Cotidiano

Cimentar propriedades aumenta alagamentos

Redação DM

Publicado em 5 de dezembro de 2015 às 22:48 | Atualizado há 1 ano

A época das maiores ocorrências de chuvas fortes se aproxima em Goiás, e os problemas de impermeabilização começam a ficar cada vez mais evidentes. Nas últimas semanas, quando a região metropolitana passou por uma forte chuva algumas ruas, túneis, rodovias e avenidas foram alagados em diversos locais deixando pedestres e veículos ilhados.

Córregos transbordaram em alguns pontos, como ocorreu na Marginal Botafogo, onde uma mulher em uma moto foi arrastada, e no Viaduto do Flamboyant. Casas no Setor Bela Vista, Parque Amazônia e São Luiz também foram alagadas devido a tempestade.

O que nem toda a população sabe é que as questões relacionadas a impermeabilização das cidades também têm a ver com costumes caseiros, que podem ser responsáveis pelo escoamento da chuva para o sistema pluvial que não consegue comportar a quantidade excedente de água.

Em entrevista ao Diário da Manhã, o arquiteto e urbanista Paulo Renato Alves explica que a impermeabilização das cidades não tem a ver somente com a o poder público, e explica melhor fatores de responsabilidade da sociedade que podem causar transtornos em épocas de chuva.

Ele explica que as ruas são de responsabilidade do poder público, e que para isto existem as galerias de água pluvial, que na ocorrência de chuvas suportam as águas vindas da rua pelos bueiros levando-as para os córregos.

Paulo Renato diz ainda que, em um cenário perfeito, quando a água da chuva adentra a propriedade privada, ela precisa ser absorvida pela terra e devolvida para os lençóis freáticos, mas o que ocorre na realidade não é o ideal. “Nós temos em nossa legislação que no mínimo 15% da área do terreno tem que ser de jardim, ou seja, em uma casa de lote com 400m², ao menos 60m de jardim devem ser contidos na área. Não é floreira ou vasos com plantas, é jardim de terra que vai receber a água que cair no terreno, absorvendo-a  e levando-a ao lençol freático”, adverte.

O arquiteto ressalta que boa parte da população não segue a legislação e que, em alguns casos, depois da fiscalização, os proprietários dos terrenos acabam por cimentar todo o solo, pensando na facilidade de limpeza ou em futuras construções no lote, fazendo do terreno um local totalmente impermeável. A água que escoa dessas propriedades faz o mesmo caminho que a água da chuva que cai nas ruas, não sendo prevista na capacidade dos bueiros.

“Essa água tinha que ser cuidada dentro das casas, mas boa parte da população, quando impermeabiliza a cidade, transfere essa água toda para a via urbana, e aí sim começam os problemas caóticos em época de chuva que nós vemos.”, disse.

Ele deixa claro que as responsabilidades do poder público devem sim ser levadas em conta, já que, por incumbência, as galerias têm que ser limpas em época de seca, mas que é preciso que a população tome conhecimento de que o comprometimento com a água que cai no seu lote não termina quando ela é levada às ruas. “Mesmo com as galerias limpas, em lugar nenhum do mundo elas seriam feitas para captar a água da cidade inteira. Imagine 100% da água de uma população sendo transferida para dutos e jogada nos córregos.”, exemplifica.

Em entrevista cedida ao Diário da Manhã, Karla Kristina, gerente de contenção e recuperação de erosões e afins da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), diz que os impactos dos solos impermeáveis são reais e relevantes, e que por isto o plano diretor exige que sejam feitos os poços de infiltração e as caixas de retenção de águas pluviais, para evitar que a água vá diretamente para as ruas através das calhas.

Soluções simples

O especialista Paulo Renato Alves diz que existe uma série de medidas que a população pode fazer, além de manter os 15% de jardim em casa como exige a lei, a poderia haver a cultura dos poços de infiltração, um método que em âmbito caseiro pode receber toda a água de chuva que cai no loteamento permitindo que ela seja absorvida pelo solo aos poucos, sendo um método ainda mais eficaz para os dias de chuva torrencial.

“Em casos de chuvas torrenciais, às vezes o jardim fica alagado, já que não consegue absorver a quantidade de chuva que cai instantaneamente. Então seria este um método simples de resolução deste problema; o poço de infiltração retardaria essa absorção, como se você estocasse a água da chuva num buraco para aos poucos a terra ir sugando”, explica.

Ele conta que hoje em dia, os empreendimentos imobiliários preferem usar deste método para que as construções possam ser ampliadas no lote, e que as funções do poço são infindáveis.

Outros impactos negativos

Questionado sobre outros problemas que podem ser causados pela cultura de cimentar espaços sem preservar solos naturais, Paulo Alves, arquiteto e urbanista, diz que até mesmo as chuvas torrenciais são consequência. “Quando a população cimenta tudo e coloca cerâmica onde deveria haver solo natural, a temperatura eleva muito. Temos visto cada vez mais precipitação de chuvas inclusive com granizo, porque a cidade fica mais quente, e o ar daqui sobe pra superfície da atmosfera, entra em contato com a corrente de ar frio que traz a tempestade”, disse.

Ele também é enfático ao dizer que a população deve cuidar desta situação como cuida da prevenção de outros tipos de problemas que podem aparecer em casa.

Especialista na contenção e recuperação de erosões da Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), Karla Kristina, fala também das questões de disposição de resíduo doméstico nas ruas: “Todos os bairros têm os dias certos de coleta de lixo, mas muitas pessoas despejam o lixo nas calçadas e estes resíduos sólidos são levados para os bueiros que entopem e causam alagamentos.”

Paulo Alves finaliza chamando a atenção da população para a relevância de suas ações para evitar transtornos maiores: “Assim como vemos campanhas de prevenção à dengue do tipo ‘cuide de sua casa porque suas ações podem refletir em uma cidade inteira’, o indivíduo deve cuidar da sua parte para ajudar a sociedade.”

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