Sábio Tim
Redação DM
Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 22:40 | Atualizado há 11 anosTim Maia tinha razão: o Brasil é único país do mundo em que pobre é de direita. Aqui, a classe média vai às ruas, com o habitual linguajar chulo, tentar derrubar a presidente, que foi eleita democraticamente, no ano passado. Já cheguei a pensar que sou ranzinza de demais. E aos 19 anos. Mas não. Bate-se panela. E grita-se. E levanta-se a bandeira do golpismo. Essas são as mesmas pessoas que não toleram ver negros na universidade, nos aeroporto, ocupando postos que antes eram dedicados à elite. Indignados, estas vão à sacada de seus apartamentos, no Setor Marista e Bueno, de um milhão, bater panela. É inevitável não se lembrar de uma frase de Bertold Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político”. Simplesmente tudo o quê foi construído passou pelas mãos do povão. O fotógrafo Lewis Haine clicou as condições precárias e suicidas a que eram submetidos os operários na construção do Empire Strate, em Nova Iorque – à época o maior arranha-céu do mundo. Quantos morrem? Incontáveis. Múltiplos. Milhares. Isso é o capitalismo. Enquanto uns ganham. Outros contam as moedas.
Outro dia, abri o site da Folha e li sobre o pedido de impeachment de Dilma. Fiquei estarrecido. Você, que se senta em seu carro do ano, com adesivos de “Fora Dilma”, deve estar feliz. Você quer mesmo que o povo fique sem acesso a educação. Assim tudo é mais fácil. Pensar incomoda. Mas o quê incomoda são os jovens clamando pela volta da Ditadura Militar e idolatrando Jair Bolsonaro. O deputado do PP do Rio de Janeiro virou o príncipe e o mentor das aberrações que se ouve todos os dias, no trabalho, no ponto de ônibus, nas escolas, nas universidades. Em qualquer roda de discussão, é a mesma ladainha. “Dilma é uma vaca. Tem de sair. Meu sonho é ver o Lula preso”, bradam, para todos ouvir, o velho discurso dos barões da mídia. Será que isso é jeito de se referir ao presidente do país? Verdadeiros dementes. Pouco senso-crítico. Nenhuma leitura. Mulheres saradas, que ganharam a alcunha barata de “musa das manifestações”. De quê adianta ter um corpo em ordem, e um cérebro minúsculo? De quê adianta se vangloriar por ter lido sei lá quantos livros? O conhecimento tem de ser acessível a todos, e não para uma parcela que nasceu em berço de ouro.
Fernando Sabino, em A última crônica, descreveu a simplicidade de uma família que comemorava o aniversário da filha num botequim carioca. Sabino disse que o pai contou as moedas para comprar uma Coca-Cola e um pedaço de bolo para a filha. Ela saboreou o simples pedaço, com deleite. No final da crônica, o escritor revela que ao passar por ele, o pai estufou o peito e seguiu em frente. Uma verdadeira preciosidade de nossa literatura. Pior: ainda vemos gente assim. Ainda observamos gente com vergonha de entrar num bar e beber uma cerveja. Seja por causa da vestimenta. Seja por causa da linguagem. O povão é excluído todos os dias, toda a hora, em todo o lugar. As medidas propiciadas pelo governo de Lula e Dilma foram apaziguadores, mas elas não podem vigorar eternamente. É precioso uma política educacional. É preciso caminhar para frente. É preciso olhar para o futuro com compaixão ao próximo. E definitivamente, impeachment não é a solução.
Lembro-me de ler uma reportagem em Carta Capital que relatava o comércio do impeachment. Fiquei refletindo por uns minutos, e imaginei um pequeno diálogo:
– Em que ramo você trabalha?
– No ramo do impeachment.
– Sério? É dá grana?
– Dá, até.
Pois é.
Tim Maia tinha razão: “O Brasil é o único país em prostituta se apaixona, traficante é viciado e pobre é de direita”.
Sábio Tim.
(Marcus Vinícius Beck, escritor e corintiano)