem o seu valor, eu iria dar tempo ao tempo. Após a nossa conversa, saímos cada um para um lado. Ela foi se divertir com seu ego vibrando de felicidade. Eu, cabisbaixo, humilhado e abatido voltei, às pressas, para casa para refletir sobre o que ela me falou. Roney, Érick, Maick e Edu estranharam meu comportamento, mas nada me perguntou, tampouco, insistiram para que eu saísse com eles naquele dia. Eles foram para as ruas e eu fiquei em casa me perguntando se realmente eu era tudo aquilo que Erimar me falou. As interrogações bailaram no ar, em vão, noite afora, pois não havia respostas.

No outro dia, Maick foi à minha casa e me perguntou se estava acontecendo alguma coisa comigo. Eu lhe perguntei se ele me achava estranho e Maick me respondeu que sim, que me achava naturalmente estranho. De início, cheguei a pensar que ele estivesse pensando que eu estivesse brincando e lhe avisei que não era brincadeira, mas sim, falando sério. Ele me respondeu que também estava falando sério e que eu era estranho, mas que todo mundo era estranho. Consolei-me mais!

Depois daquela conversa, fomos passear pelas ruas da cidade e, embora, o que Erimar falou não saísse da minha cabeça, as nossas diversões continuaram.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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