Adaptação histórica
Redação DM
Publicado em 12 de novembro de 2015 às 21:50 | Atualizado há 11 anosDom Manuel…
O passado é tão presente que enfeita o futuro, a histórica vai e vem, como o rio de nossas vidas. Mudam os personagens, tecnologias e modismos, mas o enredo ainda é o mesmo. A vida se parece com um filme clássico, nossa culinária vem em forma de enlatado e temos muitos trabalhadores sofrendo dores de dente no seu local de trabalho. Do Brasil para Portugal a gente navega pelo espaço digital, noticiando o bem e o mal. A Internet é rapidíssima, mas o garçom ainda demora para nos trazer a cerveja preferida. Os processos se arrastam nos tribunais e os empresários oferecem propinas nas licitações nacionais. A dengue ainda é uma doença grave, embora ninguém morra de saudades.
Olá, dom Manuel. Em primeiro lugar não é carta, e sim e-mail. Tenho a lhe dizer que nossos índios usam computadores, os animais são extintos pela ganância do homem e nossos políticos só lutam pelo oportunismo e não pelo idealismo. Nosso bezerro de ouro é o whatsapp, nossos rios estão poluídos e as crianças usando drogas nas ruas. Nossas mulheres tão belas usam silicones, e muitos homens trocaram de lado. Dom Manuel, o honesto ficou desonesto e a corrupção é a moeda da vez. Nem tudo está perdido, nem os jogos do Vasco da Gama num Maracanã hipotético. Em se plantando tudo dá; arroz, feijão, mandioca, manga, batatinha, soja e corrupção. Na verdade, o povo está triste e não é pelo drama da novela das oito. O País está em crise, pois os governantes abusaram dos privilégios, fizeram negociatas, mas ainda assim se encontra políticos sinceros, honestos. Nossos carros são importados da China e depois melhorados num fundo de quintal anônimo. Os idosos buscam novidades e os jovens estão com nostalgia. O trem de ferro virou metrô e os coletivos viraram antibióticos; ou seja, só são passam de 8 em 8 horas. A cigana se modernizou e a mentira vale mais que a verdade oficial. O camelô já carrega a maquininha de passar cartão e o namorado vai reclamar ao Procon por amor não correspondido. O povo brasileiro é o único que faz uma tragédia virar comédia. Agora se dança todos os dias e lugares, deixando o ritmo por conta do sistema democrático e burocrático. Irmão trai irmão e um gato divide a mesma comida com um cão abandonado pelo seu dono. Tudo mudou na famosa Terra (ou Ilha?) de Vera Cruz, até o jeito de rezar para Jesus, usando os gestos da Renovação Carismática. Assim é o Brasil atual, com Brasília sendo uma ilha cercada de belezas e escândalos por todos os lados. O famoso Monte Pascoal virou uma arquibancada lotada no Serra Dourada para os torcedores vibrarem com os jogos e gols do Vila Nova. E quem diz a verdade recebe até premiação na Justiça. A tanga das silvícolas agora é uma saia bem moderna e atraente!
Nossa fauna foi invadida, nossa flora foi agredida e o azul do céu está encardido pela poluição que jorra em abundância. Sim, dom Manuel, o nome do País ainda é Brasil, embora o povo goste de falar mais em inglês que português. O homem do ano é uma mulher, nossa gasolina está cara e até terremoto pode ser encontrado. O Flamengo ainda é o time da moda, mas a nossa seleção perde até para a Carmelândia. Nosso silêncio compromete, nossas mulatas perderam o rebolado e até a nossa música tem uma rima diferente. É a adaptação histórica, existe o horário de verão e o trabalhador vai mais cedo para a sua casa. O calor está forte, o sistema está fraco e as crianças já não brincam mais de salva cadeia, cowboy e jogo da velha. Tudo está mudado, nosso trânsito está confuso, nossos ídolos fogem dos fãs e nossa economia está na marca do pênalti devido a erros políticos e estruturais. Nossa moeda agora é o real, mas o povo ainda não caiu na real. Não existe gosto pela leitura e nosso sistema educacional está batendo recordes de superação, embora os alunos não saibam escrever uma frase com sujeito, verbo e predicado. Nossas comunicações são extraordinárias, apesar de que a maioria da população ainda não tenha banda larga. Dom Manuel, lava jato agora é lugar sujo, como está tudo registrado nos jornais. Nossa pecuária está sem incentivos e subsídios, nossa agricultura caminha dentro da tecnologia, mas nem tudo que sai do peito da vaca é leite. O peixe fugiu do veneno e foi pescado pelo bicho homem. O Pau Brasil foi mudado por alguma experiência científica com as árvores raras do país tropical. Nosso cerrado virou serra!
Dom Manuel, no lugar de Cabral tem a presidente Dilma Rousseff, mas o Brasil precisa ser redescoberto em cada aula, passeio, experiência ou projeto votado no Congresso. Nossos médicos fazem milagres apesar de ganhar um salário insignificante pelo Sistema Único de Saúde. O povo conhece os seus deveres, mas ignora os seus direitos. Os empregados domésticos agora tem carteira assinada e nosso conhecimento é testado no Enem. Temos noção do perigo, embora a energia nuclear seja um assunto obscuro, pois ela tanto pode ajudar como matar os seus usuários. A cachaça tem muitas composições, os ladrões roubam nossa identidade e locutor de rádio está rouco de tanto fazer comerciais da TV digital. Tudo é novidade, exceto a beleza das mulheres, que estão mais enfeitadas que nossas índias de 1500. A vida noturna é boa, com muitos bailes, mas a maior diversão ainda é a novela. Dom Manuel, não vou te escrever uma carta com 27 páginas e sim um pequeno recado por este E-mail, que é a maior onda das comunicações sem fio. O pássaro preto ficou branco, o menino virou menina e entrou na TPM. Dom Manuel, em se plantando tudo dá: milho, alface, cenoura, couve, repolho, uva e oportunidades. Vou terminar este E-mail porque estou com tendinite de tanto digitar a mensagem histórica. De 22 de abril de 1500 até hoje só uma coisa ainda não mudou: apesar de tantos contrastes o Brasil ainda é o melhor país do mundo. Atenciosamente e atualizadamente, Pero Vaz de Caminha.
(José Carlos Vieira, escritor, jornalista do Jornal Folha da Cidade, Rio Verde, E-mail [email protected])