Onde a crise chega primeiro?
Redação DM
Publicado em 11 de novembro de 2015 às 22:52 | Atualizado há 1 ano
No Brasil, a economia anda cada vez mais capenga. Na ponta do iceberg estão os escândalos políticos da Petrobras e os vários anos de corrupção que parecem estourar na nossa cara apenas agora. O país não é mais considerado como um bom local para investimentos, dessa forma empresas internacionais começam a fechar as portas e desistir de expandir os negócios em nosso território. Em consequência disto mais brasileiros acabam desempregados, gerando assim um recuo na economia (quando não se tem para gastar as mercadorias ficam paradas nas prateleiras). Sem conseguir vender seus produtos como antigamente, o dono do mercado da esquina logo tem que demitir o único funcionário que tem ou fechar as portas, dando maior gás para esse clico. Os jornais, revistas, políticos e empresários chamam esse fenômeno de crise financeira.

Com esse pensamento estabelecido, chega a hora dos governantes tirarem a faca do bolso e iniciar o processo nada cirúrgico de cortes de orçamento. Tira um tanto ali, um tanto aqui e ao final usa-se uma das justificativas mais clichês da atualidade: é a crise. Aqui (e não digo só em Goiás) a primeira pasta de onde se pode diminuir gastos é a de cultura, porém os cortes nesta área tem precedido os rumores de crise. Desde que a Secretaria de Cultura de Goiás (Secult-GO) se tornou Secretaria de Educação, Esporte, Lazer e Cultura (Seduce) a redução dos eventos no Estado tem sido rotineira.

Primeiro o Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA) teve uma redução de fundos em 50%. De acordo com a Seduce, esta mudança traria mais benefícios ao evento que a partir de então teria foco principal no audiovisual. Porém, os cortes seguiram e nos últimos dias a Seduce anunciou que outros dois grandes eventos culturais simplesmente não iriam ocorrer. O Canto da Primavera, voltado para a música, e o TeNPo, que leva apresentações teatrais nacionais para a cidade de Porangatu, foram cancelados devido ao momento econômico do país e do Estado. Em uma nota encaminhada para os artistas e para a imprensa, o governo se posiciona da seguinte maneira:
“Tendo em vista o Programa de Restauração e Ajuste Fiscal do Estado de Goiás, bem como as dificuldades economico-financeiras do País, tomamos a decisão de não realizar os eventos: Canto da Primavera e Mostra de Teatro Nacional de Porangatu – TeNpo. O Governo de Goiás, através da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (SEDUCE) e Secretaria de Estado da Fazenda (SEFAZ), entende que, com esta medida, está sendo coerente com o momento econômico e fiscal do Estado e do País.”
Posicionamentos
A classe artística, desgostosa com o cancelamento de dois grandes eventos do Estado, produziu uma carta explicativa se manifestando contra o ato e também em relação as condições que são submetidos frente ao governo. O corte do Canto da Primavera e do TeNpo, de acordo com estes, também é apenas a ponta de um grande iceberg. Na carta, os artistas falam das exigências do Fundo de Cultura, sendo que este é praticamente um dos únicos subsídios fornecidos pelo governo. Eles também citam a “burocracia demasiada do processo de seleção” e não apenas isto: a classe também reclama o pagamento dos shows realizados no FICA deste ano que até então estão atrasados.
Em um trecho da carta, os artistas citam que “enquanto sentimos na pele um total descaso e sucateamento de festivais que dão vida a cidades do interior e divulgam a música feita em Goiás que, diga-se de passagem, é diferente da ‘mesmice’ na música que fatidicamente nos rotula, percebemos que outros festivais que trazem músicos consagrados e caríssimos acontecem de vento em poupa”. No documento, quase como um desabafo de quem segurou por muito o fôlego, a justificativa de uma crise é considerada como algo raso.
Leia a carta na íntegra:
“Sobre desrespeito ao nosso ‘Canto’ e o desperdício do nosso Tenpo.
