Brasil

Réquiem para o neoliberalismo

Redação DM

Publicado em 30 de novembro de 2015 às 23:29 | Atualizado há 11 anos

O neoliberalismo latino-americano começa pra valer com a assunção golpista e genocida do general Augusto Pinochet no trágico ano de 1973 contra o governo democraticamente eleito do socialista Salvador Allende.

Assessorado pelos “Chigago boys” ou economistas conservadores da Universidade de Chicago (EUA) e devidamente liderados pelo indefectível Millton Friedman, um dos pais do neoliberalismo no mundo, Pinochet foi o responsável pelo desmantelamento não só dos serviços públicos chilenos sempre tidos como um dos mais amplos e eficazes sistemas de proteção do mundo, mas também como o responsável pela re-fundação do próprio Chile a partir da mercantilização de bens e serviços públicos, da privatização e da desregulamentação da economia onde ao Estado cabia tão somente, normatizar em prol e serviço de empresas privadas.

O resultado não poderia ser outro senão a pauperização do Chile, a redução dos indicadores sociais e econômicos e o amiudamento das estruturas produtivas do país, hoje limitadas ao cobre, aos seus bons vinhos e aos seus pescados.

O Chile virou uma mercearia comprida de mirrados itens de exportação espremida entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. Isso, tão somente! A empreitada neoliberal no vizinho Chile se mostrou um fracasso completo. Imaginem que atualmente, o principal evento econômico deste país fora um terremoto que lhe arrasou partes importantes o que obrigou o desencadeamento de centenas de obras públicas de reconstrução.

Dirão alguns dos meus críticos: “Como assim, o Chile tem o principal PIB da América do Sul!” É verdade! São dezessete milhões de pessoas, nada que ver com os mais de duzentos milhões de brasileiros, onde as rendas se acham intensamente concentradas.

O resto da história, quase todo mundo já sabe… O neoliberalismo se espraia de vez nos oitenta e noventa e a barbárie neoliberal irrompida no Brasil foi a responsável pela elevação da mendicância e miséria em todo o cone sul e, sobretudo, pelo atravancamento do Mercosul, importante mecanismo socioeconômico para o próprio futuro da Sul-América.

De outra forma, a agenda neoliberal fora abandonada por todas as siglas e flâmulas partidárias da América Latina com exceção do bizarro PSDB; já é um consenso de que o Estado tem papel importante e insubstituível no processo de promoção social, política e econômica de qualquer país.

Evidentemente existem fundamentalismos de mercado que, de fato, ainda se fazem presentes e influenciando de forma esparsa, alguns empresários, empreendedores ou jornalistas, mas o pensamento político e econômico coeso, sério e real não embarca nesses extremismos e sabe bem que, ao fim e ao cabo, quem financia a economia é o Estado nacional.

A definição de Perry Anderson a respeito é, ao menos, precisa: “Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonharam, disseminando a simples ideia de que não há alternativas para os seus princípios.” (ANDERSON, 1995, p. 23. Balanço do Neoliberalismo)

As lutas atuais no Brasil, sejam elas quais forem, tem como base e fundo o retorno ou não da agenda neoliberal que nos tenebrosos 80/90 transferiram bilhões de dinheiros dos orçamentos públicos aos mais ricos de modo a inevitavelmente, gerar mais miséria e abandono em uma ponta da vida social e muito mais riqueza concentrada em outra, essa tragédia que de longe, é nosso principal problema de política econômica.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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