Brasil

Um amor de 1939

Redação DM

Publicado em 23 de novembro de 2015 às 23:01 | Atualizado há 11 anos

Era agosto de 1939, o Brasil era governado por Getulio Vargas, a Capital do Brasil era no Rio de Janeiro, nesta época o mundo passava por um momento triste com a segunda guerra mundial que estava começando e deixando a todos comovidos de emoção.

Em Tupinambá, interior de Goiás, a vida andava devagar, as poucas noticias que se tinha eram tidas através do radio do senhor Amadeu, um comerciante que tinha uma loja de tecidos. Na cidade todos se conheciam, as pessoas passeavam nas ruas e se encontravam no bar do senhor Rachid um libanês que havia se instalado na cidade vindo do Líbano e que era uma pessoa que todos gostavam.

Aos sábados, os jovens iam passear na Praça Venerando Cruz perto da Matriz de São Benedito, um dia andando pela praça encontrei uma moça linda, olhos azuis, cabelos loiros se chamava Margareth e havia chegado há pouco tempo do Rio de Janeiro com seus pais que tinham um parente na cidade que era seu  Demerval.

Seus pais Julio e Rosalva abriram uma panificadora e fazia pães deliciosos e que agradavam a todos e também biscoitos, broas, bolos e uma infinidade de outras quitandas que enchem a boca de tão saborosos que até hoje me lembro, com saudades. Com relação à Margareth quando a vi meu coração bateu de felicidade, pois senti que ela era  a mulher da minha vida, ao encontra-la a cumprimentei e perguntei seu nome dizendo:

– Como vai, tudo bem? Como se chama?

Então ela respondeu:

– Me chamo Margareth, e você como se chama?

Então respondi.

– Eu me chamo Dilermando.

Depois das conversas iniciais passamos a nos conhecer melhor, falamos das nossas vidas, disse a ela que trabalhava com meu pai Atanagildo em uma loja de sapatos e ela disse que estava trabalhando como professora na Escola Manuel Duarte Pereira. Ao terminarmos nossa conversa, marcamos para domingo à noite, às oito horas da noite.

No outro dia, aguardava com expectativa a chance de revê-la novamente. Meu coração pulsava de emoção, então me aprontei e fui a sua casa buscá-la para sairmos. Ao chegar à sua casa dona Rosalva e seu Júlio me receberam com alegria e disseram:

– Olá! Como vai. tudo bem? Você é o Dilermando, que vai sair com nossa filha?

Então respondi:

– Sim, sou eu.

Pois é, podem sair, mas não se demorem, pois amanhã temos que levantar cedo.

E então respondi:

– Podem ficar tranquilos seu Júlio e dona Rosalva, nós não vamos demorar.

Passado isso seu Júlio e dona Rosalva convidaram-me para ir à sala ouvirmos um rádio grande que ele possui, que era atração nessa época, pois, além de trazer informações,  tinha novelas e todo tipo de entretenimento. Ao sentarmos na sala ouvimos uma notícia que nos abalaria, que Hitler havia invadido a Polônia e que a Europa estava se preparando para a guerra que mais tarde iria surgir e que comoveria a humanidade com a morte dos judeus por Hitler e seu exército de sanguinários, que peço que nunca ocorra isso, um genocídio, um crime contra a humanidade que não se deve repetir sobre nenhum pretexto de ordem social, econômica, política e racial. E que deve ser abolido todo esse pensamento maléfico, que não acrescenta nada, somente age de forma bárbara.

Neste instante chega Margareth linda, com um vestido azul, tiara na cabeça, bonita como nunca tinha visto. Um encanto que alegrou meu coração. Então saímos e fomos para o bar do seu Guilherme, que tinha uma variedade enorme de salgados de todos os tipos. Pedi um pastel para eu e para ela e também quibes e sucos de laranja. Enquanto comíamos disse a ela que desde o momento que a vi senti algo muito forte e que se ela aceitava namorar comigo. Ela disse que sim e que também estava sentindo a mesma coisa, mas que eu deveria falar com seu pai, Júlio, pois era muito sistemático, gostava das coisas bem acertadas, resolvidas, que não ficassem pelo meio do caminho.

