Lembranças dos tempos de escola – Parte XXV
Redação DM
Publicado em 18 de novembro de 2015 às 01:07 | Atualizado há 11 anosPara se ter uma ideia de tamanha amizade entre nós, às vezes, combinávamos para preparar o jantar na casa de algum dos nossos colegas, outrora, íamos às festas, aniversários e outras atrações juntos. Isso sem falar nas muitas noites em que nos reuníamos na casa de Landa ou de Lucíola para ensaiarmos peças teatrais para apresentar na escola. Falando em Landa, aquela menina, além de linda, meu Deus, era a porta de entrada à perdição para muitos rapazinhos, uma amiga incrível e única! É claro que eu não a via com segundas intenções, mas que ela era muito bonita e atraente era. Já disse e não me canso de repetir, aquele foi um dos meus melhores anos vividos. Naquele tempo talvez eu ainda não tivesse essa visão, mas hoje percebo como as famílias dessas duas eram tolerantes, bem como, a família de Paty que nos acolhia sempre, sempre, desde que não pronunciássemos a palavra (não leia em voz alta próximo das crianças) bunda aos ouvidos do pai de Paty.
Certo dia Lucíola e Ámer, que através de Cal, se tornara meus grandes amigos, e eu, estávamos passeando pelas ruas da cidade, quando de repente um temporal desceu sobre nós, as nossas roupas se encharcaram. Os relâmpagos e trovões eram intensos e nos assustavam. Granizos estavam por todas as partes! Pensamos em irmos embora, mas já que estávamos molhados, resolvemos continuar ali e tomar um longo e gelado banho nas águas daquele temporal, na principal praça da cidade.
Vando era um grande colega, um grandioso amigo e perdidamente apaixonado por Lucíola que, por sua vez, namorava o irmão de Paty. Todos os outros alunos da escola imaginavam que eu a namorava, quando, na verdade, nossa relação era apenas e tão somente de grande amizade, pelo menos era o que eu pensava. Éramos por sermos tão bons amigos e parecidos que confundiam todos aqueles que nos viam juntos, exceto nossos colegas mais próximos.
Assim como Paty, Róger também morava numa residência nos fundos do restaurante-pousada de sua família. Era um amigo muito compreensível, porém, sonolento, dormia tanto que se para mim era essencial levantar cada dia mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada (frase em homenagem ao meu amigo Vando), para ele dormir era a principal ocupação, por isso, o apelidamos de bicho-preguiça. Tenho certeza que em uma competição entre Roney, Maick e ele, para ver quem mais gostava de dormir, Róger seria o vencedor, venceria a concorrência dormindo, literalmente.
Não fosse Érick, Roney, Edu e eu, ele não teria nenhuma presença nas aulas de Educação Física. Menos, creio ter exagerado um pouquinho! Mas ele não acordava no horário, coisa alguma. Prova disso, é que em um dia em que fomos lhe chamar, de nada adiantou, a falta foi inevitável, embora tentássemos encontrar alguma desculpa esfarrapada para justificar a sua ausência. Quase que nós éramos quem ficávamos com falta. Mais tarde, em período normal das demais disciplinas, ele tomou conhecimento de que havia ficado com falta no diário escolar e não gostou mesmo. Pediu-nos para que continuássemos lhe chamando e com maior insistência. Dissemos para ele que era muito ruim chamá-lo, pois além de ele dormir nos fundos do restaurante, dificultando a audição, os vizinhos já havia reclamado do nosso barulho que, na verdade, não era tão intenso assim, pois éramos cautelosos, quando o assunto era fazer com que alguém despertasse do sono noturno. Mas para não decepcioná-lo, e como ele morava em nossa rota costumeira, combinamos para que a partir daquele dia, ele dormisse à frente, nos primeiros cômodos da residência.
Durante vários dias, Róger cumpriu o pacto, o que nos favoreceu e muito o cumprimento de nossa parte, mas com todo o meu respeito ao leitor tomo a liberdade de dizer que o sem vergonha não tomava jeito mesmo. Acredite.