Nós, artistas e bandas selecionadas para participar do Canto da Primavera 2015, declaramos um profundo pesar e repúdio à decisão do governo de Goiás e da SEDUCE pelo cancelamento dos festivais Canto da Primavera e Tenpo, previstos para acontecerem ainda esse ano nas cidades de Pirenópolis e Porangatu, respectivamente.
Todos já estamos acostumados com a burocracia demasiada do processo de seleção, e o mais complexo ainda, processo de contratação, em que por muitas vezes artistas perdem suas vagas por falta de documentos considerados muito mais importantes que até mesmo sua própria arte. O artista, para firmar contrato com os festivais, precisam ter uma empresa registrada e totalmente em dia com suas contas, impostos e taxas. Infelizmente essa transparência e cumprimento de prazos não faz parte da pauta dos festivais que o Governo de Goiás administra. Os pagamentos de cachê atrasam meses e nunca ninguém é informado do porquê ou sequer quando serão efetuados. Tudo fica a cargo do bem querer e quase que da sorte. Prova disso é o já atrasadíssimo pagamento pelos shows que ocorreram no FICA desse ano. Porém, apesar de desestimulante, também já nos acostumamos com isso. Mas o que não podemos nos acostumar é com cancelamentos, prorrogações de resultados, e até mesmo a falta de uma simples previsão de normatização.
Entre as regras previstas no edital está a de que o artista ou grupo deverá estar disponível para a apresentação na semana do festival, o que é logico, claro… porém, ela é foi estipulada para 21 a 25 de outubro e depois prorrogada para 11 a 15 de novembro e, por fim, declarado como cancelado. Esse tipo de situação simplesmente acaba com a agenda de um artista: como planejar alguma coisa desse jeito?! Os cachês são baixos, o prazo de recebimento indeterminado e agora até mesmo a realização se tornou flutuante. Isso para não falar nas leis de incentivos estaduais, Fundo de Cultura e Lei Goyases, que já estão com seus resultados atrasados.
Enquanto sentimos na pele um total descaso e sucateamento de festivais que dão vida a cidades do interior e divulgam a música feita em Goiás que, diga-se de passagem, é diferente da “mesmice” na música que fatidicamente nos rotula, percebemos que outros festivais que trazem músicos consagrados e caríssimos acontecem de vento em poupa, para não mencionar repetidas visitas de determinados artistas ou de produtoras específicas que com certeza não passam por um processo de seleção como o que nos é proposto e certamente não sofrem com os atrasos de pagamentos que, aliás, são de números muitos mais altos.
Na mesma semana em que tivemos um adiantamento de datas estipuladas para o pagamento do IPVA e outras regras para carros mais antigos voltarem a pagar esse imposto, a desculpa pelo cancelamento dos festivais desse fim de ano nos veio simplesmente como o “resultado das dificuldades financeiras que o País passa”. Consideramos essa desculpa estapafúrdia e rasa, uma vez que nunca nos é demonstrado número algum e simplesmente temos que engolir o argumento de que essa tal ‘crise’ é a culpada de tudo que convier ao governo estipular e decidir. Não custa tanto assim explicar melhor como isso ocorre ou pelo menos reconhecer que esse não é um problema federal e sim estadual, já que o mérito de quando os festivais são realizados é do Governo estadual.
Por fim, declaramos aqui que, apesar de ser uma carta ao Governo de Goiás e à SEDUCE, resolvemos enviá-la exatamente como nos são informadas as decisões do governo: pela imprensa e por fotos de documentos divulgadas em redes sociais. Esperamos que as decisões sobre os cancelamentos sejam revisadas ou que pelo menos melhor explicadas e também que o respeito aos editais seja mútuo, pois não só os artistas devem cumprir com suas obrigações, mas também o Governo de Goiás. Só assim conseguiremos consolidar, difundir e levar a todos a nossa cultura e a nossa arte.”
