Brasil

Lembranças dos tempos de escola – Parte XX

Redação DM

Publicado em 28 de outubro de 2015 às 23:45 | Atualizado há 11 anos

Ainda nesse ano, toda a escola se preparava para fazer uma festa surpresa para comemorar a passagem do aniversário da diretora Nil. Então, a comissão formada para organizar a festa, tratou de avisar aos alunos para que todos formassem equipes entre os colegas mais próximos, em se tratando de afeição, para preparar os alimentos para a festa. Naquele dito dia eu faltei às aulas e somente fiquei sabendo da festa à tardinha quando Roney e Érick chegaram da escola, soube quem eram as pessoas que iriam fazer parte da nossa equipe e o que iríamos preparar para levar à escola no dia seguinte. Tivemos muita sorte, os membros eram Roney, Érick, Edu, Leandro, que por muito tempo ficou fora de cena, e eu. Ficamos encarregados de fazer uma bebida chamada popularmente de caipirinha à base de limão, açúcar, água e cachaça. Caipirinha para crianças, adolescentes e adultos, meu Deus! Hoje me dou conta da irresponsabilidade da comissão organizadora da festa-surpresa, pior ainda, a diretora não sabia o que poderia rolar. Coitadinha! Já que eu não estava presente no momento de formar a equipe eles por si só decidiram que a caipirinha seria preparada na casa de Leandro e, chegada à hora nos dirigimos para lá. De início, a mãe do Léo, como diria Dima, nos auxiliou e até nos ajudou com a receita, logo ela teve que sair e o trabalho ficou por nossa inteira responsabilidade.

Dividimos as tarefas em partes e cada um ficou responsável pela realização. Prosseguimos com sinceridade, atenção e seriedade até que Leandro colocasse um limão no espremedor e o prensasse… Ao ser esmagado, o sumo do limão foi em direção ao seu rosto e parecia ter entrado em seus olhos. Aquilo o assustou e o feriu, pois a fruta possui um alto teor cítrico acrimonioso. Mas se para ele, aquilo foi ardido, uma pimenta no olho e o fez chorar involuntariamente, para nós foi um doce na boca de criança e nos divertimos muito. Apesar de ser muito solidário, o ser humano também possui esse comportamento de rir com a desgraça dos outros, principalmente quando estão em grupos. Nossa sinceridade, naquele momento perdera sua identidade e a algazarra nos consumiu. Embora, a nossa vontade fosse salivar toda a bebida, o que não seria uma má ideia, conseguimos rematar o nosso trabalho com higiene. Quer dizer… Bem… Creio que Leandro… Deixe isso quieto.

Após o feito, resolvemos ir caminhar pelas estradas próximas à cidade… Gritaria, bagunça, corrida, disputa, brincadeira, conversa, diversão e alegria não nos faltaram naquela tarde, ao ponto de nos passar despercebidos que estávamos num penhasco. Já que estávamos ali naquelas colinas contemplamos de longe, a imagem da nossa cidade. Como disse, o lugar que estávamos era montanhoso e, por isso, a paisagem à nossa volta era perfeita para ser apreciada. Naquela cordilheira observamos panoramicamente tudo aquilo que os nossos olhos conseguiam desnudar. Ali ficamos por diversas horas como se fôssemos senhores do tempo e da sabedoria abordando diversos assuntos como programas de televisão, escola, religião, costumes, crenças, sonhos, desejos, garotas, sexo, sexo, sexo, sexo, sexo e muito mais. Todos os temas colocados ali, na teoria pareciam de fácil domínio para nós, mas na prática, Leandro ganhou de nós, quando o assunto foi dirigir caminhão, pois embora não fosse habilitado, devido à sua idade ele era o único ali entre nós que exercia às vezes, tal função. O fato é que seu pai era dono e motorista de um caminhão e desde cedo tratou de passar o ofício ao filho.

Sentados, conversando e contemplando a natureza à nossa volta, notamos os últimos raios solares se digladiarem com os guardiões da noite. Tão logo o sol foi se escondendo abaixo da linha do horizonte deixando o Universo com uma cor crepuscular. Animais diversos como nhambus, codornas, seriemas e acauãs começaram a procurar seus esconderijos, cedendo o espaço para animais noturnos como corujas, tatus e preás começar a correr ao encalço das presas. Prontamente chegou a noite e, apressados, voltamos para nossas casas temendo o escuro. Nossas mães se preocupavam conosco, mas não eram tantas suas preocupações, pois além delas confiarem em nós, pensavam que estávamos na casa de Leandro dando o duro para cumprir o combinado com os organizadores da solenidade.

 

(Gilson Vasco, escritor)

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