Brasil

Subcultura delinquente

Redação DM

Publicado em 3 de dezembro de 2015 às 23:06 | Atualizado há 11 anos

O mundo sempre está em busca de justificativas, os seres humanos sempre tentam achar fórmulas perfeitas para esconder o lixo embaixo do tapete, se agrupam, se dividem, formam tribos, criam sociedades dentro das sociedades.

O normal para certos grupos é agir contrário às leis, com ideologias próprias, criam religiões para substituir a imagem de Deus pela do homem. Sentem-se perdidos. Entregam-se a devaneios coletivos, onde os seguidores buscam completar vazios que no mundo real nunca existiram.

Tudo isso nada mais é do que uma inversão de valores, onde cada um age segundo sua própria vontade, criando uma anomia social. (Anomia quer dizer ausência de leis), estas subculturas têm caráter contra estatal, não querem ser regidos pela lei, e sim por vontade própria.

Um exemplo de subcultura é um morro comandado por traficantes, ou seja, quem é o dono do morro? É o traficante. Ele cria leis, monta tribunais de exceção, oferece uma falsa ajuda e proteção, impõe toque de recolher, manda fechar escolas e comércio.

É quando tais ideologias saem dos morros e vêm para centros urbanos em todo País. O que fazer? Se tivermos um estado constituído, o correto é aplicar as leis. Isso é feito, mas o problema não é a lei, e sim a cultura.

Mas essa falsa sensação de segurança tem um preço, que talvez seja muito alto, o preço a ser cobrado por muitas vezes é a própria vida dos componentes daquele sistema.

Um presídio tem regras próprias, seu comando, divisão de classes, e um mundo dentro de outro mundo, e quem passa a fazer parte daquela situação deve se adaptar ou então perecer frente aquele sistema.

Uma torcida organizada cria seus valores a partir da cor da camisa que veste, todos estão sempre prontos a combater seu inimigo. Como se classifica um inimigo para este grupo? Sair destruindo lojas e terminais de ônibus fazem parte dessa ideologia? Que cultura seria essa senão uma contracultura, pois afronta a todo um sistema. E ao mesmo tempo temos torcedores que respeitam regras e normas, por que essa diferença de pensamento? Onde se deu a ruptura, foi na criação paterna ou na convivência social?

O mundo é assim, feito de diversidades. Pluralidade de classes. De grupos. De etnias e raças. O que temos é uma cultura dentro de uma cultura, uma soma dos diferentes que acabam se tornando iguais.

Os membros de uma dada comunidade tendem a se multiplicar, formam seu conhecimento que dinamicamente são transmitidos de geração em geração, mantendo assim o ciclo do conhecimento de classes e grupos que tendem a entrar em choque com a cultura dominante.

Existem várias culturas em uma mesma sociedade, precisamos colocar as diversidades no mesmo conjunto, mantendo a identidade de cada forma de expressão.

Na sociedade contemporânea o status não se refere apenas a dinheiro, carros de luxo, poder intelectual, é muito mais que isso, engloba também modelos de comportamento que são seguidos pelos indecisos, aqueles que buscam uma afinação frente ao coletivo.

Jovens sem instrução e de classes baixas tendem a se frustrar e a delinquência vem como resposta à frustração, e o comportamento negativo faz com que rejeitem o sistema dominante.

O ambiente age sobre cada cidadão de uma forma. Vai depender do ambiente para sua evolução social, a falta de oportunidade é apenas uma porta que se fecha, e com isso novas portas se abrem, criando ferramentas de absorção, onde os excluídos vêm a se agregar.

Todos têm aspirações e passamos a vida inteira tentando chegar ao caminho do contentamento, e quando os desvios comportamentais acontecem, o indivíduo fica ilhado dentro de si mesmo. Não importando a classe social ou intelectual. Não é raro ouvirmos histórias de grandes artistas que um dia brilharam na mídia irem parar na sarjeta.

Falar de desvios e de contracultura é falar de uma sociedade que tem diversos valores, podemos fazer um estudo científico sobre cada caso, e com o estudo chegar a uma conclusão lógica. Mas nem um tipo de estudo finaliza um assunto, pois a evolução é contínua, e o que é hoje um caminho seguro, amanhã poderá estar ultrapassado.

