A revolta da bicharada
Redação DM
Publicado em 29 de outubro de 2015 às 22:09 | Atualizado há 11 anosNo zoológico de uma determinada cidade, de um determinado estado, de um determinado país, descontentes com os maus tratos que vinham recebendo, os bichos arquitetaram um plano: num dia que tivesse bastante movimento de pessoas no parque, arrebentar as jaulas, ganhar a liberdade e colocar em seus lugares todos os visitantes, prendê-los e mantê-los reféns. Em seguida fazer uma passeata de manifestação até a prefeitura, para exigir do prefeito melhores condições de vida no zoológico.
No domingo seguinte, à tarde, dia claro e céu azul, o zoológico fervia de pessoas: homens, mulheres, adolescentes, crianças, muitas crianças. Pipoca, algodão doce, cachorro quente, balões coloridos, toalhas estendidas no gramados, sob às árvores, piqueniques, etc.
Na jaula do leão:
– A hora é agora! – deu a ordem o leão, com seu vozeirão, ao seu vizinho gorila. Este, forte e inteligente, imediatamente, sem muitas dificuldades, quebrou as correntes e o cadeado de sua jaula. Liberto, se apoderou das chaves do zelador do zoológico e soltou todos os animais. O tumulto e a gritaria do povo foi geral, imaginem! O urso, o tigre, a onça e outros animais de grande porte, com modos nada delicados, foram empurrando as pessoas para dentro das jaulas e trancafiando-as. Todos presos, os bichos, liderados pelo leão, se organizaram em fila, e seguiram pela avenida em direção ao Paço Municipal. O veado fez questão de ir na frente. Perguntado o porquê dessa preferência respondeu com trejeitos: “Quero porque quero!” Depois seguiam-se: o gorila, o chipanzé, o tigre de bengala, a anta, o camelo, a onça pintada, o hipopótamo, o elefante, o lobo guará, o tamanduá, a jiboia, a cascavel, o lagarto, a sucuri, as araras, o avestruz, a coruja morucututu, a ema, o tuiuiui, o gavião, os papagaios, o pavão, o sapo cururu e outros bichos. A tartaruga não foi porque iria atrasar a passeata.
A manifestação seguia pacificamente sem maiores incidentes, salvo algumas peraltices do macaco prego que insistia em puxar o rabo dos equinos. Um coice da zebra o fez sossegar. A girafa com o seu pescoço comprido ia bem no meio do comboio, vigilante, “filmando” tudo que acontecia ao redor.
Chegaram à prefeitura.
Para ouvi-los o prefeito, que fazia horas extras naquele domingo, exigiu que se formasse uma comissão com a qual então iria dialogar. Esta ficou assim constituida: o leão, o gorila, o tigre de bengala, o urso e a onça pintada. Foram conduzidos pelo chefe de gabinete até a sala do prefeito que, quando se viu diante daquelas brutas feras, foi logo dizendo:
-–Falem o que vocês desejam que eu atenderei prontamente.
Com a palavra novamente o leão:
– Queremos: carne de primeira, tipo filé-mignon, sem osso, muita carne; ração também de primeira, balanceada, para quem não gosta de carne; banho em piscina com água aquecida, no frio, e ducha de água fria, no calor; colchões macios, magnéticos, e cobertores nas noite de inverno; que nossas jaulas sejam limpas e higienizadas três vezes ao dia; ser tratados com carinhos e afagos; liberdade condicional a ser desfrutada na floresta, após algum tempo de bom comportamento atrás das grades no zoológico.
– Ah! mas isso é impossível, respondeu o prefeito – não dá para atender. A reação dos bichos foi imediata: Todos arreganharam os dentes exibindo enormes caninos nas gengivas roseadas. O gorila, enfezado, bateu no peito. O leão rugiu. O urso ficou em pé em posição de ataque. O tigre e a onça, estressados começaram a andar na sala de lá pra cá, de cá pra lá. O prefeito tremeu nas bases. Imediatamente pegou a caneta e assinou uma portaria concedendo todas as reinvindicações exigidas. E a bicharada foi embora feliz, voltando para as suas jaulas e libertando os reféns.
Tá vendo, população? É assim que se faz! Se não mostrar os dentes a coisa não funciona!
(José Maria Moreno, odontólogo aposentado, [email protected])