Brasil

Energia, classes e o lixo politizado

Redação DM

Publicado em 20 de novembro de 2015 às 22:31 | Atualizado há 11 anos

Na pesquisa por pensar um modelo municipal de gestão dos resíduos sólidos me dei conta do gigantesco fracasso que é o dispositivo da contratação de empresas de coleta de lixo e fartamente realizado por todos os municípios brasileiros. Talvez se rompermos, mesmo que por um instante, com nossas velhas e convencionais formas de pensar, possamos identificar uma saraivada de problemas com esse dispositivo velho, viciado e corrupto.

Vejamos… A prefeitura abre, por licitação ou não, afinal, o prefeito é o “reizinho local” que manda, para a contratação de certa empresa para coletar lixos produzidos pela população. Depois, essa empresa empenha caminhões, equipamentos e trabalhadores para correrem ruas apanhando em sacos, caixas ou mesmo em amontoados os lixos descartados.

Os caminhões carregados seguem enfim, para um depósito ou lixão ou aterro onde esses materiais serão, linhas geras, abandonados sem qualquer tipo de tratamento ou observância e esse movimento é feito por anos a fio.

Pois bem, os caminhões percorrem todos (?) os bairros e catam toda sorte de lixo. Evidentemente os chamados bairros nobres possuem determinado padrão de consumo, portanto, um tipo específico para produzir e gerar lixos ou resíduos; as médias classes, com toda sua miríade de subdivisões, possuem outro; os bairros irregulares, acidentados e escarpados dos pobres, possuem igualmente, pelas rendas que acessam, outra tipologia de consumo e consequentemente uma geração diferenciada.

É que a coleta de um lixo não é apenas a retirada de algo “imprestável” de um território para outro território. Embora os caminhões joguem os lixos no mesmo amontoado das carrocerias dos caminhões de coleta, esse ajuntamento é grave problema de gestão, administração e de política ambiental.

Talvez um estudo de energia e termodinâmica possa nos ajudar com o cuidado de não tornar maçante e antipático esse texto. É que, linhas gerais, tomo como referência as análises do economista romeno Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994) que, com base na segunda lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia, irá concluir com enorme propriedade e clareza a inevitável degradação dos recursos naturais.

A ideia, grosso modo, é que uma imensa quantidade de energia é consumida para, por exemplo, produzir um carro popular e depois de lançado no mercado, os benefícios energéticos desse carro são quase nenhum para a sociedade e, em muitos dos casos, são inclusive, negativos.

O lixo é, em sua medida, expressão dessa lógica. Os lixos dos ricos (televisores, carros, alimentos mais elaborados, roupas caras etc, etc e etc) demandam bem mais processos e incorporações do que os lixos dos pobres, alimentos básicos ou industrializados de primeira ordem ou gênero. Quero dizer que a energia do mundo é energia para servir, grosso modo, o consumo dos ricos.

Talvez não tenha sido devidamente claro, mas essa distinção de consumo, essas demandas energéticas e os processos ai envolvidos e que geralmente, não percebemos são o “x” da questão para pensarmos uma política de gestão do lixo em nossa cidade.

Lixo é energia porque toda matéria é energia e adivinhem quem são os grandes demandantes de energia do mundo?

Este pode ser um bom começo para repensarmos o lixo urbano.

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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