A “nossa” cidade dividida
Redação DM
Publicado em 7 de dezembro de 2015 às 22:26 | Atualizado há 11 anosUma rua ou passagem que não flui; uma praça que “morre” nos finais-de-semana ou feriados; uma calçada que não é utilizada; uma área não-habitada; uma casa abandonada ou plenamente desabitada; vias inteiras sem uma única árvore; um portão imenso, guaritas, câmeras e cachorros guardando casas dos ricos; no outro lado da cidade, um sem-número de casas populares feitas em série para uma gente que nasce em série.
Este é o modelo típico de cidade imperante no Brasil. Esta é a forma ou divisão clássica das cidades brasileiras e, finalmente, empresas apartadas em grandes áreas que determinam os fluxos humanos, o trânsito, sua qualidade e as próprias interações sociais e urbanas.
A velha divisão internacional do trabalho, arranjo teórico do economista inglês David Ricardo (1772-1823) ainda no século XVIII não só não está superada como é categoria de análise sumamente importante para compreendermos a economia contemporânea e principalmente, o lugar das cidades nas atuais formas de produção.
Em seu tempo, Ricardo defendeu, linhas gerais que a produção da indústria deveria ficar por conta da Europa, sobretudo, da Inglaterra. Aos outros países, tardios em seus respectivos processos de industrialização, caberia a produção agrícola, neste tempo, praticamente artesanal onde a respectiva venda desses excedentes se daria com as nascentes potencias industriais europeias.
A revolução industrial continua e estamos em seu quarto ou quinto ciclo de atualização. Para a contemporaneidade onde o discurso do “conhecimento”, do “info-conhecimento” e da automação surgem com força e convencimento a produção industrial ainda é bastante importante e a geração e apropriação de riquezas se dá, como dantes, pela expropriação do trabalho alheio e pela geração de mais e mais-valia. E ponto final.
E as cidades? As cidades são espaços essenciais do industrialismo mundial, aliás, não é exagero dizer que a Revolução Industrial apetecida a partir do século XVIII recria ou reinventa as cidades conferindo-lhes novas funções, atribuições e determinantes no papel sempre importante de conter rebeliões sociais; apaziguar espíritos revoltosos e mitigar desobediências civis.
A cidade do capital, no dizer de Henri Lefebvre (1901-1991), com sua arquitetura de segregações e apartações é instrumento central para em primeiro, potencializar o contínuo da produção capitalista; em seguida, como disciplinamento cotidiano que, conforme cita Michel Foucault (1926-1984), toma corpos e enquadra-os aos rigores da instituições, sobretudo, estatais e; finalmente; a cidade com suas paisagens e acidentes geográficos artificiais, com suas conformações e estilos é uma intervenção psicológica porque educa sentidos, reforça padrões, potencializa formas sociais, tonifica hierarquias e cimenta, por fim, padrões societários orientados pela submissão de amplas maiorias de periféricos, suburbanos e desgraçados outros em favor e serviço de minorias abastadas, globais e ao mesmo tempo, provincianas; educadas e selvagens; civilizadas e escravocratas; artísticas e apreciadoras da arte e, da mesma forma, assassinas.
A cidade moderna, industrializada, info-produtiva produz na mesma cadência em que se produz; faz coisas quando se coisifica; se edifica quando desestrutura, desconstrói os que a estruturam e a constroem.
A cidade atual serve, antes, para matar gente e tudo o que a envolve, marca, caracteriza e determina serve antes, para matar, inclusive, fisicamente gente. Ou opera nesse sentido eliminando seus indesejados excedentes populacionais ou terá seus vidros e rosáceas quebradas; seus monumentos destruídos; seus prédios combalidos; sua hierarquia de ritos e capitais subvertida.
Matar é a palavra-chave para entendermos a cidade contemporânea. Ou introduzimos de vez, esse verbo gerador e re-gerador de cidades ou não entenderemos a própria dinâmica da cidade atual regida por taxas de lucros, níveis de oscilação de rendas ou inversões realizadas.
Enfim, nosso ingresso na globalização só se dá pela morte. Morte de pessoas, principalmente pessoas negras; morte da natureza e de suas formas de vida e, morte de valores, direitos e formas de ser, por fim… Morte do amor.
Nossa modernidade é morte!
(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)