Uma questão de força e identidade
Redação DM
Publicado em 25 de novembro de 2015 às 22:36 | Atualizado há 1 anoOs cabelos são uma forte expressão de personalidade e um traço marcante da aparência das pessoas. Mas a questão das escolhas capilares vão além da estética. Muitas mulheres são empurradas a pensar que os cabelos lisos são mais bonitos e “aceitáveis”. Esse processo de impregnação de tal pensamento é todo o tempo reforçado pelos meios de comunicação.
Grandes cabeleiras lisas estampam as fotos das revistas femininas, as atrizes da TV e modelos, também na maioria das vezes apresentam o visual liso. Influenciadas por essas informações que bombardeiam as garotas desde muito jovens, aceitar um cabelo diferente como sendo tão belo quanto é uma tarefa difícil.
Assumir um cabelo crespo tem sido colocado como uma questão de auto- afirmação, o orgulho crespo. Muitas mulheres mesmo com toda a dificuldade vem tentando caminhar na contramão dos padrões e manter ou retornar ao visual crespo. A auto-estima, o preconceito e outros fatores sempre aparecem nesse processo.

A estudante de jornalismo Mileny Cordeiro diz que apesar de sempre admirar as cacheadas e reconhecer a beleza dos cachos em certa época foi convencida de que o alisamento a deixaria mais bonita “Desde pequena eu sempre lidei bem com o meu cabelo, no sentido de gostar dele. Na adolescência eu resolvi fazer selagem porque colocaram na minha cabeça que ela amenizava o volume e que facilitava os cuidados com o cabelo. Eu fiquei um pouco triste com o resultado, porque o procedimento alisou um pouco os meus cachos”.
A autônoma Paula Tamires também precisou se fortalecer pra simplesmente deixar os cabelos naturais, ela lembra o quanto o processo é difícil pois os comentários acabam atingindo a auto-estima das mulheres. Ela conta o motivo de ter deixado de lado os alisamentos “Entre muitos acontecimentos me sentir mais segura para assumir minha verdadeira identidade.” Paula também comenta que o motivo de ter começado os processos químicos capilares era se sentir mais aceita pela sociedade.

Durante a transição, que é o processo de deixar o liso para trás e assumir os cachos ainda existem outras complicações. Uma delas é fazer as pessoas entenderem que o cabelo liso é tido como mais bonito por uma questão de imposição de padrão, as pessoas que não compreendem isso ainda tentam fazer as cacheadas mudar de idéia. “Muitos me criticaram dizendo que meu cabelo era lindo como era (liso), e colocando minha auto-estima lá em baixo, como se assumir um cabelo afro fosse uma coisa muito errada”.
A diferença de textura entre a parte alisada e os cabelos naturais também é um incômodo durante a transição. “Os meus cachos realmente “alisaram” um pouco com a selagem. Durante o processo eu enfrentei problemas com definição, mas o que mais me incomodava eram os comentários de pessoas próximas” relata Mileny.
Será o que sai mais caro, manter os cabelos lisos com processos químicos ou produtos específicos para cabelos cacheados? Na verdade em uma pesquisa mesmo que breve, o fato de que é muito mais fácil encontrar produtos que alisam do que produtos para cabelos cacheados que ajudem a retornar a uma aparência próxima da textura original do cabelo.
Mileny fala que no seu caso, não gasta muito pra manter os cabelos cacheados e que essa conversa de que cabelo cacheado dá muito trabalho é na verdade um discurso permeado por racismo “A verdade é que o cabelo cacheado, o cabelo crespo, ainda é visto como o cabelo indomável, o cabelo bagunçado, o cabelo “ruim”, aquele todo volumoso e frisado.
A verdade é que isso é racismo. Muitas pessoas acham que é difícil cuidar do meu cabelo, mas não é”. Paula discorda, ela acha que os produtos de alisamento são mais acessíveis “Sim, só que os de alisamento de qualidade são bem mais acessíveis que os de manter os cachos”. Provavelmente o mercado oferece muito mais alternativas para quem quer alisar, do que quem quer deixar os cabelos naturais e necessite de mais pesquisa pra encontrar esse tipo de produto.
Riscos
É sempre bom lembrar que os processos de alisamento são violentos e oferecem muitos riscos para a saúde. Inclusive casos de mulheres que morreram depois de processos químicos para alisar os cabelos, por intoxicação ou reações alérgicas. O uso descuidado de produtos como formol por salões de beleza é muito comum, apesar das recomendações dos órgãos de saúde.
A facilidade de acesso a esses produtos pode colocar em risco inclusive a saúde das crianças. Não só a auto-estima de crianças de cabelo crespo é abalada como sua integridade física. Mileny fala do que acontece em sua família “Em qualquer supermercado você encontra produtos de alisamento com preços acessíveis. Hoje as pessoas fazem selagem em casa! As minhas tias são um exemplo, elas fazem selagem nos cabelos das minhas primas de 7 e 8 anos. Eu acho um absurdo!”.
Para todas as cacheadas é necessário força pra mostrar que a beleza não é exclusividade dos cabelos lisos. Todos os dias ouvir comentários sobre sua aparência e aprender a tapar os ouvidos para muitos deles. Mulheres que tem cabelos assumidos, ou estão em transição, ou com uma ponta de vontade de voltar a textura natural Mileny lembra “O cabelo crespo não é questão de moda, mas sim uma questão política, de não só se sentir bem mas de se posicionar contra esse racismo que destrói muitas mulheres”.