Um curso técnico em eletrônica no passado era o caminho da luz, na sociedade moderna quase ninguém conserta objetos eletrônicos, e esta profissão não se manteve no mercado. O sapateiro hoje é algo que os jovens desconhecem. O curso de datilografia, que era pré requisito de emprego, hoje se junta à história dos dinossauros. E olha que não faz muito tempo que a máquina de escrever foi abolida das empresas.

Por mais que busquemos tipos de grupos que se encaixem como subcultura delinquente não conseguiremos encerrar o assunto, pois sempre estarão surgindo novos grupos contrários ao sistema. Devemos entender o problema na raiz. O equilíbrio social é um regulador de condutas, pois se as metodologias fossem em sentido único, com certeza teríamos menos desvios.

Nos países que há um equilíbrio econômico, os objetivos são comuns. A taxa de criminalidade é bem menor. Nos países onde o ensino público atende aos anseios coletivos, os jovens tendem a trilhar os mesmos caminhos, e assim se move a sociedade. Quanto maior a expectativa de equilíbrio social, menos pessoas frustradas encontraremos pelo caminho.

O delinquente surge por falhas e rupturas no sistema. Ninguém nasce bandido. O bandido surge em algum momento de falha. A subcultura vai surgir em algum momento da formação de caráter. O indivíduo é considerado como desviante quando sua conduta não for aceita pelos padrões sociais, assim o desviado buscara suprir seus anseios com aqueles que o consideram como iguais.

Para alguns jovens roubar não significa adquirir bens para se tornar estável, e sim para adquirir status social nas redes midiáticas. Não é raro postagens de jovens mostrando armas e dinheiro como forma de ostentação. Meninas nuas se exibindo como produtos nas vitrines das lojas, esses casos independem da classe social a qual estão vinculadas.

Quem está fora de um jogo em rede na internet está desconectado, quem não tem determinado tipo de celular está fora da inclusão de determinado grupo. As comunidades se formam virtualmente.

Aí surge outra pergunta: e os jovens que não dispõem de tais tecnologias, como vivem? Quais são seus valores, como os que moram afastados dos grandes centros urbanos?

E os adultos do mundo moderno, que são aquelas crianças do passado que não tiveram nada disso? Será que são mais felizes? Como podemos refletir sobre o que não vivemos? Como podemos mudar algo que desconhecemos? Perguntas feitas, respostas a buscar.

O que será o mundo daqui a 20 anos? Que sementes estamos plantando? Qual será o fruto das árvores do amanhã? O que temos é só pergunta. Ou poderemos adubar com o que temos de melhor para que pragas não ataquem as novas plantas? Como vamos classificar o que é joio e o que é trigo se todos nascem iguais?

E assim se segue um jogo eterno de perguntas. Pois por vezes as perguntas são mais importantes do que as respostas, pois quando nos calarmos diante dos problemas é porque chegamos ao fim de nossa jornada, estaremos vivendo em um mundo perfeito ou estaremos acostumados com as imperfeições, e já teremos estas incorporadas em nossa acultura?

O que é preciso é refletir sobre o que temos de material humano, e como poderemos utilizar ferramentas contemporâneas para redução desses desajustes. Os estudos não devem ser focados em apenas discutir o porquê, e sim ir em busca de como atingiremos os desviantes.

E como o desemprego, as drogas, a miséria, e as vaidades de consumo e ostentação estão interferindo na estrutura social, não tem como discutir um problema de forma isolada, pois tudo se comunica, cada ação vai gerar uma reação.

E o reflexo pode ser bom ou ruim, vai depender do aceite social, o que não podemos deixar de lado é o cumprimento de normas legais, pois se assim o fizermos estaremos nos entregando às barbáries de tempos pré-históricos.

E se assim o fizermos estaremos jogando no lixo séculos de busca pela evolução, e lutas de criação de um mundo melhor.

E se não puder fazer nada para mudar o mundo, não se entristeça, faça o mínimo e mude o seu mundo, e melhore para aqueles que estão próximos a você.

 

(Paulo César de Castro Gomes, graduado em Direito pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduado em docência universitária pela Universidade Salgado de Oliveira Goiânia, pós-graduando em Criminologia e Segurança Pública UFG)

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