Indisciplina – Propor desafios
Redação DM
Publicado em 28 de novembro de 2015 às 23:04 | Atualizado há 11 anosA indisciplina tem se configurado como um dos grandes e principais desafios da escola contemporânea. Qualquer pessoa ligada ao cotidiano escolar seja como educador ou como público em geral, acredita que a indisciplina é um fator de reconhecida importância no contexto escolar, sendo por vezes responsável pela grande crise que se instaurou, conhecida como fracasso escolar. Um dos aspectos centrais é a relação comumente estabelecida entre o baixo aproveitamento e a indisciplina escolar como um dos impasses fundamentais vividos no cotidiano escolar brasileiro.
Parte dessa interpretação da realidade se pauta em algumas evidencias equivocadas. De acordo com Aquino (1998) a visão romanceada da educação de antigamente, a moralização deficitária por parte dos pais, além da idéia do conhecimento escolar como algo ultrapassado e desestimulante são algumas das principais explicações, geralmente legitimadas pelos pares educativos. Outro grande mito destacado por Aquino (1998) é que comumente as pessoas acabam isolando a indisciplina como um problema individual e anterior do aluno, quando, ao contrário, o ato indisciplinado revela algo sobre as relações institucionais escolares nos dias atuais. Essas explicações esboçam razões para a indisciplina, mas não apontam caminhos concretos para sua superação ou administração.
Na origem dessa compreensão está o engano de tomar a indisciplina como um pré-requisito para a ação pedagógica, quando, na verdade, a disciplina escolar é um dos produtos ou efeitos do trabalho cotidiano de sala de aula. Para verificar a efetividade desta premissa, basta lembrar que nem todos os alunos se comportam da mesma maneira com todos os professores. Aquino (1998) esclarece que a “indisciplina, portanto, parece ser algo que desponta ou se acentua dependendo das circunstâncias. Por isso, talvez devêssemos nos indagar mais sobre essas circunstâncias, e, por extensão, despersonalizar o nosso enfrentamento dos dilemas disciplinares”.
É comum que boa parte dos educadores acredite ser necessário primeiro, que os alunos aprendam um conjunto de ações disciplinadoras – como obedecer e permanecer em silêncio – como pré-requisito para o início do trabalho pedagógico. Dessa forma, uma parte preciosa do tempo escolar é perdida com tentativas de disciplinar os hábitos discentes.
Mas haveria uma saída possível? Em primeiro lugar há que se tomar a indisciplina como uma temática fundamentalmente pedagógica, para que possamos compreendê-la, inicialmente como termômetro sobre a qualidade da intervenção pedagógica. Assim, a indisciplina passa a ser vista como um evento escolar que sinaliza se o trabalho pedagógico atende as expectativas dos envolvidos.
O maior desafio para a educação e os educadores de nossos dias no que diz respeito à indisciplina é promover uma compreensão para além dos rótulos do aluno-problema, desrespeitador, desinteressado e, das personificações que insistem em atribuir o fracasso escolar às pessoas e comportamentos isolados. Em lugar de colocar dificuldades que impedem o surgimento de uma postura propositiva, há que se rever posicionamentos endurecidos, questionar crenças arraigadas e confrontar pensamentos aparentemente imutáveis. Examinar a realidade para além das aparências deve ser compreendido como desafio, não uma obrigação, enfim, como uma oportunidade de vivenciar os processos de ensinar e aprender em toda sua plenitude, o que de certo modo, é extraordinário!
(Márcia Carvalho, pedagoga, psicopedagoga, mestra em Sociedade, Políticas Públicas e Meio Ambiente, chefe de Gabinete da AGETUL- Agencia Municipal de Eventos, Turismo e Lazer e diretora Secretária da Fundação Ulysses Guimarães)