Diante de tudo isso, disse que sim, marcamos o almoço na casa de seu Júlio. Era o dia 28 de agosto de 1939, me lembro como se fosse hoje, chega o dia esperado e fui à casa de seu Júlio e dona Rosalva. Ao encontrarem comigo na porta, disseram:

– Fique  à vontade, pois a Margareth desce e iremos para o almoço.

Em seguida Margareth desce e fomos para o almoço. Ao começar o almoço confesso que não gostei muito da comida, pois era feijão preto, camarão, lagosta, ou seja, uma comida típica do Rio de Janeiro. Eu, que sou goiano, acostumado a costelinha de porco, linguiça de porco, tutu de feijão, não me agradava tal comida. Ainda bem que tinha uma macarronada muito bonita com um molho de tomate por cima e o macarrão estava uma delícia, que até hoje não esqueço, ficou guardada na minha memória, nos meus pensamentos como uma lembrança agradável do nosso começo de namoro.

Ao acabar o almoço seu Júlio me chamou à parte e me perguntou:

– O que você quer com minha filha? Ela é moça de família. Se for para namorar, é para casar. Se não, não permito o namoro.

Então respondi:

– Pode ficar tranquilo, seu Júlio, que minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis. Pretendo casar com ela, pois a amo muito.

Depois de dizer isso, ele disse:

– Então está bem, Dirlemando. Eu permito que vocês namorem.

Ao voltar para sala e contar para Margareth, ela sorriu e me deu um forte abraço e um beijo. O nosso namoro ia muito bem, estava me formando, concluindo o ginasial. Mais na frente concluí o segundo grau, comecei a trabalhar em um escritório de contabilidade que existia em Goiânia. Nessa época Goiânia era pequena, existiam poucas casas. Não era igual hoje, que tem grandes edificações, grandes prédios a perder de vista.

Fiquei pouco tempo trabalhando, arrumei um trabalho de atendente em uma loja em Goiânia e em 1945 pedi a mão de Margareth em casamento. Casamos em 20 de janeiro de 1946 e fomos morar no Rio de Janeiro, sua terra natal. Chegando lá moramos no bairro do Catete, em uma casa que tínhamos alugado do seu Rachid, um libanês da minha cidade e que a possuía e que estava sem inquilino e que nos alugou a um preço pequeno, pois era muito meu amigo e pediu que zelasse da casa para que não estragasse.

A vida passava e com ela muitas mudanças na minha vida e de Margareth. Havia prestado vestibular para Direito e Margareth para Jornalismo e estávamos lutando, batalhando e galgando passos que mais tarde iriam se frutificar com término do meu curso de Direito e também de Jornalismo de Margareth, e com a montagem do meu escritório de advocacia que havia montado. Tinha bastante clientes e Margareth também estava trabalhando, sendo o seu trabalho na Rádio Nacional, a mais ouvida na época, sendo então jornalista da rádio com um programa inteiramente seu e que estava fazendo sucesso. Enfim, nossa vida se delineava, rendendo bastante frutos de felicidade.

Hoje, aos 90 anos, em 2010, vivo com minha esposa Margareth e meus filhos Paulo, Antônia, Tiago e Bernadete e meus netos Rômulo, Fábio, Fernanda e Carla. Vivo com intensa felicidade, mas aquele ano de 1939, ano sofrido, é verdade, cheio de privações, mas também de alegrias, nele encontrei meu grande amor, um sentimento de grande emoção que está no meu coração.

(Ruy da Penha Lôbo, graduado em Letras Espanhol – UCG – Hoje Puc Goiás – blog http://imruy.blogspot.com twitter: @ penha Lobo – residente em Bonfinópolis – Goiás)

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia