Brasil

Legado Cultural

Redação DM

Publicado em 4 de novembro de 2015 às 00:17 | Atualizado há 11 anos

Os irmãos Waldecyr Almeida e Antônio Almeida, proprietários da Editora Kelps, de Goiânia, idealizaram um concurso de poesia falada que marcou época no Estado de Goiás. Era um feliz encontro entre a capital e o interior, com belas composições e apresentações. Foi um período de criação coletiva dos autores regionais, envolvendo as cidades de Pires do Rio, Inhumas, Rio Verde, Goiânia e outras, se não me falha a memória. A disputa era acirrada, pois os vencedores tinham os seus poemas (poesias) publicados num livro da editora citada, abrindo portas para os escritores iniciantes e festejando outros já consagrados, como Brasigóis Felício. Tempo de criação e imaginação, pois para ganhar era preciso unir um bom texto com a arte cênica nas apresentações. Tive a felicidade de participar de três concursos e fui premiado coma publicação de meus poemas. Eu me lembro de que cada autor só poderia concorrer com uma poesia, então escrevi quatro poesias com outros pseudônimos e tive a sorte e competência de ter as quatro poesias classificadas! Foi um legado cultural importante, onde o romantismo e a sensibilidade eram testados em cada apresentação, e a final geralmente era realizada num shopping da capital. Havia o Destaque do Interior e outras categorias para incentivar os escribas de todos os estilos e pensamentos. Deixou saudades e uma reflexão sobre o momento da poesia no mundo, quando a sensibilidade está perdendo espaço para a materialidade das pessoas. Os irmãos da Editora KELPS plantaram uma semente que não deveria ser esquecida pelos órgãos oficiais de cultura e educação. Os colegas Alaor Vieira, Ana Luíza, Judith, Silvio Romero, César Silva, João de Castro, Márcia, Maria Cecília, Selma, dentre outros, se inscreviam na disputa e amavam  a bela contenda literária. Tempo bom; tempo feliz.

A poesia é desabafo, confissão, liberdade, estilo, sensibilidade, nostalgia, magia, alegria, devaneio, busca pessoal, declamação social, vontade de mudar o mundo com versos, páginas de sabedoria e integração social, com ou sem rima. A iniciativa da editora de Goiânia resgatou poetas e lançou outros, formando uma seleção feliz de bons pensadores da prosa e verso situados na essência da escrita e encenação. Muitos escritores e artistas de Goiás foram descobertos por este concurso/festival da editora goiana. Havia uma saudável apresentação, com os temas mais tocantes e badalados, como sem-terra, mãe solteira, política, amores, dores, saudades, desejos, protestos, tudo numa linguagem comovente e envolvente. Nem sempre a melhor poesia escrita era campeã, pois dependia de uma boa apresentação, que era a segunda etapa do festival. Em tese havia até discussões, pois uns defendiam que a poesia deveria ser separada do teatro, o que provocava debates intensos sem tirar o brilho da inciativa dos irmãos que moram em Goiânia, embora tenham nascido na Fazenda Boa Vista, no município de Rio Verde. A cultura de um povo é expressa por sua produção, encantamento e valorização, unindo interior, capital e os setores público e privado. Havia o patrocínio de várias entidades e empresas, berço das ideias que viravam livros depois do resultado final. Uma vez uma caravana de Rio Verde viajou para Goiânia levando dez participantes da final, e eu estava entre eles. Feliz de quem semeia cultura, educação, oportunidade, iniciativa, pelos braços da poesia e da expressão de pensar. Eu sei que a atual crise econômica impede sonhos literários mais arrojados, mas toda proposta cultural deve ser bem avaliada, já que há verbas para a cultura no orçamento de qualquer administração. Mesmo num País onde os habitantes leem tão pouco, é necessário investimento em literatura. Muitos jovens participantes daquele concurso de Goiânia ainda guardam no fundo de uma gaveta a publicação de seu livro. Foi um momento feliz, onde as prefeituras faziam uma parceria com a editora goiana e todos saíam ganhando, já que a cultura é um bem necessário, pois nem só de asfalto vive o contribuinte. Os irmãos Waldecyr Almeida e Antônio Almeida foram os idealizadores de um caminho de fé, liberdade, paixão pelos livros e declamação. Talvez lendo esse artigo outros governantes se inspirem a fazer a parceria com outros Mecenas para a publicação de livros, não só de poesia, como de conto, romance, história. Escrever, encenar era os gestos dos autores, e não importa discutir se o jurado era confiável ou não, já que mostrar o talento era a primeira meta dos sonhadores do papel, caneta, divagação. Escrever é mexer nos neurônios e movimentar ideias, talvez até mudando uma parcela da sociedade. A Editora KELPS fez a sua parte, e se espera que outros idealistas sigam o caminho de luz das letras. Somos todos poetas, sonhadores de um País injusto, que merece ser repensado. O objetivo da poesia é libertar o homem de  suas amarras regionais, culturais, passionais, encontrando soluções no papel, caneta e teclado para fazer o seu discurso social. O legado da editora goiana devia ser copiado, pois é bem melhor escrever a nossa história com nossas próprias mãos de que ficar curtindo uma programação da TV que nada tem a ver com a nossa realidade.  Só as coisas boas deixam saudades, como os concursos de poesia falada unindo o Estado de Goiás de uma ponta a outra.  Será que não vale a pena resgatar os Vinicius de Moraes e as Cecílias Meireles de Goiás?

 

(José Carlos Vieira, escritor, jornalista do Jornal Folha da Cidade, Rio Verde, E-mail [email protected])

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