Artigo: A curiosa simbiose de Scioli e Macri
Redação DM
Publicado em 20 de outubro de 2015 às 06:05 | Atualizado há 11 anosBUENOS AIRES — Uma das curiosidades da última fase da corrida eleitoral é que cada um dos principais candidatos começa a adquirir as características do outro. Como Don Quixote e Sancho Pança no romance de Cervantes, Daniel Scioli e Mauricio Macri acabam se parecendo.
Não se trata, naturalmente, de uma expressão literal. É apenas a reação de ambos como mostram as pesquisas. No entanto, nesta convergência marcante se esconde um dos principais traços que caracterizam o novo ciclo da vida pública argentina: a política deixa de estar polarizada e busca, para além da vontade de seus atores, o centro.
Macri tenta se movimentar do papel que havia sido atribuído no início da obra. Não quer ser visto como líder tecnocrata que projeta sobre a administração pública os critérios do mercado e da racionalidade empresarial. Em outras palavras: não quer ser visto como a encarnação do liberalismo, identificado com as restrições do ajuste e a traumática memória dos anos 90. Há três semanas, substituiu como porta-vozes econômicos Carlos Melconian, que seria ministro da Economia se Carlos Menem triunfava em 2003, e Federico Sturzenegger, que acompanhou Cavallo em 2001. Esses antecedentes seriam o pretexto para caricaturá-los na fase decisiva de proselitismo. Portanto, entraram em cena Alfonso Prat-Gay, um socialdemocrata devoto do lorde Keynes, e Rogelio Frigerio, que só com o seu nome sobrenome expressa a fé do desenvolvimentismo.
Scioli revelou que, em caso de vitória, nomearia Silvina Batakis como substituta de Axel Kicillof. Por seu trabalho na província de Buenos Aires, Batakis é treinada em duas atividades: ajuste fiscal e dívida. Scioli ficou fascinado por ela em 2012. Cristina Kirchner havia deixado de liberar os fundos quando tinha que pagar a metade do bônus e ele se viu em frente ao abismo. A ministra projetou um aumento de impostos, recorreu a grandes fundos financeiros e superou a situação.
No mercado de dívidas, Batakis é conhecida como uma profissional correta e destacam Walter Saracco e Rosana Bebén, seus dois colaboradores na emissão de títulos. Também apontam um detalhe: em todas as emissões de Buenos Aires se esclarece que se o Banco Central não entregar os dólares para resgatar um título, a província recorreria a pagamentos à vista. Ousada, Batakis: Kicillof perseguiu com a Gendarmaria aqueles que beberam dessa fonte.
Além de mudar seus porta-vozes, Macri enfatizou outras mensagens. Sua propaganda convida a sonhar com a casa própria. E promete o maior plano de infraestrutura da História. Em outras palavras, Macri se oferece como o defensor da distribuição de renda. Encontrou, aliás, uma maneira polida de expressá-lo: em julho elogiou a estatização da Aerolíneas e o programa Futebol para Todos.
Scioli, entretanto, cantarola o repertório de seus mandantes. Enviou Urtubey para Nova York para admitir a crise energética, reconhecer que para atenuar um ajuste há que reduzir a dívida e prometer um acordo com os holdouts: “Nunca pague mais do que a troca de 2010”. Paradoxo desta metamorfose: a de Scioli é a única equipe que se atribui estar falando com os fundos abutres. A qualquer momento Macri os denuncia.
No entanto, desde março, quando Melconian o propôs seu programa, Macri quase não falava mais de números na intimidade. Ele revela a política. Em sua campanha cada vez menos intervém Prat-Gay — mais interessado hoje em política externa do que economia —, Ernesto Sanz e Elisa Carrio. E quando o apresentam como o candidato da Pro, corrige: “do Mudemos”.
Lógico: deve seduzir os eleitores de Margarita Stolbizer. Scioli, ao contrário, só pensa na crise econômica. Mas quando insinua que percebe as dificuldades, a senhora de Kirchner o obriga a jurar continuidade. É o de menos. O verdadeiro problema do governador é outro: tem pânico de uma corrida monetária.