Numa noite, ele se esquecera do trato, da aula e fora dormir em seu quarto de antes. No outro dia, como de costume, despertei-me, levantei-me, coloquei o tênis, saí de casa, chamei Érick, posteriormente, Roney, fomos chamar Edu e, finalmente, dirigimo-nos à casa de Róger, que ficava um pouco abaixo da casa de Edu, do outro lado da avenida, nas imediações do terminal rodoviário, a fim de chamá-lo. Quando chegamos lá, Edu bateu na porta, tocou o interfone, chamou-o por diversas vezes e nada adiantou. O processo foi copiado por Roney e, logo após, repetido por Érick, mas tudo aquilo tinha sido em vão. Se nem o tilintar da campainha que soou lá dentro não o acordou, nós de fora não o acordariam mesmo. As horas pareciam passar velozmente, nada de Róger se manifestar. A avenida estava num silêncio profundo e chegar atrasado à aula estava se tornando irremediável, a menos que alguém fosse um antídoto e conseguissem despertá-lo. Todos olharam para mim e numa só voz compassada disseram que agora era a minha vez de tentar.
Eu avisei para os presentes que eu não tocaria naquela porta, tampouco no interfone, coisas que eles já tinham feito e de nada adiantara, mas o chamaria apenas três vezes em gritos crescentes. Chamei-o pela primeira vez com um baixíssimo tom de voz, quase impossível de ser ouvido até por meus companheiros que estavam acordados ao meu lado; a segunda vez chamei-o com a voz um pouco mais alta, capaz de ser claramente ouvida pelos que estavam próximo de mim; e quando fui chamá-lo pela terceira e última vez, meus colegas riram pensando ser uma brincadeira minha, o que de fato não era. Eu só ia chamá-lo aquela vez e caso ele não se despertasse ia somar mais uma falta em seu boletim, pois eu ia para a aula e o deixar dormindo.
Então me afastei um pouco dos meus colegas, puxei toda a respiração, para tomar fôlego, até sentir os pulmões pesados, sobrecarregados de ar e gritei o mais alto que pude: Róóóóóóóóóóóóóóóóger!!! Naquele momento meus companheiros pularam, repentinamente, para trás; os cães que dormiam ali por perto acordaram e, ao invés de ladrarem, correram de medo, os de longe uivavam quase sem parar; folhas e frutos caíram das árvores próximas; pássaros noturnos voaram dos seus ninhos em aflita revoada; gatos miavam em cima dos telhados, mas pareciam chorar; luzes se acenderam rapidamente, nas estâncias; guardas-noturnos apitaram, acionando o código de comunicação entre eles; galos cantaram melodias sem ritmos, fora de hora e descompassadas mundo afora; crianças choraram, num choro avassalador, ouvimos o ninar de mães que as acalentavam; alarmes dispararam; uma senhora bastante idosa, coitadinha, apareceu na porta de uma casa vizinha, com seus cabelos eriçados, trêmula de medo; e, neste momento, uma voz sonolenta e assustada ao mesmo tempo, parecida com a de Róger anunciava a aproximação de alguém vindo de dentro da pousada. Logo ele apareceu e, silenciosamente, marchamos rumo à quadra de esportes…
Durante toda a manhã, ninguém comentou nada, fiquei pensando no pânico causado por mim e prometi para mim mesmo que nunca mais faria aquilo ou algo semelhante. Contudo uma lição foi tirada: depois daquilo nunca mais precisamos chamar Róger, tampouco, ele faltou às aulas de Educação Física e o melhor daquilo tudo foi que a decisão partiu dele. Muitas vezes, quando chegávamos para chamá-lo, ele já havia se levantado e estava sentado na calçada nos esperando.
Terminado aquele ano letivo, a amizade e a união de todos ali continuaram. Lucíola, Cal, Ámer e eu, só andávamos juntos. Não que Érick, Roney e Edu fossem menos importantes, também andávamos, às vezes, é que naquelas férias, assim como em outras, eles foram para a fazenda.
(Gilson Vasco, escritor)