Brasil

Batam nos estudantes!

Redação DM

Publicado em 25 de novembro de 2015 às 20:58 | Atualizado há 11 anos

É estranho… Mas as pessoas nesse país enviesado apanham antes de serem presas; da mesma forma, apanham quando são presas e; na prisão são violentadas sistematicamente.

Caso decidamos fazer uma greve, não tem jeito, apanharemos e muito; se somos favelados e queremos morar; iremos, é claro, no movimento que fizermos também, apanhar. Mas se nossa luta é por reforma agrária, terra repartida e justa; iremos apanhar e com alguma sorte, sairemos vivos.

Agora no caso de eu ser professor e precisar mesmo que aumentem meu salário boboca, afinal, todo mundo já viu que a energia subiu, a água também, o aluguel, os preços dos alimentos estão “nas grimpas” e ainda ontem, a gasolina aumentou… Em praça pública e sob as objetivas das câmeras serei “moído” pela mais especializada tropa de choque que existir na corporação dos nossos “protetores” da PM.

Não para por aí! Eu sendo um ambientalista e defendendo que a Amazônia não vire uma grande pastagem para os gados da Friboi e empresas afins, serei inequivocamente morto no próximo cruzamento; se sou um educador social e que apenas defendo que compras coletivas são mais inteligentes e eficazes e que permitem que os paupérrimos salários sejam poupados em até sessenta por cento, um bando de “gorilas” me sova pra valer porque, afinal, estou atrapalhando a “fluidez da economia” dos grandes supermercados.

Mas se sou um índio e, até as pedras sabem, que desde o surgimento deste maldito “país do futuro” sempre fui eliminado pela espada, pela cruz, pela gripe e pela varíola e decido exigir que meu miúdo quinhão de terra seja demarcado e é claro, respeitado, ai então minha morte é líquida, certa e em questão de dias por tiros de “20”, por atropelamento ou mesmo, serei chacinado por consórcios de latifundiários que vivem a receber financiamentos do Plano Safra.

Agora, se tenho entre 13 e 18 anos, morador da periferia, com alguma formação política crítica e se tenho em mim e em meu comportamento o referencial vivo e ativo de professores bravos e corajosos que se esmeram para me fazer ver o que ainda não vi; que a partir dos rigores da ciência me demonstram que a luta social sempre existiu em qualquer tempo da vida nacional e que ela, as lutas sociais, políticas e populares são possibilidades libertárias para a constituição de novas consciências individuais e sociais… Aí a história é recontada.

Aí… O Estado e seus pretorianos meteram “os pés pelas mãos” e acabam de inspirar e desencadear o surgimento de quadros políticos que irão para os próximos trinta anos ser a nova frente política a atuar, sobretudo, na esquerda dos partidos, dos movimentos sociais e do cotidiano do trabalho.

A luta política, portanto, a luta de classes acaba de receber novos ingredientes políticos que irão alterar completamente os rumos da luta entre capital e trabalho nesse país de barbáries banais.

Vocês invadiram escolas, bateram, humilharam e prenderam os melhores professores da já carcomida educação de São Paulo e nesse momento, seguem vilipendiando e precarizando a educação em todo o Brasil. Estão certos do “ajuste fiscal” que, de outro modo, é muito arrocho social e avançam com suas políticas de morte. Pois bem…

…Vocês estão tratando com os mesmos que na história brasileira introduziram as luzes da Revolução Francesa na colônia do Brasil; que se levantaram por alguma forma de independência no deprimente domínio da metrópole portuguesa; que encararam capitães-do-mato, senhores de escravos e coronéis pelo fim da escravidão; são os mesmos que fizeram guerras e guerrilhas em todo o país; são os que fundaram a República.

Esses professores e estudantes que agora apanham, são os mesmos que deram força, sentido e densidade teórica para a ruptura dos anos 1930; que combateram o nazifascismo no Brasil e na Itália.

Não é pouca coisa… E vocês sem se aperceberem, acionaram um espírito e que é parte do próprio tempo, inclusive, do tempo subjetivo. Esses que agora são agredidos e presos se não sabem, foram os mesmos torturados e mortos pelo chumbo militaresco que golpeou fundo a vida nacional e que, conforme atestamos, ainda hoje, inspira empreitadas similares.

Esses “suburbanos” são o sentido, o cume e a luz de todo o progresso político brasileiro e sem eles, sem o atrevimento dessa gente-sem-fim, sem limites ou medos, o despotismo tirânico de nossa ditadura teria durado muito mais.

Batam nos estudantes, maltratem-nos, submetam-nos em nome desta “estranha ordem” e acionem a consciência do tempo e da história. Sangrem seus rostos e joguem-nos no “breu das tocas” das prisões… A luta de classes no Brasil acaba de ser completamente alterada a favor do mundo social. Creiam… O imprevisível, tal qual uma toupeira, irá surgir a qualquer momento.

Vocês pagarão!

 

(Ângelo Cavalcante, economista, cientista político, doutorando (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara)

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