Um idoso, uma criança e um velho chapéu…
Redação DM
Publicado em 31 de outubro de 2015 às 22:32 | Atualizado há 11 anosOs mais velhos demonizam muito a internet. Mas é necessário aprender a retirar dela as inúmeras vantagens que a mesma nos pode oferecer.
Recebi, dias passados, pelo whatsapp, um vídeo que me comoveu.
A cena de abertura era comum: uma praça, um bom número de pessoas de pessoas reunidas, em pé, muitos acompanhados de seus filhos, crianças da pré adolescência ou crianças mesmo, entre dois e sete anos.
No centro, um senhor idoso, com roupas simples mas pesadas ( agasalho contra o frio ), com um cachecol que balançava levemente ao vento fraco…Calvo, barba por fazer, assim de uns três dias, usando óculos. A alguns metros de distância dele um chapéu velho, no chão, com a abertura virada para cima.
Não vi nenhum músico ou instrumento por perto. Mas deveria haver ali uma pequena caixa de reprodução de som, para que se pudesse ouvir o acompanhamento musical. Repito, a caixa de som era só para reprodução do acompanhamento musical.
Segundos após as primeiras notas da Ave Maria.
Particularmente, aprecio demais todas as músicas clássicas ou religiosas com este título que conheço. Tenho aqui umas sete delas, Gounod, Schubert etc Todas maravilhosas, contendo a saudação angélica à virgem Maria. Tenho ouvido inúmeras interpretações desta música. Todas maravilhosas, na voz de cantores consagrados.
Confesso que deixei rodar o vídeo por mera curiosidade, pois o cantor não me inspirava qualquer segurança… Aquele idoso, ali no meio da praça, sem acompanhamento, sem porte de grande tenor…
Mas, mais uma vez aprendi a lição de não julgar ninguém nem nada pela aparência.
Quando aquele idoso abriu a boca e emitiu as primeiras notas, vi que não era apenas aquele corpo. Era uma alma emocionada, impulsionada por um espírito amoroso, em contato direto com a linha do céu.
O homem transmitia com sua voz um calor de aquecer os corações mais embrutecidos. A cada frase da anunciação com magnifica pronúncia do latim clássico e a cada frase musical, entoada com perfeito respeito à melodia e verdadeira adoração devota, mais eu me espantava. O público, em volta, preso, paralisado, dominado pela voz perfeita daquele senhor desconhecido.
A cada passagem, pequenos movimentos dos adultos, entregando o dinheiro aos seus filhos e deles encaminhando-se silenciosa e respeitosamente até o velho chapéu, que logo ficou repleto, onde colocavam não uma esmola, mas como que pagavam o ingresso para assistirem a um espetáculo tão portentoso, em meio à simplicidade do ambiente público.
Ouvia-se, apenas, entrecortando a maravilhosa interpretação daquela Ave Maria, suave sussurrar do vento frio. Até a natureza se curvou.
Quando terminou sua interpretação, as pessoas foram se retirando, depois de estrepitosas palmas, silenciosa e respeitosamente.
Também ia me retirar, mas o vídeo continuou.
E continuou para mostrar algo grandioso demais para se descrever com pobres palavras:
A filmadora se fixou numa pequena criança. Se tivesse mais de dois anos era muito pouco.
Seu olhar continuava parado, direto, dirigido ao idoso.
E o dele, da mesma forma, naquela linda criança.
Foram poucos segundos. Mas me pareceram uma eternidade.
Eternidade de paz, de carinho, de amor, de respeito às maravilhas de Deus. De dois seres humanos igualmente puros, aquele idoso e aquela criança, representando a humanidade que devia ser, mas que hoje se desencaminha por trilhas tão perversas, tão dolorosas, tão desumanas.
E ali, em silêncio, fiz meu pedido a Deus: Pai, conceda-nos mais desses idosos, mais dessas crianças e mais desses chapéus velhos para povoarem as praças de nossos corações, tão convulsionados por vulcões, terremotos, tufões e outros fenômenos maus da natureza humana.
(Getulio Targino Lima, advogado, professor emérito ( UFG ), jornalista, escritor, membro da Academia Goiana de Letras (Cadeira nº 6)