Brasil

Por outra cidadania!

Redação DM

Publicado em 22 de novembro de 2015 às 00:09 | Atualizado há 11 anos

Poucas são as cidades goianas que tem atuado mais no campo da formação de efetiva cidadania crítica e ativa; na feitura de um tempo relacional diferenciado onde a cidade e as coisas da cidade se acham em uma espécie de “renascimento do urbano”, do que a “agrocidade” de Itumbiara.

Estou e estamos testemunhando amplo e silencioso movimento cidadão fundado em valores efetivamente republicanos, sociais, democráticos e edificantes de uma unidade própria, de integração específica e de real harmonia social onde o bem comum, a sustentabilidade e o direito social e público à cidade e seus benefícios são de fato, o centro.

Nada que ver com as governanças municipais, ao contrário, nestas formas clássicas de exercício de poder e representação a tônica é o poder público concentrado, o controle social que secciona o povo do seu exercício político e onde, enfim, se afirma um ordenamento socioeconômico centrado no poder de grandes empresas, de poucas famílias e na intensificação da submissão dos trabalhadores às determinações oligo-empresariais que miram única e exclusivamente na expansão dos seus lucros a qualquer conta e custo.

O que se percebe destes fundamentais ensaios de cidadania é o esforço por redefinir o poder; recria-lo a partir de nova estética; novas formas de relação com o Estado e mirando em um horizonte de justiça, direito humano e é claro, delicadezas.

De onde isso surge? Difícil dizer, mas penso que a crise internacional ou crises internacionais que ocorrem com intensa frequência a partir da década de 1970, bem mais do que meras crises econômicas são expressões financeiro-econômicas de uma crise civilizacional que demonstra das mais distintas e variadas formas o próprio esgotamento de um modelo de acumulação capitalista.

O capitalismo precisa se reacomodar e, conforme atestamos, não está conseguindo,aliás, jamais conseguiu. A não acomodação atual do “dragão planetário”, nos dizeres do belo poema da banda maranhense de reggae, Tribo de Jah [Conferir no YouTube a canção “Globalização, o delírio do dragão”] suas agonias, seus giros e rodopios de fato, desassossega todo mundo, sobretudo os pequenos, os trabalhadores.

Tente estar em uma jaula com um elefante raivoso… Melhor não!

Evidentemente as reações irão acontecer das mais distintas formas! A eleição nos anos 2000 de diversos governos trabalhistas na América Latina é objetivamente expressão desta reação; a chamada “Primavera Árabe” que, em seguida fora capturada pelo imperialismo internacional, aconteceu em dado momento, como movimento dessa reação; a assunção de forças políticas como o Syriza (Grécia) ou o “Podemos” (Espanha) também são, em alguma medida, pulsões internacionais e espraiadas dessa resistência.

E isso se dá nas realidades regionais e locais. Ninguém ou nada está fora do jogo duro dessas contradições. E são, exatamente essas mesmas contradições que geram e re-geram movimentos que, inclusive, atingem a mim ou a você e está aqui, agora, na minha cidade, no meu bairro, na minha casa.

Para as particularidades da cidade de Itumbiara, o mobile desse movimento tem muito das contradições das gestões municipais que já somam doze anos de governos oligárquicos, evidentemente conservadores e amplamente alinhados com o desenvolvimentismo mais ortodoxo e primitivo que se possa imaginar.

De outro modo, a conjuntura política local está bastante alterada. Nestes doze anos de mando carismático e populista, se percebe principalmente pelo viés de políticas advindas do governo federal, a elevação dos padrões formativos e educacionais da cidade; maior contingente de jovens frequentando o ensino superior; maior aprimoramento da ação política; desenvolvimento de outras perspectivas sobre a cidade e o direito à cidade; novo padrão estético e artístico advindo, sobretudo, das periferias, com destaque às novas literaturas; nova preferência cinematográfica, novo padrão musical e cultural e que vai se conformando lenta e vigorosamente no cotidiano da urbe.

A universidade, sobretudo a Universidade Estadual de Goiás (UEG), precarizada e ameaçada até o tutano pela barbárie neoliberal representada pelo tecno-privado governo de Marconi Perillo (PSDB) tem a obrigação moral e institucional de intensificar sua presença na vida social da cidade, sobretudo, em seus mais distantes bairros e áreas rurais.

Para pensar junto; aprender e ensinar com o povo; tomar o conhecimento popular local e traduzi-lo em ciência social; mas converter o saber acadêmico em saber social e popular; contribuir com a produção; pensar formas sociais e coletivas de controle dessa mesma produção e incutir formas não-salariais na vida de nossos trabalhadores.

De outro modo, estamos em intensos cinco anos de estudos, pesquisas, produções e atividades orientadas pelo pensamento libertário, crítico, histórico que tem como centro: a vida humana e seu exercício pleno.

E, importante, não nos esqueçamos de que crise é também… Oportunidade.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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